sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Depois de Derrida - Retrato de uma Obra Viva


Por Evando Nascimento, da Ilustríssima

Homenagens internacionais lembraram a morte, há dez anos, de Jacques Derrida. Brasil teve papel importante na difusão da obra do filósofo da desconstrução, termo por vezes mal compreendido, que alimentou teorias, como os estudos pós-coloniais, em que é central a noção de alteridade proposta pelo francês.

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Todo filósofo ou escritor tem outro pensador com quem dialoga permanentemente. O meu é Jacques Derrida, cuja morte, ocorrida há dez anos, foi lembrada ao longo deste 2014 em homenagens mundo afora.

O pensador franco-argelino de origem judaica, nascido em 1930 em El-Biar, foi tema de publicações, palestras, colóquios e mesmo um documentário, realizado a partir da biografia escrita por Benoît Peeters, Derrida [trad. André Telles, Civilização Brasileira, 742 págs., R$ 80], pela cineasta Virginie Linhart -Jacques Derrida: le Courage de la Pensée (a coragem do pensamento). Na qualidade de ex-aluno e de organizador do último evento de que ele participou, dei um pequeno testemunho para o filme, produzido pelo canal franco-alemão Arte.

No caso de Derrida, o primeiro diálogo que se instaura, logo no início de sua trajetória, é com Husserl -de quem ele se tornaria um dos maiores especialistas franceses, tendo escrito um trabalho de peso ainda em sua época de estudante. Esse texto seria publicado como livro pela PUF, em 1990 (Le Problème de la Genèse dans la Philosophie de Husserl, o problema da gênese na filosofia de Husserl).

Nietzsche e Heidegger são as duas referências maiores, que o acompanham até o final. Em nenhum desses casos há mera repetição, por Derrida, daquilo que o outro pensador disse, mas uma leitura desconstrutora, sinalizando os avanços (e também os aspectos dogmáticos) de cada um deles.

Num texto pouco conhecido, em que faz um balanço dos filósofos que o marcaram, Nous autres Grecs(literalmente, nós outros gregos), descarta ser um devedor absoluto de qualquer um deles. O único pensador do qual ele se reconheceria de fato tributário seria Heráclito, em particular em relação ao hén diaphéron heautoû, o uno diferente de si mesmo.

Constata-se, nesse fragmento heraclitiano, o princípio da différance com a, noção derridiana, que, como a escritura, foi muito difundida nos anos 1960 e 70. O termo francês que significa diferença se escreve com e, différence; mas, por várias razões de ordem filosófica, Derrida rasura a ortografia: ao substituir o e por a, desloca o sentido da palavra, expondo assim a forma, sobretudo ocidental, de pensar as diferenças, sempre por oposição: o masculino x o feminino, o branco x o negro, o conteúdo x a forma etc.

Todo o pensamento de Derrida tenta analisar, de modo empírico e transcendental, um tempo-espaço da diferença de forma não binária.

Essa différance se refletiria no que ele nomeou, em diálogo com o matemático Gödel, como indecidibilidade. Em certos contextos, alguns termos se distinguem pela impossibilidade de decidir por um dos polos da oposição clássica.


DROGA

O exemplo mais famoso dessa 'indecidibilidade é o do phármakon. Numa leitura cerrada do Fedro e de outros diálogos de Platão, Derrida mostra como esse vocábulo, em diversas passagens, é dotado da ambiguidade do veneno e do remédio, tal como para nós, hoje, o termo droga. A diferença é que droga detém uma conotação moral que o phármakon não possui de antemão.

Num ensaio muitíssimo conhecido, A Farmácia de Platão (trad. Rogério da Costa, Iluminuras, esgotado), Derrida expõe como o phármakon é associado sistematicamente à escrita, muitas vezes como uma potência perturbadora do lógos, o discurso racional que, entre os séculos 5 e 4 a.C., estava em plena elaboração.

A partir do final dos anos 1980, mas sobretudo nos 90, até 2003, quando adoece e suspende seus seminários na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, ele enfatiza cada vez mais os aspectos ético-políticos de sua obra.

Alguns leitores passaram a chamar esse momento de political turn (virada política), expressão equivocada, uma vez que textos anteriores, como Margens - Da Filosofia (trad. Joaquim Torres Costa e Antonio M. Magalhães, Papirus, esgotado), já continham diversos elementos de reflexão política, por meio da noção de descentramento -ou de abalo dos centros absolutos: Deus, verbo, essência, poder, verdade-, sem, no entanto, cair no relativismo.

Com efeito, os seminários dos anos 1990 em diante foram designados por ele próprio sob a rubrica questões de responsabilidade -e envolviam temas como o segredo, o perdão, a dádiva, a hospitalidade incondicional, os animais e a pena de morte. Trata-se de uma enorme contribuição para a história do pensamento, que questiona problemas da atualidade, como a pena capital, a política imigratória na Europa e os desdobramentos do 11 de Setembro.

Alguns dos livros publicados nesse período final estão disponíveis no país. Em 2004, por exemplo, traduzi Papel-Máquina [Estação Liberdade, 360 págs., R$59], com textos sobre a cultura digital e o livro, além de ensaios sobre a globalização. Dois outros volumes sobre questões políticas já foram muito bem traduzidos: Força de Lei (Martins Fontes), por Leyla Perrone-Moisés, e Espectros de Marx (Relume Dumará) -esgotados, mereceriam nova edição, como outros aqui citados, também fora de catálogo.

DESCONSTRUÇÃO

Jacques Derrida ficará conhecido decerto como o pensador da desconstrução. O termo foi banalizado, ganhando em setores da mídia o sentido de demolição. Isso nada tem a ver com as propostas derridianas, pois não se trata de destruir uma ordem para impor outra, mas de apontar o que, na ordem estabelecida, não funciona mais, abrindo o horizonte da reflexão.

Derrida raramente definiu a desconstrução, salvo em situações pontuais, relacionadas a determinados contextos. Como fez, de forma muito precisa, antes de vir ao Brasil em 2004, para um colóquio por mim organizado, em parceria com a Universidade Federal de Juiz de Fora e com o consulado francês no Rio.

Ao telefone, ele me disse: A desconstrução é um modo de pensar a filosofia, ou seja, a história da filosofia no sentido ocidental estrito, e, consequentemente, de analisar sua genealogia, seus conceitos, seus pressupostos, sua axiomática, além de naturalmente fazê-lo não apenas de maneira teórica mas também levando em conta as instituições, as práticas sociais e políticas, a cultura política do Ocidente -a entrevista completa foi publicada na Folha, pelo antigo caderno Mais!, em 15 de agosto daquele ano.

Ao contrário do que supõe um equívoco corrente, as desconstruções não vieram destruir a cultura ocidental, mas repensá-la a partir de seus outros, daquilo que ela tentou excluir como o exótico, o diferente, o que está à margem. Derrida sempre declarou seu amor pela tradição filosófica, embora todo o esforço fosse para pensar além dela. Seu questionamento fundamental serviria a diversas lutas sociais, como o feminismo, o antirracismo, o movimento gay e os estudos pós-coloniais.

Foi nesse sentido que -desde a época de adolescente na Argélia colonizada pela França- seu desejo intelectual dividiu-se entre literatura e filosofia. Ele explica isso na longa entrevista Essa Estranha Instituição Chamada Literatura [trad. Marileide Esqueda, ed. UFMG, 118 págs., R$ 35], em que expõe as relações entre discurso filosófico e literário ao longo de seu percurso.

Por ser uma instituição vinculada ao surgimento das democracias modernas, a literatura possibilitaria o direito de dizer tudo, embora muitas vezes possa ser censurada. Quando fui seu aluno, na França, esse tópico foi motivador, em minha tese, da categoria que denominei literatura pensante, relacionada à alteridade radical.

Não há em Derrida oposição entre literatura e filosofia, mas um desejo de que uma insemine a outra, ampliando o leque das reflexões. Em sua última entrevista ao jornal Le Monde, ele faz uma aposta no sentido de que seus herdeiros efetivos seriam poetas-pensadores, aqueles que soubessem reinventar seu legado, escrevendo um novíssimo texto.

PIONEIRO

O Brasil foi pioneiro na tradução de Derrida -antes mesmo da edição de qualquer livro seu nos Estados Unidos, país para onde começou a viajar nos anos 1960, a fim de dar palestras e seminários, e que é em geral considerado o berço da difusão de seu pensamento fora da França.

A Escritura e a Diferença, livro de 1967, saiu aqui em 1971, pela Perspectiva. Na recente edição revista e ampliada da obra, sanaram-se problemas da anterior: a linguagem está mais apurada, graças à revisão técnica; e foram acrescentados os três ensaios que haviam sido suprimidos na primeira edição, sem nenhuma justificativa ao leitor, restituindo assim a integridade de A Escritura e a Diferença [trad. Maria Beatriz Nizza da Silva, Pedro Leite Lopes e Pérola de Carvalho, Perspectiva, 448 págs., R$ 91].

A segunda tradução brasileira de Derrida, pela mesma editora, foi a de um livro que marcou época: Gramatologia [Renato Janine Ribeiro e Miriam Chnaiderman, Perspectiva, 400 págs., R$ 60]. Publicado na França em 1967, saiu aqui pela primeira vez em 1973, antes, portanto, da edição norte-americana (de 1976), com tradução de Gayatri Spivak.

Felizmente, segue em catálogo essa tradução, que é boa -sobretudo se considerarmos que, naquele momento, ainda não se tinha muito conhecimento desse vasto universo, que chegaria aos 80 volumes publicados.

O Glossário de Derrida (Francisco Alves, 1976, esgotado), escrito sob supervisão de Silviano Santiago, com seus alunos da PUC-Rio, marcou os primeiros comentários à obra do pensador entre nós.

Atualmente, contamos com alguns muito bons leitores de Derrida, especialmente nos departamentos de filosofia e letras, em instituições como a UFRJ, a UnB e a Unicamp, que formam grupos de pesquisa e disseminam a palavra do outro. Não se trata de nenhum movimento desconstrucionista à americana, mas de leituras que visam a enriquecer o pensamento no país, dotando-o de mais instrumentos reflexivos.

Procurei fazer isso num ensaio sobre Antropofagia e Desconstrução, publicado no volume organizado por João Cezar de Castro Rocha, Antropofagia Hoje? (É Realizações, 2011), em que proponho deslocar a pulsão devoradora oswaldiana por um comer junto. Em vez de devorar o outro, como ato de violência real ou simbólica, caberia acolhê-lo incondicionalmente no banquete cultural. Tal como outros pensadores, Derrida tem muito a contribuir para o debate de temas nacionais, num contexto planetário.

Estamos no depois de Derrida, momento de reflexão sobre o legado. Não há em geral, portanto, submissão intelectual nas traduções e leituras que se fazem no Brasil e em outros países, pois o que se busca é efetivamente ampliar a compreensão desse decisivo capítulo da história do pensamento, desdobrando-o.


EVANDO NASCIMENTO, 54, ensaísta e escritor, é autor de Derrida e a Literatura (3ª ed., pela É Realizações, no prelo).

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Sonhos complacentes


Por Luiz Felipe Pondé
Da Ilustrada

Não sou um daqueles céticos que acham que religião é coisa de gente boba. Apesar de ter aprendido já no jardim da infância a crítica que os três cavaleiros do ateísmo contemporâneo fizeram à religião, Marx, Nietzsche e Freud, e de já tê-la assimilado ao café da manhã, estudo o bastante da produção filosófica de algumas religiões pra saber que nem tudo nelas é bobagem.

Portanto, não sou aquele tipo de ateu chato que ridiculamente mede a inteligência de uma pessoa por sua crença na ciência.

E qual é essa crítica dos cavaleiros do ateísmo contemporâneo? De modo sintético, seria a seguinte: depois de Marx, se você é religioso, você é um alienado explorado por picaretas espirituais. Não podemos não concordar em grande parte com o que o velho barbudo diz sobre isso.

Depois de Nietzsche, se você é religioso, você é um covarde ressentido que não aceita a falta de sentido da vida e o abandono cósmico. Não podemos não concordar em grande parte com o que o filósofo do martelo diz sobre isso.

Depois de Freud, se você é religioso, você é um adulto bobo que não conseguiu lidar com os fatos de que seu pai não é o pica das galáxias e sua mãe não te ama incondicionalmente, daí Deus ser esses pais ideais. Não podemos não concordar em grande parte com o que o sábio de Viena diz sobre isso.

Preocupo-me aqui, especificamente, com um fenômeno que chamaria, carinhosamente, de masturbação espiritual, e que se caracteriza por um enorme narcisismo a serviço de uma falsa busca espiritual do tipo: o universo conspira a meu favor e Deus trabalha pra minha felicidade. A masturbação, aqui, representa exatamente o fato de que a masturbação é uma relação entre você e você. Na busca espiritual narcísica não existe qualquer transcendência, só a imanência entediante de um eu mesmo deslumbrado consigo mesmo.

Quando você ouvir falar, num jantar inteligente, que alguém acha todo mundo lindo, que os jovens hoje são mais inteligentes e abertos à espiritualidade (quando nem conseguem criar vínculos mais duradouros com nada) e nada no relato dessa busca espiritual trair uma certa percepção de desespero, uma crise de fé em si mesmo, uma angústia moral, um horror qualquer, você está assistindo a uma sessão de masturbação espiritual.

Outro dia, conversando sobre isso com minha mulher, que faz doutorado sobre o psicanalista inglês D. W. Winnicott e o sofisticado sociólogo alemão Norbert Elias, ela me leu esse maravilhoso trecho de um livro de Elias, A Solidão dos Moribundos, da editora Zahar. Leia comigo:

Hoje, com o imenso acúmulo de experiência, não podemos mais deixar de nos perguntar se esses sonhos complacentes não têm, a longo prazo, consequências bem mais indesejáveis e perigosas para o seres humanos em sua vida comunal que o conhecimento bruto e sem retoques.

Elias, neste período, discute em que medida o aumento da imaginação, como fruto da evolução, não teria vindo em socorro da incômoda e crescente consciência da finitude e da morte, nossos fantasmas humanos, demasiado humanos. A questão, dita de outra forma, seria: não estamos ficando mais bobos à medida que somos mais complacentes com as bobagens em que acreditamos? Alguns exemplos de bobagens: energias do universo, criança cristal, geração índigo, pedras energéticas, xamãs da Vila Madalena.

Ouso responder que sim. Essa moçada é, na verdade, gente sem compromisso com nada e complacente com suas manias egóicas.

Passam a vida buscando a si mesmos assim como quem vai a Orlando brincar de ser criança (nada contra Orlando, tudo contra a punheta espiritual).

Morrendo de medo da responsabilidade pela vida, diante do horror ao silêncio de um universo indiferente (Nietzsche), agoniados com a castração dos pais (Freud), preferindo gastar dinheiro com gurus inócuos (Marx), essa turma faz mais mal ao mundo do que quem diz diretamente na sua cara: o que você acredita é uma bobagem!

Mas, de repente, paro e penso: não estarei eu caindo na velha arrogância cética? Não deve a filosofia nos ensinar a humildade diante da dor?

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Cro-Magnon no Shopping


Por Luiz Felipe Pondé
Da Ilustrada

Somos uma espécie pré-histórica que passeia no shopping. Explico: somos adaptados a um cenário de uns 50 mil anos atrás. Shopping, aqui, significa a vida moderna. Logo: uma espécie que está na pré-história desfila pelos shoppings hoje achando que a pré-história saiu dela.

Desde que comecei a ler sobre a pré-história, minha vida mudou. Afirmação dramática para uma segunda-feira, claro. A pré-história arruinou em mim a ilusão de que o mundo tenha começado na queda da Bastilha, como pensam os inteligentinhos.

Eu sinto a cada instante que a pré-história nos espreita pela fresta da porta. Não o Messias, como dizem alguns místicos judeus, mas a pré-história. Somos uma espécie pré-histórica que passeia no shopping.

Mas devo dizer que, para mim, isso não é uma humilhação. Pelo contrário, nutro grande reverência por nossos ancestrais. Julgo-os mais sérios, mais sólidos e com muito mais noção da realidade.

Nós somos uns mimadinhos exigindo direitos. Às vezes, suspeito fortemente que ficamos um pouco retardados. A consciência pré-histórica em nós é um dado de realidade profundo e que age em nós silenciosamente.

Por isso, é uma espécie de inconsciente evolucionário que garante que não fiquemos tão idiotas.

As mulheres, por exemplo, na pré-história, eram um poço de prontidão selvagem pra vida, com sua coragem, determinação e fôlego de parir bebês sem gineco, sem eutonista, sem doula, sem astrólogo... Sei, antes que algum inteligentinho apaixonado por iPhones grite, que a vida era muito mais dura. Por isso mesmo, menos boba.

Umas das consequências de ver o mundo com os olhos da pré-história é se assumir como alguém influenciado pelo darwinismo, que julgo muito superior ao marxismo como análise de mundo. E isso não significa defender o darwinismo social como inteligentinhos, na sua pressa típica de mentes lentas, assumem.

Significa reconhecer em nós um Cro-Magnon que é obrigado a cada dia viver num mundo de luxo estranho a nossas origens: não somos um animal do luxo.

Significa reconhecer que ainda que desfilemos marcas chiques e sonhemos com direitos que garantam a vida, sabemos, no fundo de nossos cérebros neolíticos, que a vida, no fundo, é atrair parceiros pra reprodução, impressionar amigos com nossas realizações e gerar e cuidar da prole.

Tememos a precariedade, que, aos poucos, queremos acreditar que já foi resolvida. Hobbes estava certo, mas não só em política.

Evoluímos num ambiente de alto risco e que exigia de nós muita consciência prática. Vivemos hoje num ambiente alucinante de criações luxuosas que nos fazem acreditar que a vida seja uma criação social que construímos ao sabor de nosso desejo. Em resumo: levamos muito a sério o parque temático que construímos.

Segundo o que nos diz Geoffrey Miller, psicólogo evolucionista, em seu divertido (indicação da minha filha) Spent - Sex, Evolution, and Consumer Behavior, Penguin Books, 2010, o darwinismo é um parceiro mais capacitado a entender a razão de viver como vivemos.

O autor imagina uma hipotética conversa entre um de nós (que viaja no tempo) e os Cro-Magnon e tenta convencê-los que nossa sofisticada época seria melhor do que a deles. Ao final, os Cro-Magnon chegam à conclusão de que nosso mundo é estragado por coisas desnecessárias e que complicam o foco da vida: segurança, reprodução, cuidado com a prole.

Para Miller, compramos feito loucos porque queremos emitir sinais que mostrem aos nossos parceiros de bando nossa capacidade de conquistar o mundo. Neste sentido, materialismo não seria um bom termo pra descrever nosso mundo porque o que adquirimos com essa parafernália não é a matéria em si dos objetos, mas sim o poder de impressionar os outros com nossa capacidade de adquiri-los.

Estes sinais seriam fitness indicators (indicadores de adaptação), ou seja, sinais de que somos capazes de reproduzir, gerar e cuidar. Há um inconsciente evolucionário agindo em nós e estamos apenas começando a entendê-lo. Acho que deveríamos estudar mais a pré-história e menos os anos 60.


quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Bergman e autoficção em "Depois do Ensaio"


Por Amir Labaki

Da Ilustríssima

RESUMO Crítico analisa peça de Ingmar Bergman (1918-2007) dentro do quadro de seus escritos autobiográficos. Depois do Ensaio, cujo protagonista é um homem de teatro, não só põe em cena a admiração do cineasta sueco por August Strindberg (1849-1912) como recria aspectos da trajetória do diretor de Persona.


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No universo cinematográfico de Ingmar Bergman (1918-2007), com frequência artistas ocupam o lugar de personagens principais. Muitos são os que protagonizam dramas sobre o tumulto da existência, os conflitos das relações amorosas, o medo da morte, a membrana permeável que separa vida e sonho, as batalhas do mundo interior.

O recurso povoa toda a obra de Bergman, desde os instrumentistas de um de seus primeiros filmes, Música na Noite (1948), passando pelo pintor de A Hora do Lobo (1968), pelo trio de atores de O Rito (1969) ou por cineastas como em O Último Suspiro (1995).

Alguns deles até portam o mesmo sobrenome, Vogler, como o mago hipnotizador de O Rosto (1958), a atriz em crise em Persona (1966) e o diretor de teatro de Depois do Ensaio (1984) -neste último, de prenome Henrik, há contudo uma dimensão inédita.

É interessante examinar Depois do Ensaio dentro dos ciclos autobiográficos a que Bergman se dedicou a partir dos anos 1980.

O primeiro teve início com Fanny e Alexander (1982), prosseguindo com o documentário de curta-metragem O Rosto de Karin (1983) e conclui em Depois do Ensaio. Oito anos mais tarde, começaria a vir a público o segundo ciclo, apenas escrito por Bergman, mas dirigido por cineastas próximos a ele. São essencialmente as versões fílmicas da história de seus pais, na trilogia formada por As Melhores Intenções (Bille August, 1991), Crianças de Domingo (Daniel Bergman, 1992) e Confissões Privadas (Liv Ullmann, 1996).

O casal central, sob o disfarce Henrik/Anna no primeiro e terceiro filmes, e sob seus nomes reais Erik/Karin no segundo, claramente espelha os pais verdadeiros de Bergman. As Melhores Intenções trata da turbulenta corte que formou o par. Crianças de Domingo mergulha na relação tumultuada entre o severo pai pastor e seu inquieto filho. Por fim, Confissões Privadas especula sobre a vida torturada da mãe de Bergman, complementando em ficção seu desaparecimento [...] nas imagens coletivas da família, que o próprio cineasta sueco já revelara em O Rosto de Karin, realizado unicamente a partir do álbum fotográfico doméstico.

Não surpreende que, entre os dois ciclos, Bergman tenha canalizado energia para seus dois principais volumes autobiográficos: Lanterna Mágica [trad. Marion Xavier, Cosac Naify, 320 págs., R$ 87,50], escrito por ele mesmo em 1987, e Imagens [trad. Alexandre Pastor, Martins, 448 págs., R$ 72,24], de 1992, editado a partir de entrevistas com ele feitas pelo crítico Lasse Bergström entre 1988 e 1990.

O episódio catalisador desse momento é evidente: o trauma advindo de seu autoexílio na Alemanha (1976-84), após uma agressiva interpelação pelas autoridades suecas, em pleno Dramaten, o Teatro Real sueco, a respeito de pretensas pendências fiscais.

Bergman disparou o processo autoanalítico naquele período em que, plenamente inocentado das acusações, se dividia entre Alemanha e Suécia. O primeiro resultado é seu épico sobre o maravilhamento na infância, entre lanternas mágicas e teatro de marionetes: Fanny e Alexander. Ele recordou em Imagens como o concebeu, no outono de 1978, quando, diz, tudo em sua vida era miséria e trevas. O roteiro do filme seria escrito na primavera seguinte, em seu primeiro retorno à casa na ilha de Fårö.

Ecos de Ibsen (11 montagens), Shakespeare (10) e sobretudo Strindberg (30), seus dramaturgos de cabeceira, não poderiam faltar. A obra que classificou como seu testamento cinematográfico encerra-se com a avó lendo para o garoto Alexander/Ingmar um trecho de O Sonho (1902) de Strindberg: Tudo pode acontecer, tudo é possível e provável. O tempo e o espaço não existem. Sobre um ligeiro fundo de realidade, a imaginação tece sua teia e cria novos desenhos, novos destinos.

FAST FORWARD

Parece natural, assim, que Bergman tenha se proposto um fast forward em sua própria trajetória escrevendo, naquele mesmo impulso, um texto sobre sua vida no teatro -para os palcos, TV ou cinema, pouco lhe importava. É compreensível também que esse texto, Depois do Ensaio, parta de onde Fanny e Alexander parou: O Sonho, de August Strindberg (1849-1912).

A peça do dramaturgo sueco fascina tanto Bergman quanto seu alter ego Henrik Vogler. O personagem tem a mesma idade que tinha Bergman enquanto o concebia, em 1980, 62 anos, e levou O Sonho aos palcos cinco vezes -o próprio Bergman o fez em quatro ocasiões (o único outro texto que pôs em cena com igual frequência foi A Sonata Fantasma, também de autoria de Strindberg, de 1907).

Meu primeiro contato com Strindberg foi quando tinha 12 anos, recordou ele em março de 1990, em entrevista ao cineasta francês Olivier Assayas e ao crítico e diretor sueco Stig Björkman, recolhida em Conversation avec Bergman (Cahiers du Cinéma, 2004).

Foi uma enorme experiência (...) Eu não quero fazer comparações, mas Strindberg era meu Deus, e sua vitalidade, sua raiva, eu as sentia dentro de mim. Sua dissertação de formatura, vale lembrar, também girava em torno do universo do autor e, em Estocolmo, viveu num apartamento no mesmo prédio habitado anteriormente pelo dramaturgo.

A primeira montagem bergmaniana de O Sonho, em 1963, teve a forma de teleteatro. A segunda, de 1970, era mais experimental, com o texto tendo sido reduzido para um espetáculo ininterrupto de hora e meia. Nela, a protagonista, Agnes, filha do deus hindu Indra, era interpretada por duas atrizes. Em 1977, a terceira montagem representou a estreia teatral alemã de Bergman durante o autoexílio em Munique. Por fim, de volta ao Dramaten de Estocolmo, ele realizou em 1986 sua última versão, de duas horas e meia, recebida com reservas.

É curioso ressaltar como uma das intervenções principais propostas por Bergman em suas duas últimas montagens de O Sonho repete-se na versão para a TV de Depois do Ensaio: a introdução da peça como uma possível experiência onírica. Em suas encenações finais do texto de Strindberg, é o Poeta que a apresenta; no telefilme de 1984, acrescentando um preâmbulo inexistente no texto original, é Vogler que anuncia ter dormido um pouco (aliás, como o Estudante na primeira cena de A Sonata Fantasma) e que, com isso, alguma coisa mudou.

Embora O Sonho, fragmentado entre 14 personagens principais, seja a referência mais explícita ao universo de Strindberg em Depois do Ensaio, em seu texto Bergman recorre, na verdade, a uma estrutura similar ao ciclo mais tardio (1907-08) de peças de câmara do dramaturgo sueco (Tempestade, A Casa Queimada, A Sonata Fantasma, O Pelicano e A Luva Preta).

Destas, vale frisar, ele encenou, no decorrer de sua carreira, a segunda, a terceira e a quarta. Se a aparição de Rakel no palco remete aos espectros de A Sonata Fantasma e A Casa Queimada -ecos prováveis de Hamlet de Shakespeare, paixão compartilhada pelos dois artistas suecos-, a unicidade de cenário irmana Depois do Ensaio e O Pelicano.

RAÍZES

Depois do Ensaio é uma autoficção com firmes raízes biográficas. Basta ler Lanterna Mágica para constatar a dimensão dessa âncora memorialística. Em dois parágrafos, logo na abertura do quarto capítulo, encontramos, com pequenas alterações, dois dos monólogos mais intrinsecamente testemunhais de Vogler sobre sua vida no teatro: o de sua primeira lembrança da coxia e aquele em que trata de seu método baseado em autodisciplina, limpeza, luz e tranquilidade.

As obsessões dramatúrgicas de Bergman pontuam o texto, em alguns casos como piscadelas irônicas. Molière era um de seus autores prediletos, e seu Tartufo, encenado durante o período em Munique, em 1979, foi severamente criticado. Nunca tive sucesso com 'Tartufo', desabafa Vogler frente à ideia da veterana atriz Rakel de retomarem a antiga parceria produzindo uma montagem.

A dimensão autobiográfica se expressa ainda pela assumida inspiração em Erland Josephson (1923-2012) e Lena Olin para a criação de Henrik e Anna.

Mais de meio século de amizade e parceria marcavam a história de Erland e Ingmar. A colaboração entre eles nasceu na juventude, em palcos do interior da Suécia, e estendeu-se para as telas, com Erland assumindo o papel de seu alter ego a partir de Cenas de um Casamento (1973).

A biografia de Lena Olin é uma fonte subterrânea para a criação, por Bergman e por ela mesma, do papel de Anna, filha de Rakel. Seu pai, o ator e diretor de teatro Stig Olin (1920-2008), foi uma espécie de Erland Josephson do princípio da carreira cinematográfica do jovem Bergman, defendendo papéis variados, não raramente como protagonista, em Tortura do Desejo (1944), Crise (1946), Porto (1948), Prisão (1949), Rumo à Alegria (1950) e Juventude (1951). Já a mãe de Lena, Britta Holmberg (1921-2004), atriz como Rakel, estrelou Prisão com o marido, sob a direção de Bergman.

O diretor sueco foi, por sua vez, um dos principais incentivadores para que Lena Olin abraçasse a carreira de atriz. Dois anos após trabalharem em Depois do Ensaio, Lena interpretou uma das Agnes da montagem final de O Sonho por ele.

Apesar da estreita parceria anterior com Bergman, nos palcos e no cinema, Ingrid Thulin (1926-2004) não foi a inspiração para a veterana Rakel. Escrevi esse papel como um monumento ao amor de Gertrud Fridh, confessou o diretor a Assayas e Björkman. Fridh (1921-84) e Bergman colaboraram em 21 projetos, entre teatro e cinema. Em 1964, sob a direção dele, a Hedda Gabler de Fridh se tornou o modelo ainda a ser superado nos palcos suecos. É impossível explicar o que acontecia com aquela garota quando entrava em cena, disse ele, na mesma entrevista.

Thulin aceitou fazer Rakel apenas quatro semanas antes do início das filmagens. Bergman elogiou seu desempenho e disse que ela conseguiu coisas muito boas, mas não pôde distanciar-se de seu papel. Pudera: em 1963, quando Bergman pela primeira vez montou O Sonho, foi ela quem deu vida a Agnes.

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EM CARTAZ Depois do Ensaio está em cartaz no Oi Futuro Flamengo, no Rio. A montagem, com texto traduzido por Amir Labaki e Humberto Saccomandi, dirigida por Mônica Guimarães e protagonizado por Leopoldo Pacheco, Denise Weinberg e Sophia Reis, deve chegar a São Paulo no ano que vem. No próximo sábado (18), Através de um Espelho, adaptação teatral do filme homônimo de Bergman, estreia no Tucarena, na capital paulista, em encenação a cargo de Ulysses Cruz, com Gabriela Duarte no papel da protagonista Karin. Ambas as temporadas vão até 30/11.


AMIR LABAKI, 51, cineasta, crítico de cinema e fundador do festival É Tudo Verdade, é autor da peça Lenya, que estreou em São Paulo em 2008. É colunista do Valor Econômico.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Brigitte Bardot aos 80 anos: sempre ousada, franca e controversa


Por Agnès Poirier
Do Observer
Tradução de Paulo Migliacci


A mulher que a revista "Paris-Match" descreveu como "imoral da cabeça aos pés" em 1958 completa 80 anos hoje. A "mulher mais bonita do mundo" pode ter optado por abandonar a carreira em 1973, no pico de sua fama e beleza, para dedicar a vida aos animais, mas Brigitte Bardot nunca deixou de ser uma figura controversa.

Algumas histórias bastam para explicar. Na noite de 7 de dezembro de 1967, Paris aguardava com a respiração suspensa: Charles de Gaulle e Brigitte Bardot estavam por se encontrar pela primeira vez. "Le général" havia convidado a estrela de cinema a visitá-lo no palácio do Eliseu. E, em uma violação chocante do protocolo do palácio, que na época proibia que mulheres usassem calças como traje noturno, Bardot chegou vestida de hussardo da era napoleônica. Com galardões dourados e mais de uma dúzia de fileiras de botões reluzentes sobre o busto, ela trazia os longos cabelos loiros soltos por sobre os ombros, e os olhos maquiados com forte delineador preto. O mordomo chefe do palácio deve ter suado frio quando a viu subindo as escadas naqueles trajes. A estrela e o general se encontraram nos degraus. Foi ela que falou primeiro: "Bonjour, mon général", disse Bardot, um tanto tímida. De Gaulle, fingindo inspecionar o dólmã que ela vestia, respondeu: "De fato! Madame!" "Panache" é o termo que descreve bem a atitude que os dois exibiram abundantemente ao longo de suas vidas, ainda que de modos e em circunstâncias muito diferentes.

Ao contrário das outras deusas das telas de sua era, como Gina Lollobrigida e Sophia Loren (que completou 80 anos no último dia 20), Bardot não era uma garota de classe operária. Vinha de uma família muito burguesa, de católicos muito devotos, que vivia em um apartamento de sete quartos no elegante 16º arrondissement de Paris, não distante da Torre Eiffel. Tendo estudado balé por três anos, a partir dos 13, no Conservatoire de Paris (sua colega de curso, Leslie Caron, seria mais tarde selecionada por Gene Kelly para estrelar com ele a obra-prima do Technicolor "Um Americano em Paris"), Bardot desenvolveu a postura e o caminhar elegante que não demorariam a fascinar o mundo.

Em 8 de março de 1950, aos 15 anos, Bardot apareceu na capa da revista "Elle", e o eixo do planeta se deslocou. Lá estava o epítome da graça e estilo. Ela era recatada, católica, repleta de curvas mas com um corpo forte e musculoso; uma forma de atleta construída por meio de sessões intensas de entrechats. Bardot usava vestidos de algodão sem forros elaborados ou estruturas restritivas, e biquínis estampados de cores fortes. Com Françoise Sagan, que escreveu o best seller "Bom Dia, Tristeza", aos 17 anos, ela compartilhava de um sorriso provocante, um olhar inteligente e dos verões descalços de Saint Tropez. Eram as brilhantes meninas prodígio da França. Depois da "aposentadoria" prematura de Bardot como atriz, Sagan escreveu um livro sobre ela, em 1975: a um só tempo celebração e despedida. "Bardot não se desculpava por seu absoluto triunfo, em um momento no qual tantos outros se desculpavam por suas meias-vitórias".

A inocente "jeune fille" cresceu e, em poucos anos, se tornou símbolo sexual. Em 1957, aos 23 anos, fez história cinematográfica com "E Deus Criou a Mulher", o seminal filme de seu marido Roger Vadim, no qual sua explosiva sensualidade é graciosa como de hábito, sem jamais resvalar para a crueza. Em uma cena famosa, ela dança como se estivesse em transe, descalça, a pele reluzente de suor, os cabelos soltos, desarranjados. Suas coxas, de bailarina, são bronzeadas, fortes, musculosas. Ela está tão longe da imagem ordeira e construída das estrelas de Hollywood naquela era que, quando o filme foi lançado nos Estados Unidos, causou indignação em escala continental. Ver aquelas gotas de suor enlouquecia os homens norte-americanos. Os dirigentes de cinemas que ousaram exibir o filme terminaram processados, e ele foi proibido em alguns Estados; artigos nos jornais denunciavam a depravação daquilo tudo. Como resultado, "E Deus Criou a Mulher" se tornou sucesso ainda maior de bilheteria e o controvérsia ajudou a promovê-lo ainda mais na Europa.

Os defensores da moralidade pediam que Bardot fosse proibida, como se ela fosse alguma forma de droga ilegal. O apelo de Bardot, de fato, é diferente de qualquer outro. Tendo por base sua grande beleza, uma combinação de sensualidade voraz e grande estilo, ela também fascinou pelo menos duas gerações por conta de seu estilo de vida. Pois Bardot se comportava exatamente como um homem, em sua vida pessoal. Não respeitava restrições; não se sentia compelida a seguir convenções. Não queria ser esposa e mãe. Tentou as duas coisas, casou-se quatro vezes e teve um filho, mas decidiu que não havia sido feita para aquilo. Não é que Bardot estivesse se rebelando contra alguma coisa; estava só sendo quem era. Nos anos 50, 15 anos antes da voga revolucionária de 1968, comportamento como o dela era tanto fonte de escândalo quanto de aspiração secreta para muitas mulheres. Em um estudo sobre Bardot publicado em 1959, aquela outra mulher francesa que vivia sua vida desrespeitando convenções, Simone de Beauvoir, reconheceu a "absoluta liberdade" de Bardot. Seu estilo de vida, para muitos admiradores, era como que um manifesto filosófico.

Marie-Dominique Lelièvre, autora de numerosas biografias, diz que dos muitos astros a que voltou sua atenção, de Yves Saint-Laurent a Coco Chanel, passando por Serge Gainsbourg e François Sagan, Bardot tinha a mais complexa personalidade, e usava sua celebridade como uma cortina de fumaça. "Ela foi a primeira mulher a ter sua liberdade sexual publicamente exibida", disse Lelièvre. "Antes de Bardot, uma mulher que trocasse de amante pelo menor capricho era chamada de vagabunda, de 'salope'. Depois de Bardot, ela simplesmente passou a ser vista como 'libérée'. Ao contrário das atrizes de Hollywood, que respeitavam as regras, Bardot ditava as suas. Atraía mulheres que queriam ser como ela, e homens que simplesmente a queriam". John Lennon, completamente encantado por Bardot, tinha um pôster gigantesco com uma foto dela no teto de seu quarto. Gainsbourg compôs uma canção para ela chamada "Initials BB", depois que eles romperam em 1968, na qual ele canta: "Até o alto das coxas sobem suas botas, e é como cálice para sua beleza; ela usa só um perfume de Guerlain nos cabelos".

Hoje, Bardot continua a ser ícone. "Kate Moss e Amy Winehouse devem muito a ela", explica Lelièvre. E Bardot sempre foi um ícone controverso. Ao contrário de Faye Dunaway, Loren e Catherine Deneuve, e de quase todas as demais beldades cinematográficas de sua estatura, Bardot jamais recorreu a cirurgias cosméticas. "Ela nunca evitou o olhar cruel do espelho. Suporta o envelhecimento com classe", diz Lelièvre. Mesmo assim, nem tudo vai bem na terra de Bardot. Depois de viver por décadas como reclusa em suas duas propriedades em Saint Tropez, incapaz de sair sem ser incomodada por fãs e paparazzi, ela desenvolveu, diz sua biógrafa, "uma visão de mundo bastante distorcida", e se concentra apenas em sua fundação para a proteção e bem estar dos animais. Oposta ao que vê como crueldade inerente ao processo halal de abate de animais, ela fez comentários antimuçulmanos pelos quais foi condenada nos tribunais franceses e forçada a pagar multas salgadas. Entre 1997 e 2008, ela encarou os juízes franceses em cinco ocasiões, sob acusações de "incitar o ódio racial". Na última delas, foi multada em 15 mil euros. Bardot foi condenada por declarar que "estou cheia de viver sob o controle dessa população [a comunidade muçulmana] que está nos destruindo, destruindo nosso país e impondo seus atos". Ela estava se referindo ao fato de que o método ritual muçulmano não inclui anestesiar os carneiros antes do abate. "Os animais são sua vida, e sendo a mulher espontânea que é, ela não consegue guardar suas opiniões para si. Não compreende que, por ser Bardot, suas palavras portam certo peso. De diversas maneiras, ela continua a ser uma criança irrefletida e egocêntrica", diz Lelièvre.

E há também a questão de seu aparente flerte com a Frente Nacional. Mas, de acordo com Lelièvre, a dimensão de sua simpatia pela extrema direita pode estar sendo superestimada. "O marido de Brigitte Bardot é amigo de Jean-Marie Le Pen, mas nem ele e nem ela são membros do partido. Bardot não é racista e nem ativista de extrema direita". De fato, diz Lelièvre, qualquer tentativa de classificá-la é fútil: "Bardot é Bardot, e desafia definições".

O currículo de Brigitte Bardot

Nascida em 28 de setembro de 1934; seu pai, Louis, era engenheiro. Ela estudou balé no Conservatório de Paris e começou a trabalhar como modelo aos 14 anos.

Carreira: Lançada à fama em 1956 depois de aparecer se retorcendo na praia em "E Deus Criou a Mulher", um filme que se tornou cult, ela estrelou 47 filmes. Aposentou-se em 1973, "cansada" da fama e desejosa de dedicar sua vida aos animais.

Família: Casou-se com o cineasta Roger Vadim aos 18 anos, e se divorciou cinco anos mais tarde. Depois, se casou com o ator Jacques Charrier, com quem teve seu único filho, Nicolas. Mais tarde, se casou com o milionário alemão Gunter Sachs. Em 1992, se casou com Bernard d'Ormale, ex-assessor da Frente Nacional, o partido francês de extrema direita. Em 2012, apoiou a líder da Frente Nacional, Marine Le Pen, na eleição presidencial francesa.



segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Todos os títulos e os muitos nomes de Spinoza


Por Úrsula Passos*
Da Ilustríssima

A obra do filósofo holandês Spinoza (1632-77), embora considerada seminal para a modernidade, não estava integralmente disponível naquela que era a língua de sua família: o português. Lançamentos recentes cobrem essa brecha e jogam luz sobre o estudioso excomungado da comunidade judaica por suas ideias.

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"Maldito seja de dia e maldito seja de noite, maldito seja seu levantar e maldito seja seu deitar, maldito ele em seu sair e maldito ele em seu entrar." Foi com essas palavras que um homem de 24 anos foi expulso da comunidade judaica de Amsterdã, no ano de 1656. Em 1674, os Estados Gerais da Holanda proibiriam a impressão de seu livro "Tratado Teológico-Político", considerado "blasfematório e pernicioso para a alma", e, quatro anos mais tarde, vetariam a divulgação de sua obra póstuma.

Benedictus de Spinoza, como assinou suas obras em latim, ou Baruch de Espinosa ou Baruch Spinoza, como aparece em documentos oficiais (1632-77), foi, por muitos anos, considerado subversivo por suas teses filosóficas, que incluem a identidade entre Deus e natureza, a negação do livre-arbítrio do homem e uma concepção de religião que dispensa templos, cerimônias e teologias. Hoje, é considerado um dos inauguradores do pensamento moderno, junto a nomes como René Descartes e Thomas Hobbes.

Até este ano, porém, o leitor brasileiro não dispunha de uma tradução das obras completas de Spinoza na íntegra. A edição em quatro volumes da editora Perspectiva vem preencher esta lacuna. O projeto foi organizado pelo editor Jacó Guinsburg e pelo jornalista Newton Cunha -que também traduziram os livros- em conjunto com o professor de filosofia da Unicamp Roberto Romano.

A coleção traz, no primeiro volume, o "(Breve) Tratado de Deus, do Homem e de sua Felicidade", "Princípios da Filosofia Cartesiana", "Pensamentos Metafísicos", "Tratado da Correção do Intelecto" e o "Tratado Político" [R$ 75, 488 págs.] e publica pela primeira vez a correspondência completa de Spinoza, acompanhada da primeira biografia do filósofo -"A Vida de Barukh de Spinoza" (1705), de Johannes Colerus [R$ 69, 392 págs.], no segundo tomo da série.

O terceiro volume é dedicado ao "Tratado Teológico-Político" [R$ 69, 394 págs.] e o quarto, que deve sair ainda neste mês, contempla a "Ética" e, também pela primeira vez em português, o "Compêndio de Gramática da Língua Hebraica", traduzida por Jacó e sua mulher, Gita Guinsburg.

Além da Perspectiva, a editora Autêntica conta, desde 2011, com a Série Espinosana, que pretende lançar, separadamente, todas as obras do filósofo, sob coordenação do professor de filosofia da USP Homero Santiago, de Ericka Marie Itokazu, professora da Unirio, e de André Menezes Rocha, doutor em filosofia pela USP.

A coleção, que também publica ensaios sobre o filósofo, conta, por ora, com dois títulos: "A Unidade do Corpo e da Mente - Afetos, Ações e Paixões em Espinosa" [trad. Luis César Guimarães Oliva e Marcus Ferreira de Paula, R$ 39, 208 págs.], da professora francesa Chantal Jaquet, e "Breve Tratado de Deus, do Homem e do seu Bem-estar" [trad. Emanuel Angelo da Rocha Fragoso e Luis César Guimarães Oliva, R$ 47, 176 págs.], lançado em 2012, a primeira tradução desse texto de Spinoza para a língua portuguesa.

GEÔMETRAS

A Edusp, por sua vez, deve lançar até o fim do ano uma nova tradução da "Ética" (cujo nome completo é "Ética Demonstrada à Maneira dos Geômetras"), feita pelo Grupo de Estudos Espinosanos, sob coordenação da professora de filosofia da USP Marilena Chaui. Essa tradução começou a ser feita nos anos 1990 como uma forma de aprofundar as pesquisas do grupo, e sua edição terá projeto gráfico semelhante ao da edição original, de 1677, na qual se evidencia graficamente a divisão do livro em proposições, demonstrações e escólios (comentários ou explicações de uma proposição).

"Spinoza era um homem muito ligado em ciência, na época dele a geometria era, e ainda é, o exemplo máximo da racionalidade. Aquela forma que Euclides adotou de dizer explicitamente quais são os princípios e estabelecer nexos lógicos depois se transformou numa referência do que é uma obra científica, do que é uma explicitação racional do pensamento. Ele não esconde a sua maneira de evoluir e, muito inspirado em Descartes, estabelece um raciocínio matemático na 'Ética'", afirma o editor César Benjamin.

Ele organizou e publicou recentemente por sua editora, a Contraponto, o volume "Estudos sobre Spinoza" [trad. Eliana Aguiar, Estela dos Santos Abreu e Vera Ribeiro, R$ 82, 372 págs.], que reúne quatro ensaios de estudiosos estrangeiros e consagrados, como o francês Léon Brunschvicg (1869-1944), sobre a obra do filósofo.

Para o professor Homero Santiago, autor de "Espinosa e o Cartesianismo" (Humanitas, 2004), é surpreendente que o português não contasse com uma tradução das obras completas de Spinoza, à diferença do que já acontecia com idiomas como o francês, o inglês, o alemão e o italiano.

Por outro lado, Santiago chama a atenção para um efeito sanfona no interesse pelo filósofo. Ainda que tenha sido constantemente uma referência para grandes pensadores, desde sua morte, no século 17, ele ficou centenas de anos sem reedições importantes. "Ele se tornou quase um espectro sobre a Europa e apenas no século 19 foi republicado, na Alemanha", diz.

"A discussão que há em Spinoza é válida; é a discussão sobre a liberdade humana, sobre os limites da intervenção do Estado, sobre as obrigações entre Estado e cidadão, e, sobretudo, sobre a liberdade de opinião", diz Jacó Guinsburg, editor e fundador da Perspectiva, em seu escritório, cercado por prateleiras contendo os livros que vem publicando desde 1965.

MAIO DE 68

Foi no bojo do movimento francês de Maio de 68 que se retomou de vez a obra do filósofo excomungado de sua comunidade, intelectual judeu de origem portuguesa cuja família fugia da Inquisição. Na França dos anos 1960 foram publicados dois importantes estudos sobre Spinoza. Um foi a obra em dois volumes de Martial Gueroult (1891-1976), professor do Collège de France que chegou a dar aulas no Brasil nos anos 1940 e 1950, e o outro, o de Gilles Deleuze, "Spinoza e o Problema da Expressão", sua tese secundária de doutorado, defendida em 68 -a primeira deu origem ao livro "Diferença e Repetição", obra fundamental do filósofo.

A interpretação de Deleuze "conecta Spinoza a toda a movimentação política, de transformação social do Maio de 68 francês", explica Santiago. A partir daí, os estudos spinozianos ganham ímpeto. "Embora seja um clássico do século 17, ele é um dos filósofos mais em evidência hoje, não só no campo da filosofia mas no das humanidades em geral. Desde a década de 1960 houve um renascimento que só tem se intensificado nos últimos anos."

Nas décadas de 1970 e 1980, estudos fortaleceriam o vínculo entre o filósofo e a política e, recentemente, o influente filósofo marxista italiano Antonio Negri se declararia spinoziano. "Até mais", diz Santiago: "Ele propõe que hoje deve-se ler Marx sob as lentes spinozianas".

"A defesa que Spinoza faz da liberdade de consciência e de expressão é muito atual. Como o Estado não pode alterar consciências, ele não tem que legislar sobre consciências", diz Benjamin.

Para ele, outro aspecto da obra de Spinoza a colocá-lo entre os precursores do moderno é a questão da individualidade. "Em sua época não existia a ideia de indivíduo, cada um pertencia a um grupo e tinha suas qualidades, por meio do qual fazia a mediação com o Estado". Isolado de seu grupo pela excomunhão, Spinoza introduz a questão do indivíduo em sua obra. "Ele é um precursor, o mundo moderno já estava nascendo, e ele, tanto pela obra quanto pela vida, é o precursor dessa modernidade", opina o editor.

LENTE

Spinoza, que se estabelecera como artesão de lentes, recusou o convite para lecionar na universidade alemã de Heidelberg porque, segundo ele, não sabia quanto o fato de ensinar limitaria a liberdade que a instituição lhe havia prometido. No "Tratado Político" o filósofo defende que, em uma república livre, deve haver licença para ensinar publicamente, mas não a expensas do Estado. Spinoza não virou professor e não cuidou dos negócios de produtos orientais da família: passou a vida polindo instrumentos ópticos.

"Ele era um intelectual naquilo que de mais puro podemos pensar: não ter comprometimentos de outra ordem", diz Guinsburg.

"Spinoza se volta para a política como uma maneira de lidar com a multidão, uma forma de fazer avançar o processo civilizatório sem exigir que todas as pessoas sejam intelectuais", explica César Benjamin. Segundo Roberto Romano, nos livros do filósofo é perene a confiança na política, e o "exame cauteloso dos textos" deixa claro por que Spinoza e seus seguidores foram alvo de "tantos ataques, excomunhões e vetos". "Ler Spinoza ajuda a pensar o Estado e a sociedade, sobretudo em suas gravíssimas crises institucionais de hoje. Quem deseja uma vida democrática e livre não se afasta de Spinoza", frisa.

DEUS

Em 1999, Marilena Chaui, maior estudiosa de Spinoza no Brasil, foi entrevistada no programa "Roda Viva", da TV Cultura. Na ocasião, lançava seu imponente estudo sobre o filósofo, "A Nervura do Real" [Companhia das Letras, R$ 104, 1.240 págs.]. O apresentador Paulo Markun perguntou-lhe se acreditava em Deus. Sua resposta causou frisson: "Eu conheço Deus, eu não acredito nele". E explicou, à moda de Spinoza: "Conhecê-lo é exercer o trabalho do pensamento na direção de conhecer a estrutura do universo e seu modo de realização".

Para Spinoza há uma identidade entre Deus e natureza ("Deus sive Natura"). Ao longo do tempo, essa identificação foi vista de diferentes formas: no século 17, foi considerada como ateísmo; no Iluminismo, como religião natural; e, finalmente, no romantismo, como misticismo panteísta. Mas o que Spinoza nega, ao afirmar tal identidade, é um Deus onisciente e onipotente que age com vistas a um fim -visão que, segundo ele, seria a da religião supersticiosa, fundada no medo e na esperança irracionais. Na filosofia spinoziana, o real como um todo pode ser conhecido pelo intelecto humano, e é a ignorância que leva o homem a forjar a imagem de um Deus supremo e todo-poderoso.

Além disso, a liberdade do homem não está em seu livre-arbítrio, mas em fazer parte da natureza, sendo capaz de agir e pensar por si. "Spinoza, assim como Giordano Bruno e Montaigne, Descartes ou Leibniz, é um pensador que volta a estabelecer a importância e a necessidade da filosofia e da liberdade de pensar, ajudando a criação do mundo moderno, ao separar o que diz respeito à crença e à fé daquilo que a razão é capaz de perceber e formular. Em resumo, ao declarar que a verdade é uma busca honesta, uma livre inquirição, não um dogma religioso", complementa Newton Cunha.

"Somos parte de um todo, e não um ser especial, e só a nós cabe construir uma vida em comum, para além e mesmo contra os impulsos e os afetos inevitáveis da natureza, âmbito no qual não há nem o bem nem o mal. A maior alegria do homem é o conhecimento que ele constrói", conclui o tradutor.



* ÚRSULA PASSOS, 27, é redatora da "Ilustríssima".

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Mulher de Tolstói ganha voz própria


Por William Grimes
Do Nem York Times

Durante seu longo e muitas vezes turbulento casamento com Lev Tolstói, Sophia Andreevna Tolstói suportou muita coisa, mas "Sonata a Kreutzer" foi um castigo incomum.

Publicada em 1889, a história apresentou a visão cada vez mais radical de Tolstói sobre as relações sexuais e o casamento, por meio de um monólogo frenético feito por um narrador que assassinou sua esposa num acesso de ciúmes e nojo.

Em seu diário, Sophia escreveu: "Não sei como ou por que razão todo o mundo ligou 'Sonata a Kreutzer' a nossa própria vida de casados, mas foi o que aconteceu". Escreveu também: "Também eu sei em meu íntimo que esta história é voltada contra mim e que me fez uma injustiça enorme, me humilhou aos olhos do mundo e destruiu os últimos vestígios de amor entre nós."

Sophia apresentou seus próprios pontos de vista em duas novelas, "Whose Fault?" (de quem é a culpa?) e "Song Without Words" (canção sem palavras), que ficaram esquecidas nos arquivos do Museu Tolstói até sua publicação recente na Rússia. Michael R. Katz, professor aposentado de estudos da Rússia e Europa do Leste no Middlebury College, no Vermont, incluiu as histórias em "The Kreutzer Sonata Variations" (variações da sonata a Kreutzer), ampliando assim uma onda de trabalhos recentes que avaliam a esposa de Tolstói como figura merecedora de atenção por suas próprias qualidades.

"Ao ler essas novelas, minha primeira reação foi de assombro porque existiam e ninguém sabia delas", disse Katz. "Minha segunda reação foi pensar: 'Não são más histórias. Podem não ser literatura de primeiro nível, mas vieram de uma mulher instruída, culta, pensativa."

"Whose Fault?" conta a história de Anna, 18 anos, bem nascida e educada, que visualiza o casamento como a união de duas mentes, almas gêmeas compartilhando o amor pela filosofia e as artes, desfrutando juntas as mesmas atividades de lazer e dedicando-se a seus filhos.

As queixas arroladas pelo narrador de Tolstói são rebatidas na narrativa tristonha de sua mulher sobre decepção amorosa, a incompatibilidade entre o desejo sexual masculino e a sede feminina de satisfação emocional, as diferentes expectativas e imposições do parto e criação dos filhos.

"Song Without Words" explora a fronteira maleável entre a atração intelectual e sexual. A história apresenta uma versão mal disfarçada da amizade intensa de Sophia com o compositor Sergei Taneyev.

A atmosfera de conflito e desilusão que permeia as histórias reflete com precisão o casamento dos Tolstói, especialmente nos anos depois de o escritor passar por uma crise espiritual e criar uma vertente idiossincrática do cristianismo.

Essa fé reencontrada o mergulhou em contradições que dificultaram sua vida e a de sua mulher até sua morte, em 1910. Tolstói foi um rico latifundiário que via a propriedade privada como imoral, um igualitarista cercado por empregados, um artista que rejeitava quase toda a arte, vendo-a como nociva, um defensor do celibato que teve 13 filhos e continuou sexualmente ativo até depois dos 80 anos de idade.

Katz traduziu as novelas ao inglês e acrescentou materiais que lançam luz sobre o furor desencadeado por "Kreutzer" e extratos das cartas de Sophia, de seus diários e de sua autobiografia, "My Life" (minha vida), outro trabalho que passou várias décadas juntando poeira.

Nos últimos anos de vida de Tolstói, e até muito tempo depois de sua morte, seus discípulos retrataram Sophia como vilã, a megera que fez o possível para manter o escritor afastado de seu trabalho. Surpreendentemente, foi Sophia quem saiu em defesa de Tolstói quando "Sonata a Kreutzer" enfrentou dificuldades com a censura. Como curadora da obra literária de seu marido, ela viajou a São Petersburgo em 1891 para defender a causa da novela diante do czar Alexandre.

Usando de charme e sofismas, argumentou que "Sonata a Kreutzer" defendia a pureza sexual, que certamente era uma coisa boa. Ademais, acrescentou, um favor do czar poderia encorajar seu marido a voltar a escrever obras como "Anna Kariênina".

"Isso seria tão bom!", respondeu o czar. A proibição foi revogada.