quarta-feira, 6 de maio de 2015

Orson Welles,100 anos: Inacabado e incômodo

Orson Welles, "Faustus", 1937, Mercury Theatre - Imagem do livro "Orson Welles: Banda de um homem só", Rio de Janeiro, Editora Azougue, 2015 (no prelo)


Por Adalberto Müller
Da Revista Cult

Comemorar os 100 anos do nascimento de Orson Welles, além do aspecto memorialístico, implica em discutir uma vida e uma obra cheias de lacunas e de mistérios. Como muitos de seus personagens, ele foi e é, ainda, um enigma. George Orson Welles teve muitas vidas. Ou, pelo menos, duas.
Em uma delas, foi uma celebridade: nos palcos, em carreira meteórica a partir dos 17 anos; no rádio, criou novas formas de comunicação e provocou um estado de caos nos EUA, com A guerra dos mundos; no cinema, assinou o mais generoso contrato que jamais diretor algum assinaria com Hollywood, que o levou a dirigir, aos 25 anos, Cidadão Kane, marco do cinema moderno; na política, aliado importante do New Deal de Franklin Delano Roosevelt; enfim, um diretor decisivo na transformação do cinema europeu, nos anos 1950 e 1960, influenciando diretamente e interagindo com diretores da Nouvelle Vague, dos novos cinemas europeus, e do “terceiro mundo” (Glauber Rocha, Paulo Emílio Salles Gomes, e Vinicius de Moraes o atestam).

Na outra vida, foi um homem marcado, desde a infância, por instabilidades emocionais; por casamentos e relacionamentos que não deram certo; por inimizades e traições; por uma vida boêmia, errante e sem domicílio – Welles passou sua vida em hotéis. A maior parte de suas obras foi recusada ou mutilada, e deixou uma fileira tão grande quanto impressionante de projetos inacabados. Essa obra fragmentária, hoje em arquivos, ajuda a repensar o legado de Welles.

Se é verdade que a relação entre a obra e o homem é importante para atingir a compreensão do estilo, no caso de Welles é preciso pensar em dois tipos de obra, e dois tipos de estilo: uma, a grandiosa, a grandiloquente, a insuperável obra composta por filmes hoje clássicos, que vale lembrar: Cidadão Kane, Soberba, A dama de Shangai, Otelo, A marca da maldade, Falstaff e Verdades e mentiras; outra, a obra incompleta, inacabada, problemática: Heart of Darkness (1939-1940), It’s All True (1942-?), Don Quixote (1957-1972-?), Moby Dick (1956-?), The Other Side of The Wind (1970-1976-2015-?). Ou seja, há um Welles muito além de Cidadão Kane. Mas estranhamente, Kane também ajuda a pensar Welles e suas obras.

Em Cidadão Kane, Welles expõe, através da vida do magnata das mídias, Charles Forster Kane, que todas as formas de poder, na era moderna, se consolidam com os meios de comunicação de massa (hoje apoiados pelas chamadas mídias sociais, que apenas replicam mensagens dominantes). Pode-se dizer que Cidadão Kane é, para o cinema, o que Kant é para a filosofia: ele pôs em questão, nesse filme, as infinitas possibilidades de se fazer um filme, de se fazer cinema. Produzido dentro de Hollywood, o filme rompia com praticamente todas as convenções de dramaturgia e de estilo do “cinema clássico hollywoodiano”. Começa rompendo a moldura causal e psicológica do realismo e do romanesco pseudoaristotélico. Ao invés de uma narrativa linear, é como um quadro cubista, oferecendo múltiplas perspectivas para os fatos, criando vazios e incertezas. Também rompeu com modos de fotografar e de montar os filmes. Kane é, em vários sentidos, um antifilme, um filme que se desconstrói, um filme-enigma. A própria figura de C. F. Kane é ambígua, e se torna vítima de sua própria sede de poder – o que acontece em outros filmes wellesianos como Macbeth e A marca da maldade.

A figura do monomaníaco ambicioso e despótico habita a maior parte das obras de Welles. Desde o seu Dracula radiofônico (1937) até o ambicioso projeto de um oratório multimídia chamado Moby Dick (1956) sobre o maníaco capitão Ahab. Em seu projeto de adaptar Joseph Conrad (Coração das trevas, 1939-1940), Welles iria protagonizar (com uso de câmera subjetiva) tanto Marlow, o jovem aventureiro, quanto Kurtz, o déspota esclarecido na selva africana (o qual seria, depois, interpretado por Marlon Brando, no filme de Coppola, que parte do projeto de Welles).

Como grande leitor de Shakespeare, Welles sempre se preocupou com a questão do poder. Mais do que isso, com o modo como o poder deixa de ser um meio para se transformar num fim. A sede de poder, a vontade de poder, é o motor do cinema wellesiano. Vale lembrar que o jovem Orson, aos nove anos, pretendia escrever um ensaio sobre Nietzsche. Por isso mesmo, os seus magnatas (Kane, Amberson, Arkadin) são figurações do poder da plutocracia americana, que ele conheceu de perto. 

Nascido e criado no meio-oeste americano, filho de um industrial, Welles sabia que a engrenagem do poder, na modernidade, roda infinitamente com o óleo do dinheiro, enquanto vai moendo os menos favorecidos. Por isso mesmo, sua obra, mesmo que reprimida e fraturada, mesmo que fragmentária, é como o fantasma do velho Hamlet: sempre retorna para dizer que há algo de podre no reino do capitalismo.


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Humildade

As lágrimas de São Pedro (detalhe) - El Greco


Por Luiz Felipe Pondé
Da Ilustrada

A humildade é uma das virtudes mais difíceis na vida. Principalmente porque está fora de moda, confundida com baixa autoestima. Somos ensinados a buscar o orgulho como autoafirmação. Nada mais distante de uma personalidade razoavelmente madura do que o orgulho.

A humildade é uma das virtudes bíblicas. O filósofo judeu Martin Buber, quando elenca em seu maravilhoso  (Prometheus Books), de 1988, as quatro principais virtudes do místico hassídico, coloca a humildade como a máxima entre elas.

O hassidismo é uma escola judaica típica do leste europeu dos séculos 18 e 19, e o termo vem da palavra hebraica hesed, que pode ser traduzida por piedade.

As quatro virtudes são: êxtase na contemplação , trabalho , a intenção reta do coração  e a humildade . Segundo ele, alguém que tem intimidade com D'us (no judaísmo, não se escreve o nome de Deus completo) tem gosto pelo trabalho, seja ele qual for, porque sente que ser parte do mundo é colaborar com ele.

O êxtase é o que acontece com quem vê D'us e sua piedade com frequência. O ato de contemplar D'us -a palavra , em hebraico, remete ao fogo- incendeia a alma. A intimidade com Deus leva o místico a não conseguir mentir aquilo que sente e pensa, ele diz. Daí a ideia de um coração reto.

Por fim, a humildade. As três anteriores convergem para o que Buber se refere como a consciência de que D'us carrega o mundo na palma da Sua mão, imagem comum na Bíblia hebraica (o Velho Testamento dos cristãos).

É comum personagens como Davi e Abraão usarem essa imagem ou similares para descrever a relação entre D'us e o mundo. A humildade é marca suprema da alma que se conhece sem mentir para si mesma.

A humildade também pode ser vista como grande virtude e desafio para pessoas distantes de qualquer sensibilidade religiosa, mas que têm grande sucesso na vida.

Se você é alguém que não teve sucesso na vida, dizer que é humilde é mais falta de opção do que qualquer virtude de fato. Por isso, a humildade sempre foi cobrada de grandes guerreiros e mulheres lindas.

O sucesso, seja ele físico, financeiro, intelectual ou imaterial, sempre foi um desafio: o risco do sucesso é deformar a alma. Sobre isso, basta ver o horror que é o mundo intelectual e seu profundo desprezo (ao contrário do que querem transparecer) pelo povo.

A chamada segurança de si vai melhor com a humildade do que com o self-marketing. Qualquer pessoa sabe que não se pode falar das próprias virtudes, porque o autoelogio é signo de desespero.

A humildade é o manto com o qual a alma virtuosa se cobre e esconde sua face. E isso nada tem a ver com tristeza ou falta de percepção do sucesso. A felicidade, quando verdadeira, é sempre uma forma de generosidade.

Assim como D'us esconde a sua face, segundo o hassidismo, para nos proteger de sua grandeza, o virtuoso esconde seu rosto em chamas, seja ele incendiado por D'us, seja pelo sucesso, para que não saibam que ele está acima do homem comum.

Não é outro o sentido de se dizer, no cristianismo, que Jesus era um humilde. Qualquer homem comum que fosse alçado a condição de D'us seria um miserável orgulhoso.

Porém, existe um outro tipo de humildade, de que não se costuma falar muito, mas que considero tão essencial quanto o que é mais falado no mundo da filosofia moral. Trata-se da humildade da qual fala Freud. Estranho? Nem tanto. Na psicanálise, a humildade é também essencial.

O sábio de Viena dizia que se ele conseguisse levar seu paciente a trabalhar e a amar razoavelmente, estaria satisfeito como psicanalista.

Além do fato de que grande parte dos psicanalistas é tão horrorosamente orgulhosa quanto minha tribo de filósofos e afins (em alguns casos, o orgulho de alguns beira o grotesco), acho que essa fala de Freud não serve apenas para esses profissionais, mas também para os pacientes.

Muitas vezes, se concentrar em conseguir levantar de manhã e trabalhar, conseguir olhar para as pessoas à sua volta e ser generoso, pode ser o maior dos milagres na Terra.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

As leis nas peças de William Shakespeare


Por Nelson de Sá
Da Ilustrada

Livro de professor americano analisa peças do autor inglês (1564-1616) centradas no mundo jurídico para mostrar, por meio dessas questões, que a obra do bardo continua atual. Personalidades do direito e do teatro comentam no texto as relações entre literatura -não só a de Shakespeare- e a realidade contemporânea.

*

A primeira coisa a fazer: matar todos os advogados. O verso dito por Dick the Butcher em Henrique 6º, Parte 2 é apenas uma entre dezenas de referências ao direito nas peças de William Shakespeare. Na trama, é uma sugestão feita ao líder rebelde Jack Cade, convocando a destruir a ordem.

São tantas referências que Mil Vezes Mais Justo - O Que as Peças de Shakespeare nos Ensinam sobre a Justiça [trad. Fernando Santos, WMF Martins Fontes, R$ 39,90, 320 págs.] deixa de lado Henrique 6º e outros textos do dramaturgo iniciante.

O livro de Kenji Yoshino concentra-se naqueles escritos do auge do autor, como as grandes tragédias (Hamlet, Otelo) e, sobretudo, as peças que retratariam as figuras do advogado (O Mercador de Veneza) e do juiz (Medida por Medida).

A ideia é defender a noção de que Shakespeare continua, nas palavras de Jan Kott, nosso contemporâneo, explica, por e-mail, o autor, que é professor de direito constitucional da Universidade de Nova York -em Shakespeare, Nosso Contemporâneo, de 1961, o teórico polonês identifica o dramaturgo com as ideias e o teatro de meados do século 20.

Yoshino, que também dá aula de direito e literatura na NYU, reproduz o procedimento de Kott e relaciona, por exemplo, os volteios de raciocínio de Pórcia, a advogada do Mercador, com o que fez o então presidente Bill Clinton, também advogado, para se defender da acusação de perjúrio no caso Monica Lewinsky.

De um lado, Pórcia diz que seu cliente não pode entregar uma libra da própria carne, como prometido em caso de não pagar uma dívida, porque verteria sangue -o que não está no contrato.

De outro, Clinton, questionado sobre a declaração de não ter feito sexo com Lewinsky, diz que sexo oral passivo não é relação sexual, só ativo.

Noutro capítulo, sobre Otelo, faz uma ponte entre o assassinato de Desdêmona por Otelo, com a prova questionável de um lenço, e o assassinato de Nicole Brown por O.J. Simpson, absolvido pela prova também questionável de uma luva, num julgamento controverso em 1994/95, nos EUA.

O personagem de Otelo se deixa enganar quanto a um lenço de Desdêmona, que teria sido encontrado com o suposto amante dela, o que detona as ações que o levam a matá-la. No caso real, uma luva apresentada pela acusação como sendo de Simpson é testada por ele no julgamento -após ter encolhido, embebida em sangue- e não lhe serve, o que se torna o mote da defesa para sua liberação.

Festejado por acadêmicos shakespearianos como Stephen Greenblatt, da Universidade Harvard, pela intensidade com que enfrenta a obra do dramaturgo, Yoshino é questionado por outros como Garry Wills, da Northwestern, para quem o estratagema usado permite aulas divertidas, mas não aprofunda o conhecimento das obras.

Aos críticos, Yoshino responde que continua à vontade com os paralelos que traça no livro -e que eles deveriam evitar o risco de se perderem nos detalhes, não vendo a floresta por causa das árvores, num provérbio inglês do tempo de Shakespeare. A floresta, sua tese, como descreve, é a contemporaneidade do dramaturgo.

Questionado sobre eventuais paralelos também no Brasil, ele evita aventurar-se, dizendo conhecer pouco o panorama jurídico do país. Instado pela Folha, o advogado Pierpaolo Bottini, professor de direito penal da Faculdade de Direito da USP, arrisca um cotejo com Mercador, não necessariamente de Pórcia, mas do oponente dela, o judeu Shylock, personagem que defende a sua própria humanidade na peça: Um judeu não tem olhos? Um judeu não tem mãos, órgãos, dimensões, sentidos, afetos, paixões?, diz o personagem.

No campo criminal, talvez o caso mais relevante de apelo a analogias de linguagem seja a defesa de Harry Berger por Sobral Pinto, que usou a lei de maus tratos aos animais para atacar o tratamento desumano que seu cliente sofria nos porões da ditadura do Estado Novo, diz. Apontou que a proteção aos animais se estendia, por óbvio, a humanos, fazendo dessa extensão do sentido literal da lei um argumento até hoje lembrado e repetido nos tribunais.

Sobre Otelo, Bottini, que foi secretário da Reforma do Judiciário do Ministério da Justiça, lembra que o personagem Iago nutre ódio por Otelo porque este promoveu Cássio, e não a ele, desrespeitando de certa forma o critério de antiguidade. E esse é um dilema que até hoje assola nossos tribunais, por exemplo, onde são muito comuns as acusações de promoção por amizade.

O advogado brasileiro anota que, de modo geral, não só as peças de Shakespeare que tratam da questão jurídica mas todas as que tratam das relações de poder acabam repercutindo no direito.

OLHO POR OLHO

Um ano antes de Yoshino, o advogado José Roberto de Castro Neves, professor de direito civil da PUC-Rio e da Uerj, lançou Medida por Medida - O Direito em Shakespeare [GZ Editora, R$ 95, 473 págs.], já em sua terceira edição. Ele não busca pontes dos casos shakespearianos com episódios contemporâneos, mas é mais extensivo, analisando 27 peças, inclusive Henrique 6º.

Por exemplo, sobre Medida por Medida, que dá nome a seu livro e é uma referência direta à Justiça, Castro Neves escreve que a peça mostra como o exercício do poder é fonte de abusos, se os valores da sociedade e as leis são esquecidos.

O título da peça é tirado por Shakespeare do Sermão da Montanha: Não julgueis, e não sereis julgados. Porque do mesmo modo que julgardes sereis também vós julgados e, com a medida com que tiverdes medido, também vós sereis medidos. Na trama, o duque de Viena, reconhecendo ser um juiz frouxo, deixa o poder com Ângelo, um puritano que, cruel e hipócrita, primeiro impõe as leis depois abusa delas.

Para Yoshino, a peça contrapõe três concepções da Justiça: a do Novo Testamento, mais frouxa, representada pelo duque e baseada no sermão (não julgueis, e não sereis julgados); a do Velho Testamento, representada por Ângelo e baseada no Êxodo (vida por vida, olho por olho, dente por dente); e o sentido pagão, representado por um personagem menor, Escalo, que tomaria por base Aristóteles (temperança) e Arquimedes (meio-termo).

O diretor brasileiro Ron Daniels, que trabalhou por 22 anos na Royal Shakespeare Company e se prepara no momento para encenar Medida por Medida no Brasil, diz considerar essas ideias todas sobre Shakespeare e o direito muito interessantes. O que me interessa, porém, mais do que um debate sobre a Justiça, é a jornada de cada um dos personagens em cena, como cada um se transforma no percorrer da peça, diz.

Acrescenta não ser uma atitude anti-intelectual, mas de quem acredita que o importante, em Medida por Medida, não é a análise da Justiça em abstrato, a não ser, talvez, no que se refere a um posicionamento impossivelmente radical perante a vida.

Quanto ao propósito declarado de Yoshino, de reforçar a noção de que as peças seguem tendo valor no mundo de hoje, pergunta, com ironia: Mas essa noção precisa mesmo de reforço?


INIQUIDADES

Questionado, José Roberto de Castro Neves arrisca uma ponte entre Shakespeare e o direito no Brasil hoje. Lembra que uma das questões jurídicas renitentes na obra é como agir diante de iniquidades. Bolingbroke, o futuro Henrique 4º, toma o poder em 'Ricardo 2º' exatamente porque vê seu direito ameaçado. A perda da ordem é o gatilho da tragédia, assim como o desrespeito à ordem jurídica cria o ilícito.

Prossegue ele: No Brasil de hoje, essa ordem se perdeu. A falta de ordem gera o caos, como ocorre em 'Henrique 6º', quando os nobres brigam pelo poder, deixando espaço livre para a balbúrdia. É então, em meio à balbúrdia, que Dick the Butcher defende matar todos os advogados. Claro, para que a revolução funcione, deve-se matar aquele que representa a proteção da lei, diz Castro Neves.

Cristiano Paixão, professor de direito constitucional da UnB e autor de estudo sobre O Mercador de Veneza, diz que é sempre difícil traçar esse tipo de paralelo, de Shakespeare com a atualidade.

Ele, porém, anota que Pórcia reflete o antissemitismo, questão bastante delicada em Shakespeare, e que a questão dos 'negros criminosos' aparece não só em Otelo, mas no sanguinário Aarão, de 'Titus Andronicus'. Antissemitismo e racismo que persistem, no Brasil e no resto do mundo.

Se não Shakespeare, algum autor brasileiro pode ajudar a iluminar a Justiça por aqui?

É difícil, mais uma vez, ligar a literatura ao crime para compreender o contemporâneo, responde Paixão. Mas eu teria uma sugestão: lendo as 'Memórias Póstumas de Brás Cubas', de Machado de Assis, encontra-se um excelente panorama da forma ambígua e complexa com que o Brasil lida com seu passado escravagista.

Pierpaolo Bottini também deixa uma proposta: Sempre que falamos em crimes e tormentos na literatura brasileira, o que me vem à cabeça é 'Angústia', de Graciliano Ramos, uma espécie de 'Crime e Castigo' tropical, que merece ser lido por todo aquele que se interessa pela matéria. Os conflitos psicológicos, a agonia mental, a decisão pelo crime são expostos de forma surpreendente.


NELSON DE SÁ, 54, é repórter especial da Folha. Assina o blog Cacilda com a fotógrafa Lenise Pinheiro no site do jornal.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Sobre a prepotência


Por Marcia Tiburi
Da Revista Cult

É bastante conhecida a passagem da Odisseia de Homero em que Ulisses encontra as sereias e, desejando ouvi-las sem enlouquecer, faz-se amarrar ao mastro do navio em que viaja, não sem antes alertar seus remadores para que tapem os ouvidos com cera e possam, deste modo, continuar a travessia normalmente. Esta história encanta muita gente há muito tempo, mas foi apenas Kafka quem percebeu a ingenuidade de Ulisses, a de acreditar que o poder do canto das sereias poderia ser contido por cera e cordas.

Ao perceber isso, Kafka diz que há algo mais terrível do que o canto das sereias. Segundo ele, se alguém pudesse escapar ao canto das divindades telúricas, todavia não poderia escapar ao seu silêncio…

No conto de Kafka, Ulisses acreditou que as escutava. Mas as sereias não cantaram. E não cantaram porque Ulisses lhes pareceu um sujeito meio bobo com toda aquela parafernalha usada para proteger-se do seu canto.

Para entender Kafka, poderíamos nos perguntar mais ou menos assim: como pode alguém que vai ver e ouvir as sereias – justamente as SEREIAS – estar preocupado com outra coisa que não a experiência da coisa enquanto tal, uma coisa absurda como ouvir SEREIAS? Não se trata de música que se ouve no rádio, nem de nada que se possa baixar na internet pra ouvir com fones. Trata-se, afinal, do mítico canto das sereias. Convenhamos que não é pouca coisa, pensemos como Kafka. A verdadeira experiência de arrebatamento com a qual um ser humano sonha e da qual está impedido por limitações humanas, ali, finalmente realizável. E Ulisses? Ora, Ulisses quase chegou lá, mas preferiu menos, não porque quisesse permanecer humano (afinal, esse problema não era o seu), mas porque já estava com a consciência instrumentalizada.

Apesar da ingenuidade de Ulisses, as sereias gostariam de tê-lo capturado. Se não os ouvidos, pelo menos os olhos do herói astucioso. Mas os olhos de Ulisses não se dirigiam a elas. Não se dirigiam às forças temíveis da natureza que desejariam justamente aniquilar olhos em geral. Os olhos de quem se dispusesse a vê-las. Os olhos da cultura, digamos assim. Ora, o poder dos seres míticos seria o de subjugar os seres racionais, o poder dos seres divinos deveria suplantar o poder humano. Seria lógico que Ulisses se submetesse a elas. Mas os olhos de Ulisses eram olhos distraídos, estavam atentos demais às estratégias para vencer as sereias e, mesmo assim, eram olhos (e ouvidos, não esqueçamos) que queriam “curtir”. Aqueles olhos e aqueles ouvidos precisavam ser capturados pelo canto e pela imagem das sereias, do contrário seria o fim das sereias. Mas Ulisses não podia dar o braço a torcer e dizer que encontrou com o seu silêncio.

Por sorte, tudo acabou bem. Ulisses fingiu que ouvia e foi embora. E alguma coisa ele viu. As bocas perplexas. As sereias, sem entender como era possível que alguém não se desse conta do que acontecia naquele momento, continuaram existindo apesar de Ulisses quase as ter destruído com sua boçalidade.

Kafka termina o conto sem dar uma de Ulisses, ou seja, combatendo a tentação de prepotência que caracteriza o protagonista homérico, afirmando que talvez Ulisses tenha percebido tudo isso e tenha escapado das sereias, do seu poder terrível e destrutivo, o poder da sedução (mas não só, o poder do misterioso que é viver), justamente controlando esse jogo de aparências, fingindo que tinha entendido tudo. Ulisses era um espertinho, as sereias sabiam que não, mas Kafka, que era um homem decente, apenas nos põe a desconfiar e deixa tudo no tom do “quem vai saber?”.

Há um momento do texto em que se pode reconhecer o poder da prepotência de Ulisses que quase destruiu as sereias: “Contra o sentimento de tê-las vencido com as próprias forças e contra a altivez daí resultante – que tudo arrasta consigo – não há na terra o que resista.”

Essa força, a da crença de que se venceu as sereias, não tem comparação. Ela destrói tudo. Mas que poder de destruição é esse que seria capaz de eliminar logo as  sereias se elas estivesses desprotegidas? Lembremos que as sereias estavam protegidas por serem inconscientes e permanecerem na eternidade, apenas que ficaram meio perplexas com o jogo humano…

A condição humana sob o signo do capitalismo tecnológico nos tornou cada vez mais parecidos com Ulisses, o boçal. Ulisses que Adorno e Horkheimer chamaram de “protótipo do indivíduo burguês” não é mais do que o turista que usa câmera de fotografar e filmar quando teria a chance de entregar-se à viagem; é o pai que filma o parto enquanto a criança se ocupa em nascer e a mãe torna-se um objeto decorativo no filme bizarro; é, por fim, o dono do celular último-tipo que deixa de conversar com os filhos, o amigo, a mulher, porque há coisa muito mais interessante para ver no mundo virtual além da mesa do restaurante…

Lembro que dizíamos: aponta-se a estrela e ele olha para o dedo…

Eis Ulisses, olhando para o dedo com o qual tecla o celular enquanto as sereias resolvem dormir…

O conto de Kafka nos aponta para a prepotência da inteligência de Ulisses que, na época só tinha em mãos, corda e cera. Hoje, na era tecnológica, com os aparelhos impressionantes que temos, somos todos Ulisses em estado avançado de putrefação espiritual. Perdemos de ouvir o canto das sereias porque nossos olhos distraídos são de vidro, plasma, LCD, LED, ou outro material que empolga os tontos no contexto da ideologia da alta resolução. Evolução direta da cera e da cordinha que amarrava Ulisses ao mastro fazendo ele se sentir inteligente.

Viver, mais uma vez, deve ser algo parecido com “resistir” a essas bugigangas. Resistir certamente nos fará ouvir o silêncio das sereias.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Trinta e quantos?

Van Gogh - Cabeça de um homem (possivelmente Theo Van Gogh)


Por Antonio Prata
Da Ilustrada


Outro dia, numa mesa de bar, hesitante e assustado, me dei conta de que eu não sabia a minha idade. Trinta e seis parecia pouco, 38 parecia muito e 37, sei lá por que, me soava meio estranho. Que era alguma coisa por aí, eu tinha certeza. Trinta e cinco eu tive já faz muito, muito tempo, mas não tanto, tanto tempo para que eu já pudesse estar com 40; não, se eu fizesse 40, eu iria perceber, ou, no mínimo, iria ouvir algum comentário dos mais próximos. Céus, como pode, a esta altura do campeonato -qual altura, exatamente?- a pessoa ignorar quantos anos tem?

Quando você é criança, a idade é um negócio fundamental. É o dado mais importante depois do seu nome. Você aprende a mostrar nos dedos e passa uma década dizendo quatro, vou fazer cinco, cinco, vou fazer seis, seis, vou fazer sete e assim por diante. Lembro que, na época, eu achava de uma obviedade tacanha esse vou fazer, mas hoje entendo: o desejo de crescer é uma parte fundamental do software com o qual viemos ao mundo. Seis, vou fazer sete é menos uma constatação óbvia do que uma saudável aspiração.

Na adolescência, a idade continua sendo importante. Afinal, a diferença entre 14 e 16 é, geralmente, a diferença entre Mario Bros e o sexo. Pense no Mario Bros, pense no sexo, e fica evidente que há certas coisas que só dois aniversários fazem por você.


Dos 20 aos 30, avança-se lentamente, com sentimentos contraditórios. A escola foi há séculos, mas ser adulto ainda é estranho. Pelo menos, adulto como aqueles anciãos de 30 que usam gírias de pai, dançam de um jeito engraçado e parecem ter aprendido a se vestir em algum sitcom da Warner. A resposta sincera a quantos anos você tem, nessa fase, seria: 26, queria fazer 25, 25, queria fazer 24, até chegar a 20 -acho que ninguém, a não ser dopado por doses cavalares de nostalgia e amnésia, gostaria de ir além, ou melhor, aquém, e voltar à adolescência.



Trinta anos é uma idade marcante. Agora é inegável que você ficou adulto, e se o seu quarto ainda guarda algum vestígio da escola (uma coleção de latinhas? Um cone de trânsito? Uma bandeira da Jamaica?) é o caso de refletir seriamente sobre a sua autoimagem. Trinta e um, 32, você vai anotando, sem perder a conta. Mas aí você faz 35 e entra numa zona cinzenta (ou grisalha?) em que idade não significa mais muita coisa. A impressão que eu tenho, a esta altura do campeonato -qual altura, exatamente?-, é que todo mundo tem a minha idade. Meus amigos de 60 e poucos, meus amigos de 20 e muitos. Trinta e dois? Quarenta e oito? Não sendo púbere nem gagá, tão todos no mesmo barco, uns com mais dor nas costas, outros com os dentes mais brancos, mas no mesmo barco, trabalhando, casando, separando e resmungando no Facebook. Deve ser por isso que, sem perceber, parei de contar.



Trinta e sete, Antonio! Você tem 37!, interveio minha mulher, lá no bar, meio brava com o meu lapso. Ainda fiz as contas no celular, pra ter certeza. Era isso mesmo. Trinta e sete, vou fazer 38, se Deus quiser e não morrermos todos sem água e sem luz até agosto de 2015.


(É em 2015 que a gente tá, né?)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

O espírito de Natal em um conto inédito de China Miéville


China Miéville 
Tradução: Fábio Fernandes 
Ilustração: Odyr
Da Ilustríssima

SOBRE O TEXTO Num futuro indeterminado, tudo o que diz respeito ao Natal foi transformado em marcas registradas: os festejos só podem ocorrer sob licença. Neste texto, o escritor britânico China Miéville visita um tópico dos contos dedicados a essa temporada -o roubo do espírito natalino- e o relê em chave política.

*

Podem me chamar de infantiloide, mas eu adoro toda essa bobajada -a neve, as árvores, os enfeites, o peru. Adoro presentes. Adoro canções natalinas e músicas bregas. Eu simplesmente adoro o Natal.

Foi por isso que fiquei tão empolgado. E não só por mim mas por Annie. Aylsa, sua mãe, disse que não entendia para que tanto reboliço e por que eu era sentimental, mas eu sabia que Annie mal podia esperar. Ela podia ter 14 anos, mas, em se tratando disso, eu tinha certeza de que ela ainda era uma garotinha, sonhando com meias na chaminé. Sempre que é a minha vez de ficar com Annie -eu e Aylsa temos alternado desde o divórcio- dou o melhor de mim no dia 25.

Confesso que Aylsa fez com que eu me sentisse mal. Fiquei com muito medo de Annie se decepcionar. Então nem dá pra dizer como fiquei maravilhado ao descobrir que pela primeira vez na vida eu ia conseguir fazer uma comemoração adequada.

Não me entendam mal. Eu não tenho ações da NatividadeCo, e nem condições de pagar uma licença de usuário para um dia, então não poderia fazer uma festa legalizada. Por algum tempo pensei em comprar de um dos concorrentes mais baratos tipo a XmasTym, ou um derivado de uma não especialista, como a Coca-Crissmas, mas a ideia de fazer um Natal de pobre era deprimente demais. Eu não poderia usar muitas das coisas tradicionais e, se você não pode ter tudo, qual é o sentido? (A XmasTym tinha os direitos de Egg Nog. Mas Egg Nog é nojento.) Aquelas outras firmas vivem tentando criar alternativas próprias para clássicos privatizados, como renas e bonecos de neve, mas nunca decolam. Jamais esquecerei o fracasso que foi a reação do público à Lagartixa Natalina da JingleMas.

Não: assim como a maioria das pessoas, eu ia ter um pequeno Evento Invernal, só Annie e eu. Desde que eu tenha o cuidado de ficar longe de produtos licenciados, tudo vai dar certo.

Com as decorações feitas de hera você ainda pode se safar; visgo é proibido, mas eu tinha guardado um monte de tomates-cereja, que estava planejando espetar em cactos. Não ia arriscar guirlandas, mas eu tinha uns dois cintos coloridos que ia pendurar na minha aspidistra. Você sabe como é esse tipo de coisa. Os inspetores não são tão maus: às vezes eles fazem vista grossa para um badulaque ou outro (o que é muito bom, porque as multas para comemorações de Natal sem licença são astronômicas).

Eu estava me preparando assim, mas aí aconteceu a coisa mais extraordinária. Ganhei na loteria!

Quer dizer, não ganhei-ganhei. Mas fiquei entre os primeiros, e foi um premiozinho bacana. Um convite para uma festa especial, licenciada, de Natal, no centro de Londres, organizada pela própria NatividadeCo.

Quando li a carta, tremi dos pés à cabeça. Era a NatividadeCo, então a coisa seria pra valer. Ia ter Papai Noel, Rodolfo, Visgo, Bolos, e uma Árvore de Natal com presentes embaixo.

Esse último item era algo com que eu não me conformava. Era uma coisa tão triste colocar meus presentes embrulhados em papel-jornal ao lado da aspidistra, mas desde que a NatividadeCo comprou os direitos do papel colorido e da colocação de presentes embaixo de árvores, os inspetores haviam caído com todo o rigor em quem cometesse Presenteamento Subarbóreo Grave. Eu não parava de pensar que Annie ia poder estender a mão e apanhar seu presente sob galhos de pinheiro.

Talvez eu não devesse ter contado pra Annie, apenas feito a surpresa a ela no dia, mas eu estava empolgado demais. E, pra ser honesto, em parte eu contei a ela porque eu queria deixar Aylsa com inveja. Ela era muito metida a besta, sempre dizendo que não sentia saudade do Natal e coisa e tal.

- Pense só -eu disse- vamos poder cantar canções de Natal legalmente! Ah, desculpe, você odeia canções de Natal, não é?- Eu fui muito escroto.

Annie ficou quase doente de empolgação. Ela mudou seu nick on-line pra ehchegadaaestacao, e até onde eu pude acompanhar ela passava o tempo todo se gabando para seus pobres amigos, mortos de inveja. Dei uma espiadinha na tela quando fui levar chá pra ela: as janelas de chat estavam cheias de nomes como tinkerbell12 e punhadodeflores, e tudo o que eu podia ver eram exclamações como naaaaummm??!!nataaaalll??!! taaauuum legaaall!!!!! antes que ela bloqueasse a tela exigindo privacidade.

- Tenha piedade -eu disse a ela.- Não esfregue isso na cara das suas amigas -mas ela simplesmente riu e me disse que estavam combinando de se encontrar no dia de qualquer maneira, e que eu não sabia do que estava falando.

Quando Annie acordou no dia 25, havia uma meia esperando por ela na ponta da sua cama, pela primeira vez em sua vida, e ela veio tomar café carregando a meia e sorrindo de orelha a orelha. Eu tive um prazer enorme em sacudir meu passe da NatividadeCo e dizer, perfeitamente dentro da lei, Feliz Natal, meu amor. Fiquei feliz porque o ® era mudo.

Eu havia mandado o presente dela para a NatividadeCo, conforme as instruções. Ele estaria esperando sob a árvore. Era o modelo mais avançado de console. Mais do que eu podia pagar, mas sabia que ela ia adorar. Ela é ótima em videogames.

Saímos cedo. Havia um número razoável de pessoas nas ruas, todas fazendo aquilo que fazemos no dia 25, quando, sem dizer nada ilegal, você ergue as sobrancelhas e sorri um cumprimento natalino.
Tecnicamente era um dia de semana regular para os horários dos ônibus, mas, naturalmente, metade dos motoristas estava de licença por motivo de doença.

- Não vamos ficar esperando -disse Annie.- Temos um montão de tempo. Por que é que a gente não anda?

- O que você comprou pra mim? -eu não parava de perguntar pra ela. -Qual é o meu presente? -eu fazia de conta que ia espiar dentro da bolsa dela, mas ela balançava o dedinho.

- Você vai ver. Estou muito satisfeita com meu presente, pai. Acho que é algo que vai significar muito pra você.

Não era para termos demorado tanto, mas, por algum motivo, fomos devagar, indo no nosso tempo, conversando, e de repente percebi que íamos chegar atrasados. Isso foi um choque. Comecei a correr, mas Annie ficou mal-humorada e reclamou. Me segurei para não dizer de quem tinha sido a ideia de ir a pé até lá. Corremos um bocado até o centro de Londres.

- Vamos -Annie não parava de falar. - Estamos chegando?

Havia um número surpreendente de pessoas em Oxford Street. Uma multidão e tanto, todos com aquela expressão secreta de felicidade. Eu também não podia evitar sorrir. Subitamente Annie já tinha disparado lá pra frente, voltando depois pra me puxar. Agora ela queria acelerar. E eu tinha que pedir desculpas a cada vez que esbarrava nas pessoas.

A maioria era uma garotada de uns vinte anos, casais e grupinhos. Eles abriram caminho, indulgentes, enquanto Annie me arrastava, corria na frente, voltava a me arrastar.

Era realmente um número impressionante de pessoas.

Mais adiante se ouvia música e alguns gritos. Fiquei tenso, mas não pareciam gritos zangados.

-Annie! -gritei mesmo assim.- Venha cá, meu amor! -eu a vi pulando por entre a massa.

E era realmente uma massa. Aquele som era de um apito? De onde tinha vindo todo mundo? Eu estava sendo empurrado, puxado como se toda aquela gente fosse uma maré. Vislumbrei um garotão e, com um susto, percebi alarmado que ele estava usando um macacão grande com uma rena de nariz vermelho. Só de olhar saquei que ele não tinha licença.

-Annie, venha cá -eu a chamava, mas o som da minha voz foi sufocado. Uma moça perto de mim elevou a voz, cantando uma nota, muito alta.

- Baaaaa...

O rapaz com quem ela estava começou também, e depois o amigo dele, e depois um bando de gente ao lado deles, e em poucos segundos estava todo mundo fazendo a mesma coisa, uma mistura de vozes bonitas e horrorosas, se combinando naquele gritinho alto insuportável.

- Baaaaa... -e aí, com um timing impecável, todas as centenas de pessoas meio que olharam umas nos olhos das outras, e a canção continuou.

- ....te o sino pequenino, sino de Belém...

- Vocês estão loucos? -eu gritei, mas ninguém me ouvia por sobre aquela maldita canção ilegal. Ah, meu Deus. Eu sabia o que estava acontecendo.

Estávamos cercados por natalinos radicais.

Eu zanzava de um lado para o outro, gritando por Annie, correndo atrás dela, procurando a polícia. Não havia como as câmeras de rua não captarem aquilo. Eles mandariam o Esquadrão Natividade.

Vi Annie no meio da multidão -diabos, tinha mais gente chegando!- e corri em sua direção. Ela me chamava, olhava ansiosa ao redor, e eu batia nas pessoas para que saíssem da frente, mas, quando me aproximei, vi que ela estava olhando para alguém ao lado dela.

- Pai! -ela gritou. Vi os olhos dela se arregalarem ao me reconhecer, e então -será que eu tinha visto uma mão agarrá-la e puxá-la para fora dali?

- Annie! -eu gritei quando cheguei aonde ela havia estado. Mas ela não estava mais lá.

Eu estava entrando em pânico: ela é uma garota inteligente e estávamos em plena luz do dia, mas de quem era aquela mão, diabos? Liguei para o telefone dela.

- Pai -ela respondeu. O sinal estava horrível naquela multidão. Eu gritava, perguntando onde ela estava. Ela soava tensa, mas não assustada. -... OK... eu vou estar... ver... um amigo... na festa.

- O quê? -eu estava gritando. - O quê?

- Na festa -ela disse, e eu perdi o sinal.

Certo. A festa. Era para lá que ela estava indo. Eu me controlei. Abri caminho empurrando a multidão.

A coisa estava ficando mais bolchevique. Estava virando uma baderna natalina.

Oxford Street estava congestionada, eu estava no meio do que, de repente, havia se tornado milhares de manifestantes. Foram séculos abrindo caminho, ansioso, através da manifestação. O que havia parecido uma multidão anônima subitamente floresceu em variedade e cor. Todo mundo estava marchando. Eu passava por diferentes contingentes de manifestantes.

De onde diabos haviam saído todas aquelas bandeiras? Slogans flutuavam sobre a minha cabeça como destroços de um navio. PELA PAZ, SOCIALISMO E NATAL; TIREM AS MÃOS DA NOSSA TEMPORADA DE FESTAS; PRIVATIZEM ISTO. Um mesmo cartaz estava em toda parte. Era muito simples e clean: a letra R em um círculo vermelho, atravessada por uma linha diagonal.

Ela vai ficar OK, pensei, angustiado. Ela disse isso. Eu olhava ao meu redor enquanto avançava na direção da festa, distante apenas umas poucas ruas agora. Eu podia ver a manifestação.

Aquele pessoal era louco! Não que eles não tivessem boa intenção, mas aquilo não era jeito de conseguir as coisas. Tudo o que eles iam conseguir era causar encrenca para todo mundo. A polícia ia chegar ali a qualquer momento.

Mesmo assim, havia que admitir que sua criatividade era admirável. Com todas as roupas e as cores, aquilo parecia incrível. Não faço ideia de como eles tinham conseguido contrabandear aquele negócio pelas ruas, de como haviam organizado aquilo. Deve ter sido on-line, o que teria implicado um uma encriptação bastante sofisticada pra tapear o copware. Cada trecho da marcha parecia cantar algo diferente, ou cantar canções que eu não ouvia havia anos. Eu atravessava um país das maravilhas invernal.

Passei por um contingente de cristãos, todos carregando cruzes, cantando hinos natalinos. Bem à frente deles havia um grupo de gente malvestida vendendo exemplares de um jornal de esquerda e carregando cartazes com uma foto de Marx. Eles haviam sobreposto um chapéu de Papai Noel ao retrato dele. Eu sonho com um Natal vermelho, eles cantavam, e mal.

Agora nós estávamos ao lado da Selfridges, e um nó de gente havia parado ao lado das vitrines abarrotadas com a mistura costumeira de perfumes e sapatos. Os manifestantes olhavam uns para os outros, e de novo para a vitrine. Numa rua lateral, alguns passantes observavam o extraordinário espetáculo.

Levei um susto ao ver compradores normais: para mim era inconcebível que houvesse alguém ali além dos manifestantes que marchavam nas ruas.

Eu sabia o que os observadores da Selfridges estavam pensando: eles se lembravam (ou lembravam de terem lhes falado -alguns deles pareciam jovens demais para lembrar da vida antes do Ato de Natal) de uma antiga tradição.

- Se não vão nos dar nossas vitrines de Natal -uma mulher rugiu- vamos ter que criá-las. -E, com isso, eles pegaram marretas. Meu Deus. Eles quebraram a vitrine.

- Não! -ouvi um homem vestindo um sofisticado paletó de lã gritar com eles. Um contingente dos manifestantes, que parecia horrorizado, abaixou as bandeiras, que diziam AMIGOS TRABALHISTAS DO NATAL. - Todos queremos a mesma coisa -gritou o homem- mas não podemos apoiar a violência!

Mas ninguém lhe dava a menor bola. Eu esperei que as pessoas começassem a roubar os artigos, mas elas simplesmente os empurraram para longe do caminho, junto com o vidro quebrado. Colocavam coisas nas vitrines. De sacolas e bolsos saíam pequenas manjedouras, Papais Noéis de papier mâché, Presentes lindamente embrulhados, Azevinho e Visgo, que os manifestantes espalhavam, compondo vitrines toscas.

Eu segui em frente. Um homem se postou no meu caminho. Ele fazia parte de um grupo de sujeitos bem-vestidos que estavam nas bordas da multidão. Com um risinho de deboche, ele me entregou um panfleto. INSTITUTO DE IDEIAS MARXISTAS VIVAS. Por Que Não Estamos Marchando.

Vemos com desdém as tentativas patéticas da velha Esquerda de reviver esta cerimônia Cristã. A ideia de que o governo 'roubou' 'nosso' Natal é tão somente um aspecto do domínio dessa Cultura do Medo que rejeitamos. Chegou a hora de uma reavaliação além da esquerda e da direita, e de forças dinâmicas revigorarem a sociedade. No mês passado, nós do IIMV organizamos uma conferência no ICA sobre por que greves são chatas e por que a caça à raposa é o novo pretinho básico...

O texto me pareceu totalmente sem pé nem cabeça. Joguei fora.

Foi quando se ouviu o trovejar de um helicóptero de combate. Fodeu, pensei. Eles chegaram.

- Atenção -disse a voz amplificada vinda do céu.- Vocês quebraram a seção 4 do Código de Natal. Dispersem imediatamente ou serão presos.

Para meu espanto a reação foi uma risada rouca. Um cântico começou. No começo não consegui entender as palavras, mas logo não havia mais como confundi-las.

- De quem é o Natal? É nosso! De quem é o Natal? É nosso!

Não pegou muito bem.

Passei por um grupo que reconheci do noticiário, natalinas feministas radicais vestidas todas de branco, usando cenouras no nariz: as sNOwMEN. Um sujeito baixinho passou correndo por mim, olhando ao redor e resmungando: Alto demais, alto demais. Começou a gritar: Qualquer um que meça até 1,55 m, venha participar do quebra-quebra com os Pequenos Ajudantes de Papai Noel!. Outro baixinho começou a discutir furiosamente com ele. Ouvi as palavras piada e condescendente.

As pessoas estavam comendo pudim de Natal, fatias de peru. Elas se obrigavam até mesmo a engolir couve-de-bruxelas, só por questão de princípio. Alguém me deu um pedaço de bolo. Bendito seja, gritou um pagão radical no meu ouvido, e me deu um panfleto exigindo que assim que tivéssemos recuperado de volta a estação nós a rebatizássemos de Solstividade. Foi expulso a pontapés por um grupo de bailarinos e bailarinas musculosos vestidos de fadas e quebra-nozes.

Eu estava me aproximando do lugar onde a festa deveria acontecer, mas agora havia ainda mais gente nas ruas. O lugar ia ser cercado. Como é que iríamos entrar?

Figuras se moviam na multidão. Que merda, pensei, a polícia. Mas não era. Era um bando agressivo, com pinta de zangado, quebrando para-brisas dos carros pelo caminho. Estavam todos vestidos de Papai Noel.

- Caralho -alguém resmungou. - São os Red & White blocs.

Era óbvio que os R&W estava ali pra criar baderna. Todo o restante da multidão tentou se afastar deles. Vão embora, porra! ouvi alguém gritar, mas não lhe deram atenção.

Agora dava para ver a polícia se aglomerando nas ruas laterais. Os Red & White blocs a atraíam para fora, sacudindo garrafas, gritando Podem vir! como fãs de Futebol® emputecidos.

Eu estava recuando. Me virei, e lá estava, o local da festa.

Hamleys, a loja de brinquedos. Os guardas armados que normalmente a protegiam deviam ter fugido muito antes, ao darem de cara com esse caos. Levantei a cabeça e vi rostos horrorizados nas janelas.
Eu devia estar lá em cima, pensei. Com vocês. Eles eram os convidados da festa. Crianças e seus pais, cercados pela manifestação, vendo a chegada da polícia.

E, ah, lá estava Annie, gritando para mim, parada sob a marquise da Hamleys. Soltei um grito de alívio e corri até ela.

- O que está acontecendo? -ela gritou. Parecia apavorada. O Esquadrão Natividade estava se aproximando dos provocadores dos Red & White blocs, batendo com seus cassetetes em escudos enfeitados com guirlandas.

- Puta merda -sussurrei. Envolvi Annie com meus braços para protegê-la. - Vai dar problema -eu falei. -Se prepare pra correr.

Mas nós ficamos ali, tensos e, de repente, uma coisa surpreendente aconteceu. Eu pisquei e, do nada, apareceu um rapaz vestindo um manto branco comprido. Antes que qualquer um pudesse detê-lo, ele se posicionou entre as fileiras dos Red & White blocs e a polícia.

- Ele é louco! -alguém gritou, mas todas as centenas e centenas de pessoas foram se calando.

O homem estava cantando.

A polícia caiu em cima dele, os R&W fizeram que iam empurrá-lo pra longe, mas sua voz se elevou, e ambos os lados hesitaram. Eu nunca tinha visto alguém tão lindo.

Ele cantou uma única nota, de uma pureza que não era deste mundo. Ele a fez durar, por longos segundos, e depois continuou:

Ai, vinde todos à porfia/ Cantar um hino de louvor.

Ele fez uma pausa, até que a tensão entre nós chegou ao limite.

Hino de paz e alegria/ Que os anjos cantam ao Senhor.

Os Red & White blocs estavam quietos. Todo mundo estava quieto.

Gló-ó-ó-ó-ó-ria in Excelsis Deo

Agora os policiais estava parando. Eles abaixaram seus cassetetes. Um a um, eles puseram seus escudos de lado.

Naquela noite venturosa/ Em que nasceu o Salvador...

Mais figuras de branco surgiam. Eles caminharam calmamente para se juntar ao seu amigo. Assustei-me ao notar que estava tapando meus próprios olhos. Havia uma autoridade implacável nessas figuras incríveis que haviam aparecido do nada, aqueles rapazes altos, belos, e tão jovens. Seus mantos eram de um branco inconcebível. Eu não conseguia respirar.

Agora todos eles cantavam. Gló-ó-ó-ó-ó-ó-ria in Excelsis Deo.

Um a um, os policiais tiraram seus capacetes e se puseram a ouvir. Eu podia escutar os gritos frenéticos de seus superiores saindo dos auriculares que eles removiam.

Naquela noite venturosa/ Em que nasceu o Salvador... Os cantores fizeram uma pausa, até eu ficar desesperado para que eles terminassem a melodia: Vozes de anjos harmoniosas/ Lançam ao céu este clamor.

O grupo de policiais sorria e chorava em meio a uma montanha de cassetetes e proteções corporais descartadas. O primeiro cantor levantou a mão. Ele olhou para todo o armamento jogado ali. Declamou para os Red & White blocs.

- Vocês não deveriam ter tentado lutar -ele disse, e eles pareceram envergonhados. Ele aguardou.

- Vocês teriam sido massacrados. Ao passo que agora -ele continuou- esses idiotas se desarmaram. Agora é a hora de lutar... -Ele se girou e, ao mesmo tempo, ele e seus colegas cantores se jogaram em cima da polícia, os mantos adejando.

Os policiais indefesos ficaram pasmos, deram meia volta e saíram correndo; a multidão rugiu e começou a segui-los.

- Nós somos o Partido Cantor Radical dos Homens Gays! -o cantor principal gritou em seu registro de tenor exótico. - Orgulhosos de lutar pelo Natal do Povo!

Ele e seus camaradas começaram a entoar: - Estamos aqui! Somos o coral! Viemos pra ficar!

- É um milagre de Natal! -disse Annie. Eu simplesmente a abracei até ela resmungar - Tá bom, papai, calma.

Atrás de mim a multidão gritava, tomando as ruas.

- Esse é o problema com os Red & White blocs -resmungou Annie. - Maldita estratégia de tensão do caralho. Bando de aventureiros anarquistas.

- É -disse um garoto do lado dela. - Seja como for, metade deles são agentes da polícia. É a regra número um, não é? Aquele que quer mais violência é o policial.

Eu estava boquiaberto, minha cabeça indo de um para o outro, como um imbecil assistindo a uma partida de tênis.

- O quê? -eu disse finalmente.

- Qual é, pai -disse Annie. Ela beijou meu rosto.- Você nunca teria me deixado vir de outra maneira. Eu tinha que fazer você andar até aqui ou a gente teria chegado cedo demais. E ficado preso igual a eles. - Ela apontou para os ganhadores do prêmio que ainda estava encarando nos andares superiores da Hamley.- Então eu tive que sair correndo ou você nunca teria me deixado entrar. Vem.- Ela me pegou pela mão. -Agora que a gente passou pelas linhas da polícia, podemos retomar a marcha passando pela Downing Street.

- Ora, então é a oportunidade perfeita para sairmos daqui...

- Pai -ela disse. Olhou para mim com dureza.- Eu não pude acreditar quando você ganhou o prêmio. Nunca pensei que teria uma chance de vir para cá hoje.

- Alguém te agarrou -falei.

- Foi Marwan -ela indicou o rapaz que havia falado.- Pai, este é Marwan. Marwan, este é meu pai.

Marwan sorriu e apertou minha mão educadamente, mudando o cartaz de mão. MUÇULMANOS PELO NATAL, dizia. Ele me viu lendo.

- Isso não representa grande coisa para mim -ele disse- mas todos nós nos lembramos de como esse pessoal veio em nossa ajuda quando a Umma plc tentou privatizar o Eid. Sabe, isso foi muito importante. De qualquer maneira... -ele desviou o olhar tímido.- Eu sei que é importante para Annie -ela olhou para ele de lado. - Ah-pensei.

- Marwan é punhadodeflores, pai -disse ela.- Na internet.

- Escuta, eu tenho que dizer que estou muito irritado com isso tudo -falei. Estávamos chegando perto de Downing Street. Marwan havia se despedido na Trafalgar Square, então estávamos sós de novo, só nós e mais 10 mil pessoas. -Eu te comprei... eu perdi um monte de... tem um presentão naquela festa...

- Sendo franca, pai, eu não preciso mesmo de um console novo.

- Como você sabia...? -perguntei, mas ela já continuava sua fala.

- O que eu tenho está muito bom. De qualquer maneira, eu uso mais mesmo pra jogos de estratégia, e eles não consomem tanta energia. Além disso, tenho todos os pinkopatches na minha máquina. Seria um saco transferi-los, e baixá-los de novo é arriscado demais.

- Que patches são esses?

- Coisas tipo o Red3.6. Ele converte uma pá de jogos. Transforma SimuCityState em RedOctober. Coisas desse tipo. Eu já cheguei no nível 4. O chefe do fim do nível é um czar. Assim que eu conseguir descobrir como passar por ele eu vou chegar ao Poder Duplo.

Desisti até de tentar entender.

Na entrada da residência do primeiro-ministro havia uma enorme Árvore de Natal® branca e prata. Todo mundo começou a vaiar quando nos aproximamos. O Exército estava protegendo o local, então as pessoas fizeram questão de garantir que as vaias eram bem-humoradas. Alguém jogou um pudim de Natal, mas o povo o tirou dali rapidinho.

- Isso aí não é o Natal! -nós todos gritamos ao passar. - Isto aqui é que é o Natal!

À medida que os céus iam escurecendo, a multidão foi começando a dispersar um pouco, antes que a polícia pudesse se reagrupar. Passamos por um contingente em que todos usavam bandanas vermelhas e nos somamos à cantoria deles:

Já faz tempo que eu pedi/ Mas o meu Papai Noel não vem/ Com certeza já morreu/ E a Internacional/ É tudo que a gente tem.

- Mesmo assim -eu disse- estou um pouco chateado por você não ter conseguido ver a festa.

- Pai -disse Annie, e me sacudiu.- Este foi o melhor Natal de todos. De todos. OK? E foi tão maravilhoso passar ele com você.

Ela me olhou de lado.

- Já adivinhou? -ela perguntou.- Qual é o seu presente?

Ela estava me encarando, bem séria, bem intensamente. Fiquei bastante emocionado.

Pensei em tudo o que havia acontecido naquele dia e nas minhas reações. Tudo pelo qual eu havia passado e visto e integrado. Percebi como eu me sentia diferente agora do que naquela manhã. Era uma revelação surpreendente.

- Sim... -hesitei.- Sim, acho que sim. Obrigado, meu amor.

- O quê? -ela disse. - Você adivinhou? Merda.

Ela segurava um pacotinho embrulhado. Era uma gravata.




CHINA MIÉVILLE, 42, escritor britânico, autor do romance A Cidade e a Cidade, que acaba de sair no Brasil pela Boitempo.

FÁBIO FERNANDES, 48, é tradutor, responsável por trazer ao português livros como Laranja Mecânica (Aleph).

ODYR, 47, quadrinista, ilustrou Guadalupe (Quadrinhos na Cia.), de Angélica Freitas.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O cineasta japonês Hayao Miyazaki é o grande mago do cinema moderno



Por Nigel Andrews
Do Financial Times
Tradução de Paulo Migliacci


"É o destino da vida moderna que repetidamente percamos o contato com a natureza, o meio ambiente, o planeta. Mas tentamos repetidamente retomá-lo. É como um círculo. Nos corações e almas das crianças, quando elas nascem, a natureza já existe, com raízes fundas. Por isso, o que desejo fazer em meu trabalho é encontrar um caminho para suas almas" - Hayao Miyazaki

Magia é uma palavra usada demais e uma mercadoria encontrada de menos. Como palavra, ela é repetida incansavelmente, quer como superlativo coloquial, quer como marca multitarefas de aprovação jornalística. Mas como mercadoria, ela é mais rara que dentes de dragão. Onde se pode encontrá-la, e em que forma? No trabalho de um prestidigitador? Talvez, mas verdadeira magia é mais que o simples truque de um ilusionista. Em um filme de fantasia e aventura de Hollywood? Nesse caso, ela muitas vezes terá algo de kitsch, artificial e exibicionista, por obra de mutações produzidas via computação gráfica.

Mas e quanto à magia relacionada à palavra mago vidente, visionário, encantador? E quanto à magia definida pelo dicionário Oxford como algo que influencia os acontecimentos cotidianos pelo uso de forças misteriosas ou sobrenaturais, ou que a Wikipedia, em um raro momento de exatidão na busca, define como tentativa de entender, experimentar e influenciar o mundo usando rituais, símbolos, ações, gestos e linguagem?

Se o grande mago do drama de ficção é Próspero, de Shakespeare, um mago que serve de agente a um artista mágico, o grande mago do cinema moderno é o japonês Hayao Miyazaki, com ou sem os personagens de animação que ele cria para executar seus encantos. Ele é o maior fantasista do reino do cinema porque seus filmes são mais que fantasias. Como A Tempestade, seus melhores filmes são fábulas que buscam sondar as profundezas da mortalidade e da moralidade. Ele remapeia, e até re-mitifica a experiência por meio do uso de rituais, símbolos, ações, gestos e linguagem para tomar de empréstimo a definição da Wikipedia.

Protegido contra intempéries, de alguma maneira, eu não havia assistido a nenhum dos filmes de Miyazaki antes de A Viagem de Chihiro, em 2001. Não demorei a perceber que aquele era o melhor filme de animação que já tinha visto. Continua sendo. É um conto de fadas que se passa entre deuses, monstros, jovens e tiranos ;em um parque de diversões aparentemente abandonado que se transforma em império de possibilidades oníricas, e trata de temas como a perda, o amor, o amadurecimento e a identidade.

O filme oferece algumas das maiores imagens já propiciadas pela narrativa de fantasia. Os pais que se transformam em porcos comilões o herói que toma a forma de dragão voador; o feroz monstro da lama; o trem que viaja na água. Continua a ser o único filme ao qual, usando a magia da matemática surreal só para aquela resenha, atribuí seis estrelas, em uma classificação cuja nota máxima era cinco.

Para Miyazaki, as mudanças propiciadas pela magia têm propósito moral e importância poética. Sua preocupação não é apenas com a mutabilidade das formas ou com os seres transfigurados, humanos ou animais, mas com vidas, aspirações, ideias e emoções que mudam de forma.

Todos, em seus filmes, podem ser outra pessoa, ou mesmo diversas outras pessoas, dentro de uma só história. Em O Castelo Animado (2004), Sophie, a heroína enfeitiçada, alterna entre a forma de jovem garota e de velha feiticeira. Howl, o bonito dono de castelo, também passa por rápidas metamorfoses, se tornando cachorro, espantalho e um avião de caça humano. Mesmo Calcifer, o fogo da lareira ;com seus olhos dançarinos e sua boca sarcástica; saltita, metaforicamente, para indexar mudanças de clima, emoção e anseios.

Quem um personagem é, a cada dado momento, depende de em que ponto da história, ou de sua evolução pessoal, o personagem se encontra. Na vida de um personagem ou história de Miyazaki, a catástrofe pode correr em companhia da esperança e da expectativa, o horror ao lado do humor, a realidade ao lado do sonho ou pesadelo.

E nem sempre é necessária uma transformação física. Miyazaki, como Hitchcock, tem o talento de encontrar o apocalíptico no cotidiano. E isso não pode ser demonstrado melhor do que pela sequência de abertura de A Viagem de Chihiro. Um carro que está percorrendo uma estradinha no campo se vê detido por uma grande muralha, como que um muro de arrimo ferroviário, e a única passagem é um túnel que conduz a lugar nenhum. É a singeleza surreal uma estrutura ordinária em um lugar extraordinário que parece fantasmagórica, até sinistra, nesse portal para um outro mundo. É a versão de Miyazaki para a toca do coelho de Alice no País das Maravilhas.

Essa conexão com o real é o que energiza o reino irreal de Miyazaki. O pai dele era operário em uma fábrica de componentes para aviões, e seu trabalho raramente permite que esqueçamos o fato. Máquinas voadoras realistas, fantásticas, belas, ferozes, grotescas fazem parte de quase todas as suas histórias, e isso atinge o clímax em seu filme de despedida, Vidas ao Vento, de 2013. O filme, uma biografia de um projetista japonês de aviões de caça, também é uma biografia do patrimônio de Miyazaki. Beleza e terror, bem e mal, vivem tanto no passado do cineasta quanto no passado do Japão.

Mas que grande artista criou arte que vá além de si mesmo? Se a arte não estiver conectada ainda que de modo distante à vida de seu criador, aos seus sonhos, desejos, amores e ódios, ela não tem fonte de energia. A grandeza de um artista está no escopo desse além. Os temas e percepções de Miyazaki são miraculosamente dispersos, mas também afixados como que por um cabo subterrâneo à psique do cineasta.

TRÊS OBSESSÕES

Ele é fanático quanto ao meio ambiente e à adulteração ou salvação de nosso planeta. Longe dos estúdios, um de seus passatempos é ajudar sua comunidade a remover detritos dos rios. Desse Miyazaki vem a magistral ameaça cômica do Monstro do Lodo (de A Viagem de Chihiro), a onipresença fantasmagórica dos Homens Bolha feitos de óleo e sempre mudando de forma (em O Castelo Animado) e o clímax de Princesa Mononoke, no qual maldição e redenção chegam de modo espetacular a uma paisagem maculada pelas satânicas engrenagens da indústria.

A guerra é uma segunda paixão ou antagonismo apaixonado. Nausicaa - A Princesa do Vale dos Ventos  (1984), uma mistura fantasiosa de ficção científica e folclore nascida dos mangás, e o primeiro grande sucesso internacional de Miyazaki, é um permanente armagedom. A guerra, também guerra aérea serve de ruído de fundo e de palheta pictórica de fundo a O Castelo Animado, como uma ferida no céu que não para de se reabrir dolorosamente. Em Vidas ao Vento, a guerra é um pacto faustiano que o Homem Inventor faz com o mal, e o preço que ele paga pela liberdade de sonhar.

A terceira obsessão: crianças e o processo de amadurecer. Se os jovens são a esperança do mundo, não podemos permitir que essa esperança dependa de inocência imaculada. As crianças nos filmes de Miyazaki são colocadas à prova, especialmente as meninas (e isso por um cineasta muitas vezes classificado como feminista).

O verão para as duas irmãs de Meu Amigo Totoro (1988), privadas da presença da mãe que está internada no hospital (como aconteceu com Miyazaki, cuja mãe passou muito tempo internada com tuberculose espinhal nos anos 50), se torna uma representação repleta de fantasia sobre nascer, a infância e a aquisição da sabedoria. Elas fazem amizade com um gigantesco e carinhoso animal da floresta, Totoro, que serve como uma espécie de mãe substituta. Totoro oferece sustento (em uma cena, faz uma árvore crescer por mágica) e iniciação para a vida (as leva a voar por sobre os campos em um pião aéreo).

E quando se trata da obrigação materna de permitir a troca do ventre do crescimento pelo espaço do crescimento, Totoro compartilha o papel com seu amigo, o Ônibus Gato. O ônibus tem a forma de um gato vivo com janelas, olhos como faróis e patas como rodas e é uma das grandes criações cômicas e surreais de Miyazaki, como um refúgio uterino que tivesse crescido e pudesse percorrer o mundo.

A Viagem de Chihiro também é em larga medida um desfile de pantomimas sobre o processo de amadurecer. Chihiro, a pequena heroína, está sendo levada pelos pais à sua nova escola. Quando não a encontra, a família tropeça em um reino fantasmático que oferece a Chihiro a verdadeira educação de que ela precisa uma educação para a vida, para a sabedoria e o sentimento.

Entre as coisas que ela aprende estão: nenhuma busca humana é realizada sem trabalho duro e adversidade; nenhuma figura de autoridade (nem mesmo os pais) merece confiança acrítica; sempre acredite no que vir, e não naquilo que lhe disserem; e se o amor disser que a acompanhará até os confins da terra, faça-o cumprir sua promessa.

Mas Miyazaki não passa o tempo todo dando lições de vida. Há ornamentos, glórias e piadas soltas espalhadas por todos os filmes, minúcias inconsequentes que revelam uma imaginação infatigável. Veja as minúsculas criaturas que não param de surgir, como um insano coral, em seus filmes. Em Princesa Mononoke, os pequenos fantasmas da floresta com seus olhos ocos e cabeças rotativas, em Meu Amigo Totoro e A Viagem de Chihiro as criaturas de fuligem, pequenas aranhas que correm, conspiram, e aprontam.

Ou veja o delírio de inventividade que resultou em O Castelo Animado. Parte tanque, parte fortaleza, parte fábrica, parte cortiço, parte gigantesco bule de chá, ele ronca e cambaleia pela paisagem com suas pernas parecidas com as de uma galinha, e cada uma de suas partes parece se sacudir e reajustar separadamente durante o movimento. O castelo apita, o castelo range, o castelo lança fumaça de suas chaminés.

É um triunfo de insanidade organizada e poética, com um toque de mágica. O que talvez seja a melhor maneira, ou a única maneira, de resumir o cinema de Hayao Miyazaki.