terça-feira, 8 de outubro de 2013

Devo educar meus filhos para serem éticos?

HANNAH ARENDT -  “Os maiores males não se devem àquele que tem de confrontar-se consigo mesmo. Os maiores malfeitores são aqueles que não se lembram porque nunca pensaram na questão”      
 HANNAH ARENDT -  “Os maiores males não se devem àquele que tem de confrontar-se consigo mesmo. Os maiores malfeitores são aqueles que não se lembram porque nunca pensaram na questão”


Por Gustavo Ioschpe
Do Observe Bem


Quando eu tinha uns 8 ou 9 anos, saía de casa para a escola numa manhã fria do inverno gaúcho. Chegando à portaria, meu pai interfonou, perguntando se eu estava levando um agasalho. Disse que sim. Ele me perguntou qual. “O moletom amarelo, da Zugos”, respondi. Era mentira. Não estava levando agasalho nenhum, mas estava com pressa, não queria me atrasar.

Voltei do colégio e fui ao armário procurar o tal moletom. Não estava lá, nem em nenhum lugar da casa. Gelei. À noite, meu pai chegou em casa de cara amarrada. Ao me ver, tirou da pasta de trabalho o moletom. E me disse: “Eu não me importo que tu não te agasalhes. Mas, nesta casa, nesta família, ninguém mente. Ponto. Tá claro?”. Sim, claríssimo. Esse foi apenas um episódio mais memorável de algo que foi o leitmotiv da minha formação familiar. Meu pai era um obcecado por retidão, palavra, ética, pontualidade, honestidade, código de conduta, escala de valores, menschkeit (firmeza de caráter, decência fundamental, em iídiche) e outros termos que eram repetitiva e exaustivamente martelados na minha cabeça. Deu certo. Quer dizer, não sei. No Brasil atual, eu me sinto deslocado.

Até hoje chego pontualmente aos meus compromissos, e na maioria das vezes fico esperando por interlocutores que se atrasam e nem se desculpam (quinze minutos parece constituir uma “margem de erro” tolerável). Até hoje acredito quando um prestador de serviço promete entregar o trabalho em uma data, apenas para ficar exasperado pelo seu atraso, “veja bem”, “imprevistos acontecem” etc. Fico revoltado sempre que pego um táxi em cidade que não conheço e o motorista tenta me roubar. Detesto os colegas de trabalho que fazem corpo mole, que arranjam um jeitinho de fazer menos que o devido. Tenho cada vez menos visitado escolas públicas, porque não suporto mais ver professores e diretores tratando alunos como estorvos que devem ser controlados. Isso sem falar nas quase úlceras que me surgem ao ler o noticiário e saber que entre os governantes viceja um grupo de imorais que roubam com criatividade e desfaçatez.

Sócrates, via Platão (A República, Livro IX), defende que o homem que pratica o mal é o mais infeliz e escravizado de todos, pois está em conflito interno, em desarmonia consigo mesmo, perenemente acossado e paralisado por medos, remorsos e apetites incontroláveis, tendo uma existência desprezível, para sempre amarrado a alguém (sua própria consciência!) onisciente que o condena. Com o devido respeito ao filósofo de Atenas, nesse caso acredito que ele foi excessivamente otimista. Hannah Arendt me parece ter chegado mais perto da compreensão da perversidade humana ao notar, nos ensaios reunidos no livro Responsabilidade e Julgamento, que esse desconforto interior do “pecador” pressupõe um diálogo interno, de cada pessoa com a sua consciência, que na verdade não ocorre com a frequência desejada por Sócrates. Escreve ela: “Tenho certeza de que os maiores males que conhecemos não se devem àquele que tem de confrontar-se consigo mesmo de novo, e cuja maldição é não poder esquecer. Os maiores malfeitores são aqueles que não se lembram porque nunca pensaram na questão”. E, para aqueles que cometem o mal em uma escala menor e o confrontam, Arendt relembra Kant, que sabia que “o desprezo por si próprio, ou melhor, o medo de ter de desprezar a si próprio, muitas vezes não funcionava, e a sua explicação era que o homem pode mentir para si mesmo”. Todo corrupto ou sonegador tem uma explicação, uma lógica para os seus atos, algo que justifique o porquê de uma determinada lei dever se aplicar a todos, sempre, mas não a ele(a), ou pelo menos não naquele momento em que está cometendo o seu delito.

Cai por terra, assim, um dos poucos consolos das pessoas honestas: “Ah, mas pelo menos eu durmo tranquilo”. Os escroques também! Se eles tivessem dramas de consciência, se travassem um diálogo verdadeiro consigo e seu travesseiro, ou não teriam optado por sua “carreira” ou já teriam se suicidado. Esse diálogo consigo mesmo é fruto do que Freud chamou de superego: seguimos um comportamento moral porque ele nos foi inculcado por nossos pais, e renegá-lo seria correr o risco da perda do amor paterno.

Na minha visão, só existem, assim, dois cenários em que é objetivamente melhor ser ético do que não. O primeiro é se você é uma pessoa religiosa e acredita que os pecados deste mundo serão punidos no próximo. Não é o meu caso. O segundo é se você vive em uma sociedade ética em que os desvios de comportamento são punidos pela coletividade, quer na forma de sanções penais, quer na forma do ostracismo social. O que não é o caso do Brasil. Não se sabe se De Gaulle disse ou não a frase, mas ela é verdadeira: o Brasil não é um país sério.

Assim é que, criando filhos brasileiros morando no Brasil, estou às voltas com um deprimente dilema. Acredito que o papel de um pai é preparar o seu filho para a vida. Essa é a nossa responsabilidade: dar a nossos filhos os instrumentos para que naveguem, com segurança e destreza, pelas dificuldades do mundo real. E acredito que a ética e a honestidade são valores axiomáticos, inquestionáveis. Eis aí o dilema: será que o melhor que poderia fazer para preparar meus filhos para viver no Brasil seria não aprisioná-los na cela da consciência, do diálogo consigo mesmos, da preocupação com a integridade? Tenho certeza de que nunca chegaria a ponto de incentivá-los a serem escroques, mas poderia, como pai, simplesmente ser mais omisso quanto a essas questões. Tolerar algumas mentiras, não me importar com atrasos, não insistir para que não colem na escola, não instruir para que devolvam o troco recebido a mais...

Tenho pensado bastante sobre isso ultimamente. Simplesmente o fato de pensar a respeito, e de viver em um país em que existe um dilema entre o ensino da ética e o bom exercício da paternidade, já é causa para tristeza. Em última análise, decidi dar a meus filhos a mesma educação que recebi de meu pai. Não porque ache que eles serão mais felizes assim - pelo contrário -, nem porque acredite que, no fim, o bem compensa. Mas sim porque, em primeiro lugar, não conseguiria conviver comigo mesmo, e com a memória de meu pai, se criasse meus filhos para serem pessoas do tipo que ele me ensinou a desprezar. E, segundo, tentando um esboço de resposta mais lógica, porque sociedades e culturas mudam. Muitos dos países hoje desenvolvidos e honestos eram antros de corrupção e sordidez 100 anos atrás. Um dia o Brasil há de seguir o mesmo caminho, e aí a retidão que espero inculcar em meus filhos (e meus filhos em seus filhos) há de ser uma vantagem, e não um fardo. Oxalá.


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Quer trocar de vida?

 
Por Camila Alam
Da Revista Trip


Quando resolveu mudar para Nova York, em 2007, o designer brasileiro Diego Zambrano queria levar com ele só o essencial. Pensou então em oferecer móveis, livros e eletrodomésticos no Flickr, a rede social que usava na época, e mandar o link para os amigos. Em pouco tempo, se desfez de quase tudo, vendendo baratinho ou doando aos interessados. Assim nasceu a ideia para o Bondsy, aplicativo que criou e que ajuda a encontrar gente interessada em trocar tudo por tudo: roupas, objetos, eletrônicos, comida, ingressos, serviços. No ar desde o ano passado, a “rede social de coisas” foi encampada pela Tech Stars, uma das maiores incubadoras de novos negócios on-line dos Estados Unidos. Mais do que fenômeno isolado, é uma entre as muitas iniciativas de consumo colaborativo que estão transformando nossa relação com o que possuímos.
“Possuir”, aliás, talvez já não seja a melhor definição. O objetivo essencial do consumo colaborativo, que a revista Time elegeu como uma das dez ideias que vão mudar o mundo, é promover formas menos comerciais e mais sustentáveis de troca, como o escambo, o empréstimo, a locação e a doação. Uma das entusiastas da bandeira, a pesquisadora australiana Rachel Botsman, coautora do livro O que é meu é seu (ed. Bookman), acredita que, nos próximos anos, deixaremos cada vez mais de ser os donos exclusivos das coisas, e passaremos a compartilhá-las. O acesso a produtos e serviços, acredita, se tornará mais importante do que a propriedade. Estaríamos nos distanciando da era do hiperconsumo, na qual o sucesso é medido pela quantidade de posses, para entrar na era do bem-estar, que dá mais valor à experiência.
Talvez você já faça parte dessa onda. Quando, por exemplo, ao planejar as férias, acessa sites como Couchsurfing, que conecta gente a fim de hospedar e de ser hospedada no mundo inteiro, operando na base da troca. Ou entra no aplicativo Karona para ver se alguém da sua cidade está indo de carro para a mesma balada que você. Facilitadores do compartilhamento, esses mecanismos dão a mais gente, por pouco ou nenhum dinheiro, acesso a algo que elas nem sabiam que estava disponível. A tecnologia tem papel essencial nesse cenário: a rede é a ponte entre quem oferece e quem precisa. Mas, para além dela, a valorização do sustentável é cada vez mais presente. “A ideia é que, em vez de termos coisas que só usamos eventualmente, possamos usufruir delas quando precisamos”, explica a australiana Lauren Anderson, sócia do Collaborative Lab, escritório de consultoria voltado para consumo colaborativo. “Estamos percebendo que o verdadeiro valor vem das experiências que temos ao usar algo. Uma prancha de surf só é útil quando estamos sobre as ondas. Então é melhor alugá-la por um dia do que mantê-la numa garagem acumulando poeira”, diz.
A jornalista e empresária paulistana de internet Diana Botello, 30 anos, descobriu a colaboração nos dois anos em que viveu fora do país. De volta ao Brasil, começou a usar o Bondsy para se desfazer de alguns objetos depois de um divórcio e não parou mais. Entre muitas outras coisas, aceitou uma garrafa de vinho em troca de uma tábua de passar roupa que não usava mais, e acabou ganhando um amigo. “O cara veio buscar a tábua e depois me mandou uma mensagem de agradecimento, dizendo que graças à visita pôde voltar ao bairro em que morou e reviver outra fase da vida dele. Pode parecer cafona o que vou dizer, mas compartilhar faz bem. Você passa a dar menos importância a coisas e mais a processos”, ela diz.

A tábua e o vinho

O movimento de compartilhar, doar ou trocar se opõe ao “compro, logo existo”, que imperou nas últimas décadas. E se alinha aos esforços de preservar recursos naturais e reduzir lixo. “Os efeitos negativos do consumo excessivo vão além do estresse financeiro e impactam o ambiente”, diz Lauren Anderson. A pesquisa Rumo à Sociedade do Bem-estar (2012), do Instituto Akatu para o Consumo Consciente, mostra que o brasileiro já se preocupa com sustentabilidade ao comprar, observando, por exemplo, se o fornecedor de um serviço ou produto tem selo de proteção ambiental. “As pessoas estão preocupadas com o impacto que seu consumo causa no outro, no ambiente, na comunidade”, diz Helio Mattar, diretor do Akatu.
Se a consciência ambiental predispõe a formas mais colaborativas de consumo, a pressão cultural pelo consumo, porém, permanece. Consumir é uma necessidade social; posses refletem status, tornam-se extensão da identidade. O psiquiatra Hermano Tavares vai mais fundo na alma humana para achar as raízes do consumismo. Para ele, consumir é “uma elaboração mais sofisticada de impulsos primitivos de coleta de recursos”. O que diferencia a atitude do consumista da do novo consumidor é a maneira de lidar com esses impulsos. “Na visão do filósofo francês Gilles Lipovetsky, a felicidade trazida por uma compra é efêmera, diferente daquilo que é experimentado, vivido”, lembra a analista de tendências Carol Althaller.
“O consumidor mais consciente troca o ‘ter’ pelo ‘viver’. Ele enaltece a experiência e, por isso, não perde tempo acumulando objetos que demandam cuidado”, diz.

Ligação direta

Morando em Los Angeles há cinco anos, o empresário Marcelo Loureiro investiu em um negócio de compartilhamento de bicicletas, o site e aplicativo Spinlister. Os usuários cadastram suas magrelas para alugá-las pelo preço que acharem justo. Quem precisa de uma bike faz a busca por cidade. O serviço começou voltado para o público americano mas se espalhou pelo mundo, conforme usuários de outros países foram se cadastrando. Sem nenhum esforço de marketing ou divulgação, aluga cerca de 40 bicicletas por mês. “Meu negócio é conectar pessoas”, diz Marcelo. “A transação monetária é um benefício secundário. O que as pessoas querem é fazer parte de uma comunidade. Às vezes, usando o serviço, compartilham dicas da cidade ou arranjam alguém pra andar de bike com elas.”
Para Marcelo, os negócios gerados a partir da ideia de consumo colaborativo fomentam uma economia mais orgânica. “O modelo econômico das últimas décadas foi baseado em compra e venda de produtos e serviços, por meio de um distribuidor. Com a tecnologia, as pessoas têm mais possibilidade de escolher de quem querem comprar e quanto querem pagar”, diz. E se querem pagar, já que muitas transações dispensam o dinheiro.
O estudante de desenho industrial Plínio Calil, 27 anos, que já trocou seus serviços de marceneiro por uma jaqueta, aposta em uma experiência colaborativa mais abrangente: a casa Madalena 80. O imóvel na Vila Madalena, em São Paulo, começou como espaço de coworking e hoje é alugado e administrado por cerca de 30 pessoas. A (única) regra é clara: quem ajuda no aluguel tem a chave e pode usar a casa como preferir, desde que não haja conflito de interesses. “É um espaço de livre interação”, diz Plínio. Os “donos”, gente de 25 a 50 anos, das mais diversas profissões – publicitários, economistas, arquitetos –, usam o lugar para trabalho, festas, encontros, bazares, oficinas. Por meio de um grupo no Facebook, resolvem problemas, programam a agenda e discutem reformas. “É autogestão, não existe hierarquia”, explica Plínio.
Grande e bem cuidada, a casa custa caro; entre aluguel, contas, internet e manutenção, cerca de R$ 7.500 por mês. Além de espaço de convivência, está se tornando o embrião de um fórum para discutir novas relações de consumo, parceria e trabalho. “O consumo colaborativo nada mais é que uma faceta da sociedade organizada em rede. A partir da internet, mudamos a forma de interagir, de um padrão mais centralizado para outro mais distribuído, que não depende de ninguém”, diz o empresário Oswaldo Oliveira, especialista em construir negócios em rede e um dos idealizadores da casa. “Não é que a sociedade vai mudar. A mudança é a própria organização em rede. O resto é expressão disso.”
As expressões dessa possibilidade são muitas: além de novas formas de consumo, a rede pode ajudar a unir pessoas em torno de objetivos políticos e educacionais. A administradora Camila Haddad, 26 anos, criou ano passado o Cinese, plataforma de crowdlearning ou educação colaborativa. Qualquer um pode se cadastrar no site e oferecer uma atividade ligada a sua área de expertise ou interesse: um workshop de culinária, uma ida comentada ao teatro, ideias sobre como planejar um mochilão. Quem tiver interesse paga a quantia sugerida (a partir de R$ 10) e o encontro é armado. Desde o ano passado, já foram quase 200 encontros e 3.200 pessoas cadastradas. “Brinco que sou a usuária mais fiel do Cinese. Tenho aprendido e ensinado muita coisa bacana, de forma livre e horizontal”, diz Camila.
Desde antes do Cinese, ela já era usuária assídua de plataformas de consumo colaborativo. “Uso o Freecycle para doar e receber usados, o Skoob para trocar livros e o Couchsurfing quando viajo e para receber viajantes no sofá da minha casa”, conta. Frequentadora de feiras de troca de objetos, acha que o modelo baseado na colaboração, além de uma forma eficiente de utilizar recursos, gera gratificação. “Comprar é sempre minha última opção. Não porque é o mais correto, mas porque é menos gratificante. Comprar algo novo é divertido por muito pouco tempo, mas, quando você troca algo com alguém, por trás daquele objeto já existe uma história, e naquele ato se forma uma relação, ainda que passageira.”

Aprendizado horizontal

Por que a maior parte dessas iniciativas nasce nos grandes centros? Porque o modelo consumista impacta sobretudo quem vive neles, acredita. “Há nas cidades uma forte sensação de isolamento e desconexão, e as pessoas estão cada vez mais incomodadas com isso”, diz Camila. “Essas novas plataformas têm o potencial de redefinir o conceito de vizinhança e comunidade. Permitem criar conexões on-line que têm resultados significativos no mundo real, encorajando as pessoas a se conhecer e criar redes de apoio mútuo.” São os grandes centros que sofrem primeiro com os grandes problemas modernos, como a estafa consumista.
“As cidades são lugares do consumo. É natural que seus moradores se conscientizem de que a coisa está chegando ao limite antes dos outros”, diz o jornalista e escritor Leão Serva, autor do guia Como viver em São Paulo sem carro (ed. Neotropica). Se o sonho de viver no campo é hoje uma ideia quase abstrata, nos resta transformar o cotidiano. “Há algo ecoando nesse momento em que as pessoas abdicam de seu próprio poder de consumo para exercer o poder de não consumir. Cidadania tem muito a ver com isso”, acredita ele. Rachel Botsman concorda: “O consumo colaborativo permite que as pessoas, além de perceber os benefícios do acesso sobre a propriedade, economizem dinheiro, espaço e tempo, façam novos amigos e se tornem cidadãs ativas novamente”.


sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Philip Roth: "A cultura literária acabará em 20 anos"


Por Luís Antônio Giron
Da revista Época

O edifício Austin, com seus 20 andares, fica a um quarteirão do museu de História Natural de Nova York. O porteiro indica o elevador que leva ao 12° andar. Ali, à porta de um apartamento despojado, com vista para a região plana e repleta de prédios do Upper West Side de Manhattan, uma criatura mitológica dá boas-vindas. “Entre, por favor!”, diz Philip Roth, sorrindo. Ele é mais simpático do que se esperaria do criador de personagens beligerantes, frequentemente à beira do desvario. Tampouco lembra o fauno lúbrico descrito pelas feministas. Magro, alto e em forma, Roth tampouco parece um verbete da enciclopédia do romance. Aos 80 anos, 54 de carreira, ele é tido por críticos respeitados como o maior escritor vivo e figura há décadas na lista de possíveis ganhadores do Prêmio Nobel. É o único autor vivo a merecer a edição de suas obras na editora The Library of America, dedicada a escritores consagrados. Roth chegou a declarar que não escreveria mais. Nesta entrevista, no entanto, diz por que mudou de ideia e já está pensando numa novela em um gênero que jamais praticou: o fantástico. 

ÉPOCA – Não há nenhum computador nesta sala. O que o senhor pensa sobre os avanços tecnológicos como tablets e e-readers? Eles melhoram a compreensão do mundo?
Philip Roth – Não sou fanático por tecnologia. Tenho o mesmo telefone celular há anos e não pretendo trocá-lo. Escrevo em computador, como fiz antes com a máquina de escrever. É óbvio que as máquinas facilitam a finalização de um texto. Só que as coisas estão se transformando muito rapidamente para meu gosto. Não consigo achar graça em ler livros em formato eletrônico em e-reader. Outro dia passei numa loja Apple com a forte disposição de comprar um iPad. Cheguei lá, vi tanta gente se acotovelando para ver como funcionava o aparelho e cheguei a testá-lo. Acabei desistindo. Não sei por que, mas o iPad não me convenceu, talvez porque pareça chato escrever nele, e ler nele é dispersivo. Quem vai conseguir ler um livro inteiro meu naquele tablet? É mais um totem do culto à tecnologia. Hoje, toda a cultura se encontra a nossa disposição. E isso me preocupa. A cultura literária como conhecemos vai acabar em 20 anos. Ela já está agonizando. Obras de ficção não despertam mais interesse nos jovens, e tenho a impressão de que não são mais lidas. Hoje, a atenção é voltada para o mais novo celular, o mais novo tablet. Daqui a poucas décadas, a relação do público e do escritor com a cultura será muito diferente. Não sei como será, mas os livros em papel vão acabar. Surgirá outro tipo de literatura, com recursos audiovisuais e o que mais inventarem.

Sua trajetória foi ascendente, de um autor quase maldito de O complexo de Portnoy, de 1969 – que era lido pelos meninos como eu como uma iniciação aos segredos do sexo –, ao mestre canonizado dos romances filosóficos, que tratam da velhice e da morte. O que mudou em sua vida nestes 42 anos?
Não sei, você sabe? O que terá sido? No tempo de O complexo de Portnoy, muita gente disse que eu tinha inventado a masturbação! Quanto à consagração, a vida e a atividade literária se confundem. Para mim, escrever foi sempre a prioridade. Foi um caminho natural, de juventude, amadurecimento e velhice. Talvez o mundo tenha ficado mais parecido comigo. Hoje, ninguém precisa ler meus livros atrás de nenhuma técnica sexual! (risos)

O senhor tem milhares de fãs jovens no Brasil, obviamente não mais por causa dos métodos de masturbação de Portnoy. Já pensou em visitar o país e se encontrar com seus leitores?
Já fui convidado a participar de eventos literários no Brasil. Gostaria de ir, mas recusei muitas vezes, pois na minha idade não tenho mais ânimo para viajar. Em junho, me convidaram para ir a Londres receber o Man Booker Prize. Agradeci e disse que não poderia ir. A organização gravou um vídeo com uma mensagem minha, e tudo correu muito bem. Não pretendo mais fazer viagens fora dos Estados Unidos. Aliás, minhas viagens têm sido entre minha casa de campo, em Warren, Connecticut, e Nova York. Gosto dessa rotina segura.

Que referências o senhor tem do Brasil?
Infelizmente não conheço nada do país nem de sua cultura. Nunca ouvi falar de um autor brasileiro atual. Não tenho nenhum contato por lá. Nem sei nem o nome de meu editor em São Paulo. Você sabe que li um único autor brasileiro? É a imagem que tenho do Brasil. Não me recordo do nome dele, mas é um romance irônico, de narrativa descontínua, sobre um homem morto que conta suas paixões e confusões em primeira pessoa. Adorei...

É Memórias póstumas de Brás Cubas, publicado aqui sob o título de Epitaph for a small winner. O autor é Machado de Assis.
Isso! Alguns amigos meus como (o crítico inglês) John Gledson me recomendaram a leitura, e gostei demais. Outro amigo, o crítico Harold Bloom, colocou o livro entre os maiores exemplos do cânone ocidental e chamou Machado de Assis de gênio. Como não conheço outros livros dele, não sei dizer. Ele me parece bastante influenciado por Tristram Shandy (romance do irlandês Laurence Sterne). Mas com uma abordagem menos pilhérica, mais consistente e aforística. Acho que deveria ler mais autores brasileiros. Ler é o que mais gosto de fazer, além de ouvir música e nadar.

O que o senhor tem lido ultimamente?
Estou num momento da vida em que ler significa reler. Permaneço no século XVIII!(risos) Releio clássicos. Mas, de uns meses para cá, parei de ler ficção. Leio história, sobretudo livros que tratam de meus tempos de menino, o período da Segunda Guerra Mundial, que vivi em Newark, (cidade vizinha a Nova York), onde nasci. Eu não tinha a dimensão dos fatos. Os historiadores me ajudam a entender aqueles tempos. Sou fascinado pela era Roosevelt, e há ensaios e estudos recentes sobre o período – parecido com o atual, com os problemas da recessão econômica. Um livro que me impressionou foi O jovem Stálin, de Simon Sebag Montefiore. Ele traça um perfil aterrador do futuro ditador russo. Stálin é tão mau que faz Ivan Karamázovi parecer uma criança de jardim de infância.

Seus pais eram judeus, filhos de imigrantes da Europa Central. O senhor manteve tradições como o hebraico e o ídiche e o culto a símbolos religiosos?
Não. Meus pais eram cidadãos americanos pragmáticos. Eles criaram a gente sem obrigações religiosas. Fiz meu bar mitzvah aos 13 anos, mas desde então nunca mais entrei numa sinagoga! Nunca entendi uma só palavra em hebraico que tive de recitar na ocasião e até hoje não sei o que o rabino disse naquele dia. Não sou religioso nem mantenho em casa símbolos judaicos. Os judeus americanos de minha geração não sentiram o fardo da tradição. Ser judeu em Nova York hoje é uma espécie de modo de vida cultural. Meus livros trazem personagens que carregam a tradição de forma bem mais pesada do que eu.

Muitos de seus livros se passam em Newark. Quanto de realidade contêm suas tramas?
Retirei muitos dos personagens e das situações do ambiente da Newark dos anos 1940 e 1950. Mas nem tudo em minha obra é Newark, como dizem alguns críticos. Como escritor, misturo várias referências – inclusive geográficas.

A moralidade e a mortalidade são os temas centrais de sua obra?
Em minhas histórias, a trama conduz a determinado tipo de problema moral. Os personagens caem sozinhos nas armadilhas de seus destinos. Não sou assombrado por dilemas morais nem temo a esperada vitória da morte. Mas o fato de ter perdido amigos aparece em meus livros. Há um ano morreu o mais brilhante de todos, John Updike. Perdi parentes, amores, amigos. A impressão é de que meu mundo está encolhendo. Não há como não se entristecer.

Apesar da fama de eremita, o senhor parece cercado de gente...
Sim, meus melhores amigos são colegas de profissão. Sou próximo a Joyce Carol Oates, Don DeLillo e Doctorow. Procuro manter uma vida social ativa, na medida do possível, já que decidi viver a maior parte do tempo no interior. Quando estou em Nova York, como você está vendo, todo mundo me liga para marcar encontros.

Como é seu dia a dia?
Acordo cedo, escrevo no computador, saio, converso com os vizinhos de Warren e vou nadar. Nado cinco vezes por semana: nado crawl e costas. Aqui, frequento uma piscina no centro da cidade. Nadar para mim não melhora só a musculatura. Nadar me faz pensar, me obriga a refletir sobre o que estou fazendo. Já inventei muitas histórias debaixo d’água! Depois de nadar, almoço, volto a escrever até cansar. Aí ouço música, vejo um filme e vou dormir.

Qual é seu método para criar uma história?
Não monto um esquema como alguns autores. Sou intuitivo. Começo com uma ideia e vou testando para ver se ela gera uma ação. Os personagens ganham vida, e o livro toma corpo. Minhas histórias surgem da surpresa da escrita.

Quais escritores mais o influenciaram?
Depende da idade. Aos 10 anos, lia um autor que me marcou: Thomas Wolfe. Foi um grande contador de histórias – e seus romances me ensinaram o valor da ação, da reviravolta e da veracidade dos personagens. Aos 20, fiquei fascinado pela ideia do grande romance americano. Com as obras de Theodore Dreiser e Henry James, aprendi a lidar com vários planos narrativos. Em 1953, aos 30, descobri As aventuras de Augie March, de Saul Bellow. Ele abriu o caminho para mim. Meu estilo não tem a ver com o de Bellow, seu humor é mais corrosivo. Mas ele me inspirou, pois mostrou que o mundo judaico americano podia atingir a universalidade.

Cite escritores inócuos em sua formação.
John Cheever, com seus dramas suburbanos, criou uma obra maravilhosa, fui amigo dele, conversamos muito, mas em nada me afetou. Há também Jack Kerouac. Os livros dele têm sido supervalorizados. Ele nunca passou de um narrador banal, um eterno adolescente.

Os críticos europeus denunciam o isolamento cultural da ficção americana. O senhor concorda com a análise?
Não. O que vejo é surgir um bom romance americano a cada semana. Só para mencionar meus amigos, há a Joyce Carol Oates e DeLillo. Entre os novos, Nicole Krauss tem produzido romances excelentes, como Great house. E Mollly Molloy, autora de El Sicario. A ficção americana cresce nos momentos difíceis.

O senhor anunciou que não vai mais escrever. É verdade?
Sinto desapontá-lo, mas tive de rever meu anúncio. Por sugestão de uma amiga, já estou trabalhando numa novela curta fantástica, com figuras mitológicas. É só o que tenho a dizer por enquanto. 

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

A medicalização como um anúncio da qualidade de vida


Por Graziela Wolfart
Da Revista Unisinos

“A saúde tornou-se um bem de consumo, todavia, na perspectiva da doença. É a medicalização que anuncia a qualidade de vida”. A afirmação vem do professor e psicólogo Fábio Alexandre Moraes, na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line. A seu ver, a psicopatologia nunca é do sujeito em sofrimento, ela é do profissional que escuta. “Inventamos a psicopatologia tanto quanto inventamos a ideia de um determinado sujeito que a porta. Mas se vamos parar para efetivamente ouvi-lo (o seu discurso), e se ele ainda não estiver capturado pelo discurso do profissional, que circula por outros espaços, como na mídia, por exemplo, vamos perceber que distância essas coisas tomam”. Para Fábio, “formas de adoecimento e psicopatologia nada mais são do que discursos, e hoje, discursos do mercado, discursos da saúde como mercadoria”. No fundo, continua, “acalentamos o desejo da vida eterna e, principalmente, evitar o sofrimento e, como diria Freud, o mal-estar”.

Fábio Alexandre Moraes é psicólogo graduado pela Unisinos e especialista em Saúde Mental, pela Escola de Saúde Pública do Rio Grande do Sul, e em Psicologia Clínica. Cursou mestrado em Psicologia Social e Institucional na Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS com a dissertação Abrindo a porta da casa dos loucos (ou: para ativar a potência dos fluxos). Atualmente leciona na Unisinos e atua na área de saúde mental na Prefeitura Municipal de Novo Hamburgo.

Confira a entrevista

Na última entrevista que nos concedeu, o senhor afirmou que “a sociedade capitalista e seu modelo de trabalho criam as condições para a doença mental”. Qual a contribuição que a mesma sociedade capitalista oferece ao processo de medicalização da saúde, principalmente pensando na saúde mental?


Fábio Alexandre Moraes – Antes de responder, gostaria de frisar que o meu ponto de vista é crítico. O que não significa dizer que desvalorizo os avanços tecnológicos. Nem me coloco na insustentável resistência a eles. Entretanto, uma passiva aceitação do que o contemporâneo nos impõe, porque é “melhor” ou porque significaria “progresso”, não me agrada. É da índole do institucionalismo, perspectiva que tomo para respondê-la, desnaturalizar o que aos olhos da maioria seria natural, como nos ensina Gregório Baremblitt. Dito isso, vamos à resposta da pergunta. Penso que existe uma relação direta. Afinal, como me referi na entrevista anterior, a sociedade contemporânea, organizada como está, cria as condições para o sofrimento ou, como aponta o psicanalista Benilton Bezerra, produz novas formas de sofrimento. Logo, nada mais óbvio que também surgissem as condições para a produção das tecnologias que vão dar conta dessas patologias.

Criar a doença e o tratamento é uma invenção genial para uma sociedade que se sustenta na contínua produção de novas necessidades, que rapidamente entrarão no circuito do consumo. Nada mais propício para o consumo e ampliação dos lucros. Você já observou como funcionam os “representantes dos laboratórios” na abordagem dos médicos? Com bastante frequência os vemos nas salas de espera dos consultórios e, mesmo sem permissão, nas unidades de saúde pública. Todos vestidos de forma muito parecida, sóbrios como recomenda a situação, com suas malas grandes e pretas, tendo no seu interior as últimas novidades da indústria farmacêutica. Intuímos que não são os médicos que, através das boas práticas clínicas e dos seus criteriosos estudos dos últimos artigos científicos, solicitam, mediante necessidades técnicas, os novos medicamentos. Esses representantes anunciam quais são os melhores remédios, os “de última geração”, explicam de forma objetiva os efeitos colaterais e, mesmo o médico dizendo que precisaria buscar informações mais criteriosas, rapidamente se vê diante de uma dezena de “amostras grátis” e, quem sabe, um convite para um seminário em Salvador, com as despesas pagas. Pronto! Quem resiste experimentar as novas maravilhas farmacológicas? E, mais adiante, a insistência, agora dos médicos, para incluir essas novas “descobertas” na lista do Rename (Relação Nacional de Medicamentos Essenciais). Assim, a “novidade” passa a ser um “direito” do usuário-consumidor, que será paga com dinheiro público, obviamente. Tudo isso, até sabermos que aquela medicação não era tão boa assim, nem os estudos foram tão conclusivos. Agora, neste exato momento que conversamos, já tem outra medicação sendo apresentada pelos “representantes”, com suas malas milagrosas. O milagre mesmo, com certeza, é o lucro estratosférico dos laboratórios.

Então, pergunto como não haveria uma relação direta (contribuição) entre produção de doença, de terapêuticas e o capitalismo? É a mesma lógica, válida para qualquer outro produto. A saúde tornou-se um bem de consumo, todavia, na perspectiva da doença. É a medicalização que anuncia a qualidade de vida.

Penso que no campo da saúde mental esta questão fica mais evidenciada. Há muito tempo que a psiquiatria, como instituição (necessariamente não me refiro aos psiquiatras, considerando que muitos compartilham dessas críticas), buscava o seu ingresso na medicina. Pode parecer estranho dizer isto, mas a psiquiatria foi a “filha enjeitada” da medicina, mesmo se considerarmos que ela sempre tomou a dianteira na organização da medicina como área de conhecimento, ou seja, no seu processo de institucionalização. Talvez até por isso mesmo, sem a “base científica”, que fosse se ocupar da institucionalização das práticas médicas. Esses argumentos podem ser encontrados nas análises de Foucault  e em Jurandir Freire Costa, quando fala da psiquiatria brasileira. Assim, no momento em que temos um “boom” das neurociências e da psiquiatria biológica, a psiquiatria sente-se à vontade para abandonar a psicanálise, a fenomenologia e outras linhas teóricas e práticas que a sustentavam. Agora, ela faz parte da medicina. Têm instrumentos de avaliação e, o mais importante, um cabedal de medicações que lhe dão o status necessário para ser tomada como prática médica, exclusivamente médica. Agora, a psiquiatria também pode receber os “representantes e suas malas”, para o comércio da doença, dos diagnósticos e das terapêuticas. Há tempo, como diz um psiquiatra que conheço, não precisamos mais conversar tanto. Ouvem-se as queixas, organizamos os sintomas, etiquetamos e prescrevemos.


Qual o papel da sociedade capitalista em desenvolver as formas de adoecimento e as possibilidades de reconhecimento através da psicopatologia?

Não conseguiria seguir por outro caminho que não por aquele que abri na resposta anterior. Ou seja, manter a análise na perspectiva institucionalista. Para tanto, demarco duas dimensões institucionais absolutamente atravessadas uma na outra. Visando maior clareza, vou transformá-las em questões: 1ª) Como compreendemos o adoecimento? 2ª) Como cristalizamos todas as possibilidades de compreendê-lo num conhecimento instituído como válido? Pense na transformação que Freud  operou quando deixou de procurar as causas do adoecimento no cadáver, ou compreender a doença, e passou a ouvir o sujeito vivo, ouvir sua história. Este movimento produziu outra maneira de se pensar a doença, o doente e as condições determinantes. É assim que compreendo e tento responder a questão: há condições objetivas, históricas, sociais e econômicas que nos dão as possibilidades de determinadas leituras, inclusive sobre o que compreendemos por psicopatologia. A psicopatologia nunca é do sujeito em sofrimento, ela é do profissional que escuta. Inventamos a psicopatologia tanto quanto inventamos a ideia de um determinado sujeito que a porta. Mas se vamos parar para efetivamente ouvi-lo (o seu discurso), e se ele ainda não estiver capturado pelo discurso do profissional, que circula por outros espaços, como na mídia, por exemplo, vamos perceber que distância essas coisas tomam.

Então, uma ideia me ocorre para sintetizar a resposta, e não é original, porque vem da tradição foucaultiana, quando nos ensina que “cada formação histórica vê e faz ver em função de suas condições de visibilidade, da mesma forma que ela diz tudo o que ela pode, em função de suas condições de enunciação”. Concluindo, “formas de adoecimento” e “psicopatologia” nada mais são do que discursos, e hoje, discursos do mercado, discursos da saúde como mercadoria.


Quais são os distúrbios físicos e mentais provocados pelo trabalho que são mais comuns de serem tratados com medicamentos?

Infelizmente todos acabam sendo medicados, ou medicalizados. Qual a diferença? No primeiro caso trata-se do médico prescrevendo objetivamente uma medicação; no segundo, são todas as outras tecnologias, incluindo as tecnologias leves (relacionais), como diria Merhy, que também pode assumir a função individualizante dos medicamentos. Como? Bem, se o trabalho adoece, a mudança deveria ocorrer neste nível, o da organização ou dos processos de trabalho. Tratando o trabalhador e não o processo, estamos medicalizando as relações de trabalho. Percebe que nem precisa ser médico, basta olharmos para o “problema” e isolarmos ele das suas causas e contexto. Quantas vezes fazemos a pergunta, ao identificar significativos índices de adoecimento pelo trabalho: que condições estarão produzindo isto? Normalmente olhamos em direção do trabalhador e identificamos nele a desadaptação ou mesmo a “fraqueza”. Em seguida, demissão. Raramente vemos o processo de trabalho, a não ser quando é para aperfeiçoá-lo em direção ao aumento da produtividade. O sujeito raramente é a questão.


Qual sua opinião sobre o uso abusivo de psicofármacos contra os mal-estares da cultura contemporânea, aqui citando a busca de longevidade e a redução/controle dos processos de envelhecimento?


Coincidentemente estou orientando um trabalho de conclusão de curso que trata deste tema. O título do trabalho é “Modos de envelhecer no contemporâneo”. Como o título indica, a proposta do trabalho foi a de cartografar os atuais modos de envelhecer, tentando localizar os movimentos instituintes, ou seja, onde é possível identificar a potência do velho, pela diferença, e não a resposta pronta que vai ao encontro das exigências como se jovem fosse. O texto da aluna procura fazer isto desde os eufemismos que muitas vezes impedem a velhice de se colocar como velhice, seja pela “terceira idade”, “melhor idade”, “idoso” ou mesmo a simples negação de que há um momento da vida em que temos que lidar com questões difíceis para o sujeito humano contemporâneo, que são o horror ao declínio físico, a doença e ao ter que se deparar com a morte. Então observamos, mais uma vez, a tecnologia anunciando os seus milagres, seja pela via da medicação (Viagra seria um bom exemplo), pela indústria da beleza ou das tecnologias que prometem o prolongamento da vida, através de intervenções cada vez mais sofisticadas. No fundo, acalentamos o desejo da vida eterna e, principalmente, evitar o sofrimento e, como diria Freud, o mal-estar. Entretanto, o mesmo Freud nos alertou: o mal-estar é constitutivo do ser humano, o que podemos fazer é a sua gestão.

Que relações podemos estabelecer entre a medicalização e a ideia de “felicidade” transmitida pela sociedade do consumo?

A primeira ideia que me ocorre é justamente a que se origina da questão anterior. A sociedade de consumo nos promete a felicidade. Algum tempo atrás tive o trabalho de identificar e depois recortar para a confecção de um painel (que utilizo em aula) todas as matérias publicadas num intervalo de seis meses, numa única revista de tiragem nacional, sobre os avanços no campo da saúde, trabalho, lazer e beleza; considerando que esses campos têm afinidades e muitas vezes se confundem. Fiquei impressionado e destaco duas questões que sintetizam o meu espanto: 1) em todas as semanas foram anunciados avanços tecnológicos que prometiam a total felicidade humana, subjugando a dor, a impotência e a infelicidade; 2) por envolver tecnologia e patentes, teremos que, num futuro próximo, pagar para que alguém nos forneça o produto ou o serviço prometido. Cada vez mais somos livres, entretanto, como nos ajuda a pensar Bezerra, mais uma vez, somos dependentes não mais do sacerdote, dos pais, da sabedoria dos avôs, mas dos especialistas. Delegamos poder para quem não conhecemos, para tecnologias e pesquisas que não temos a menor noção de quais os interesses que estão em jogo. A maioria acredita que é para a “felicidade humana e o progresso da civilização”. Penso que nós não temos o direito de ter tamanha ingenuidade.
 

Gostaria de acrescentar mais algum comentário sobre o tema?

Para terminar, só vou fazer uma pequena referência a um fato ocorrido recentemente e que me parece um excelente analisador do que vimos discutindo. Chamaria, como a própria mídia vem fazendo, o caso Angelina Jolie. Quando fiz aquele levantamento das matérias publicadas às quais me referi acima, este assunto foi tratado. Lembro que a matéria, trazida de uma publicação americana, levava o título de “Decisão Radical”. Também lembro que, ao ver isto no painel, os alunos em aula ficaram impressionados e se produziu uma excelente discussão. Na verdade deu o pano de fundo para o tema do desemparo humano. E, de tudo que foi falado, ficou uma ideia que achei absolutamente definitiva: não suportamos mais não saber e não ter ideia do que poderá nos acontecer no futuro. Desejamos controlar tudo, nossa vida e nosso destino. Bem, se há a menor possibilidade de evitar o câncer de mama, bem, que retiremos as mamas. Mesmo assim, continuamos desemparados. Parece que a Angelina teria 80% de chance de desenvolver um câncer, por conta de um gene que a predisporia ao desenvolvimento da doença. Podemos compreender a sua justificativa. Entretanto, parece que também temos uma grande chance de sermos atropelados ao atravessar uma rua. Então, não vamos mais sair de casa por conta deste risco. E as nossas chances de decepção no amor? Sim, vamos evitá-las também, basta deixar de amar. Além do medo, a “decisão” de Angelina, sob o meu ponto de vista, guarda uma pitada de arrogância. Além de matar o presente em função do futuro. Matar o devir, diria Deleuze .

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Uma magra na sala e…


Por Diana Corso (psicanalista e escritora)
Com arte de Evelyn Negahamburguer
Da Revista Vida Simples

“Gordinha é como pantufa, todo mundo gosta de usar mas ninguém sai de casa com ela!” Eis como uma amiga descreve sua vida amorosa, não pouco atribulada. O problema é que seus parceiros costumam desaparecer antes do sol nascer. Ela acha que fazem isso por vergonha de ser vistos em sua companhia, o que seria um ponto negativo para o currículo deles. Talvez ela tenha razão nessa inquietude: quem come mais do que devia acaba sendo, a princípio, um tipo de transgressor. Gordura, fruto da gula, passou a ser o pior pecado capital…

Talvez, para nossos tempos em que a imagem é tudo, a gorda represente um novo tipo de mulher proibida, da qual acredita-se ser possuidora de um tipo de luxúria oral. Capturada nessa armadilha de fantasias, minha amiga sente-se exilada das relações amorosas legitimadas, relegada a uma espécie de bordel da imaginação.

Hoje como ontem, dá muito trabalho parecer uma mulher recomendável. Agora é preciso suar pela boa forma e cobrir formas irregulares, comer quase nada em público, bronzear-se (sob supervisão dermatológica, claro) e ocultar marcas da idade. Parceiras jovens ou “bem conservadas” pontuam mais. Se necessário, como um dócil objeto de Pigmalião, terão que recorrer à lipo-escultura. Carnes brancas e flácidas não ficam bem. O espartilho, agora invisível, impera como nunca.

Gordinhos representam a tentação e são condenados por viver alheios à cultuada abstinência, por não destilarem em suor suas impurezas. Eles não têm os volumes nos lugares certos: seios fartos, traseiros carnudos, mas a barriga lisa, conforme apregoado pelo cânone da Barbie. Mas, se hoje as garotas podem exibir suas formas em decotes intermináveis e saias sumárias, não seriamos finalmente corpos liberados? Não é o que parece, pois só pode ser visto o que estiver dentro das regras. E com tantas regras a seguir, o exercício e a fome acabam se constituindo numa espécie de burka internalizada. Já o implante de silicone é a voluptuosidade domada.

Os gordos evocam um desejo fora de controle. É como se comendo impudicamente burlassem o trabalho civilizatório, esse que nossa selvageria interior sempre ameaça. Evoluímos para nos alimentar sem voracidade, no lugar da compulsão, queremos ver a força de vontade. Boas maneiras e boa forma são ditadas pelo mesmo manual de etiqueta, essa que nos faz parecer tão ponderados e adequados. Idealizadas magérrimas mulheres francesas que saboreiam mini porções são o antônimo dos estigmatizados gordos, apresentados como selvagens devoradores de montanhas de fast-food. De fato, há gordos que comem sem prazer, só para se estufar, afogar a ansiedade, mas não é só disso que a obesidade é feita. Porém, a verdadeira pergunta é por que isso é mais condenável do que o igualmente estranho prazer de passar fome?

O momento pede pratos exíguos: comida fina que parece natureza morta, de alto apreço estético e baixo valor calórico. A mulher magra e musculosa é tida como a boa moça, enquanto a gorda – não precisa ser uma obesa mórbida, basta fugir ao padrão – evoca prazeres pouco domesticados. Os mais interessantes. Outrora, ressaltando os territórios da boa conduta e o indispensável tempero do proibido, dizia-se às moças que lhes cabia ser como uma dama na sala e uma puta na cama. Quem sabe, agora mudamos a frase, para lhes recomendar que sejam como uma magra na sala e uma gorda na cama?


terça-feira, 1 de outubro de 2013

Psicanálise e feminismo



Por Márcia Arán
Da Revista Cult

O debate sobre psicanálise e feminismo atravessou o século 20 e ganha novos matizes na aurora do século 21. Ora se configurando como campos completamente antagônicos, devido ao teor misógino das principais teses psicanalíticas sobre a sexualidade feminina, ora se aproximando devido ao número significativo não apenas de pacientes mulheres, mas também de mulheres analistas, o debate entre psicanálise e feminismo persiste como uma mola propulsora de teorizações sobre subjetividade e cultura. A abordagem psicanalítica da feminilidade deixa transparecer o enorme esforço da modernidade para recalcar o feminino e a experiência sensível em nome da civilização masculina e da razão. Para ilustrar esse debate, escolhemos duas passagens que fazem parte dessa história: o encontro de Freud com as mulheres histéricas, especialmente Bertha Pappenheim (Anna O.), no final do século 19, e o debate das feministas com a teoria de Jacques Lacan, especialmente Lucy Irigaray, em meados dos anos 1970.
No final do século 19, Freud passa a receber pacientes histéricas que até então eram atendidas em hospitais psiquiátricos como “degeneradas”. A concepção dominante sobre a histeria provinha da confluência de duas teses clássicas: a primeira associava o padecimento histérico ao útero e à sexualidade e a segunda relacionava a histeria com as doenças neurológicas. Segundo Silvia Nunes, a mulher histérica era descrita como “perigosa e sedutora”, devido à suposta combinação de uma “fraqueza moral” com uma “sexualidade excessiva”. Foi preciso que Freud ouvisse essas mulheres para constatar que seu padecimento, longe de designar uma degenerescência, revelava antes o sofrimento íntimo do século 19.
Vários historiadores localizam o surgimento da psicanálise no célebre encontro entre Freud e Anna O. Ela teria sido a primeira a recusar a hipnose e propor a “cura pela palavra”. Pode-se dizer que essa paciente contribuiu para a formação da psicanálise quase tanto quanto o seu primeiro terapeuta, Breuer. Por isso, anos mais tarde, o próprio Breuer alegaria que o tratamento de Bertha Pappenheim continha “a célula germinativa do conjunto da psicanálise”, cultivada por Freud.
Assim, principalmente Anna O., mas também Emmy von N., Lucy R. Katharina, Elizabeth von R., que compõem os Estudos sobre a histeria, revelam o primeiro esboço de uma teoria psicanalítica sobre o inconsciente. A descrição feita por Freud pode ser considerada uma cartografia da insatisfação cotidiana de quem não se conformava com as amarras das obrigações familiares e com a monotonia da vida entre quatro paredes.  Porém, de acordo com Regina Neri, se a cena inaugural da psicanálise está associada à potência do feminino, ao revelar a crise do projeto civilizatório calcado na razão e na dominação masculina, Freud imediatamente iria recuar diante dessa empreitada e se dedicar a pensar como moldar essa sexua-lidade disruptiva. A partir da elaboração do Complexo de Édipo, duas teses sobre a sexualidade feminina irão predominar. A primeira diz respeito à maneira pela qual a menina torna-se uma mulher, ou seja, uma trajetória que pressupõe não apenas a mudança da zona erógena do clitóris para a vagina, mas também o afastamento da mãe em nome do desejo pelo pai, a qual irá resultar na teoria sobre a inveja do pênis. A segunda refere-se à potencialidade narcísica das mulheres, que sustentará a noção de mulher fálica, perigo iminente de uma sexualidade excessiva que deverá ser domesticada pelo masculino.
Essas premissas vão sustentar uma das afirmações mais polêmicas de Freud: a de que “as mulheres se opõem à civilização”. Com isso, a civilização deve ser um assunto de homens, exigindo certa economia subjetiva da qual as mulheres não seriam capazes. Como se a mesma trajetória que a civilização realizara em direção ao progresso fosse a de um indivíduo que se pretende homem.  Assim, o processo de subjetivação na psicanálise passou a ser pensado como o afastamento da mãe em nome do pai.
Uma das primeiras analistas a contestar a primazia do falo foi Karen Horney, para quem homens e mulheres teriam psicologias diferentes oriundas de influências culturais também distintas. Josine Müller e Melanie Klein, a partir de suas experiências clínicas, também alegaram que desde o início a vagina teria um papel importante no desenvolvimento da sexualidade feminina, procurando dar uma positividade à feminilidade. Nesse momento, outras analistas também tomaram a palavra para fortalecer os postulados freudianos, especialmente Hélène Deutsch, Jeanne Lampl de Grott e Marie Bonaparte. Seja como for, o que prevaleceu foi o modelo masculino, em que a sexualidade feminina era compreendida a partir da falta do pênis-falo. Assim, a mulher só pôde ser concebida como um sujeito marcado pela inferioridade ou relegada ao lugar do enigma e da não existência.

Crise do masculino
Décadas mais tarde, Lacan realizará o que se convencionou chamar de retorno a Freud e irá se deparar não somente com a crise do masculino, mas com uma incontestável diminuição do poder do pai nas sociedades modernas. Diante da constatação de que “o pai fora humilhado”, principalmente devido ao “protesto viril das mulheres” e a “feminização dos homens”, o autor conceberá a função paterna como a responsável pela manutenção da ordem simbólica. Essa proposição teve eco na comunidade psicanalítica e inclusive pretendeu que a própria ideia de cultura estivesse necessariamente ligada ao pai. Porém, se as críticas ao simbólico lacaniano e a sua ligação com o projeto familialista dos anos 1940 já são bastante conhecidas e aceitas, as teses lacanianas sobre as fórmulas de sexuação continuam a ser evocadas no debate atual sobre o feminino.
Costuma-se dizer que Lacan avança ao postular, para além do impasse da teoria da inveja do pênis, a existência de um gozo a mais. Os princípios básicos dessa tese encontram-se no Seminário XX, no qual o autor parte de uma dissimetria entre os sexos pela descrição das posições sexuadas masculina (a ordem do Um, do significante ou do sujeito do inconsciente) e feminina (o Outro, que se expressa como ausência ou excesso). A partir daí ele demonstra como cada um desses campos se relaciona com o quantificador universal, ou seja, o falo. Resumidamente, Lacan interpreta o mito freudiano de “Totem e Tabu”, afirmando que um homem se define pela sua sujeição à lógica da castração. Isto se torna possível justamente porque, no inconsciente, “ao menos um”, o pai da horda, não seria castrado, já que gozava de todas as mulheres. No que se refere às mulheres, Lacan afirma que elas não seriam totalmente marcadas pela castração, já que não existiria um mito do lado feminino, ou seja, uma exceção, que as fizesse existir como significante. Dessa maneira, a mulher seria “não-toda” inscrita no simbólico e não existiria significante do sexo feminino na cultura.
Porém, a lógica do “não-todo” conjugada com a afirmação de que “a mulher não existe” se mantém atrelada a uma concepção masculina de desejo. Assim, é porque os homens têm necessidade de colocar o feminino no lugar de enigma que são levados a afirmar que as mulheres se acham numa posição de excesso em relação ao simbólico.
É com essa teoria que Lucy Irigaray, feminista, filósofa e psicanalista, vai dialogar de forma crítica em meados dos anos 1970. A autora empreende uma leitura atenta dos principais textos da filosofia e da psicanálise para mostrar como na lógica binária do Um e do Outro, descrita acima, o que fica de fora como uma exclusão constitutiva é justamente o feminino. Nesse sentido, não bastaria positivar o significante feminino: é necessário desconstruir a lógica falocêntrica para que surja outra economia subjetiva. Assim, repudiado nesse sistema normativo, o feminino se constituirá como uma potência crítica a essa lógica hegemônica. Irigaray parte do corpo das mulheres e da experiência feminina para demonstrar no livro O sexo que não é Um o sentido plural, múltiplo e difuso do prazer feminino e suas diversas possibilidades de simbolização.
Esse novo pensamento sobre a diferença abriu caminho para várias psicanalistas realizarem uma crítica ao modelo da diferença sexual na psicanálise, por meio do esboço de formas de subjetivação que ocorrem no deslizamento entre o feminino e o singular, integrando parte do debate vivo dos estudos de gênero no contemporâneo.


segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Uma mulher linda

Por Luiz Felipe Pondé
Da Ilustrada

Recentemente participei de um debate sobre a trilogia "Cinquenta Tons". Muitas críticas: típico best-seller que identifica um drama universal (o amor) e propõe uma solução "easy" (seja sadomasô light e o casamento virá); a srta. Steele (a heroína) não está a altura de Lady Chatterley (de D.H. Lawrence) nem das irmãs Justine e Juliette (do Marquês de Sade) nem da personagem de "História de O" (de Anne Desclos, sob o pseudônimo Pauline Réage), porque a srta. Steele se vende por um MacBook Pro, enquanto as outras são para valer. Tudo verdade.

O maior pecado de "Cinquenta Tons" é que ele vende uma fantasia: o homem ideal. Christian Grey é rico, bonito, inteligente, viril, experiente. Mas o fato é que as mulheres desejam mesmo homens fortes, viris, sensíveis até a página três, ricos não só de grana. Enfim, "Cinquenta Tons" vende porque fala para todas as mulheres, bobas, ignorantes, cultas ou críticas. Mas, como virou moda mentir, ninguém confessa.

Dias depois do debate, revi um filme idiota americano (como "Cinquenta Tons"), em que um milionário fodão (interpretado por Richard Gere) contrata uma garota de programa (Julia Roberts, ah! Se todas fossem iguais a você, Julia, que maravilha viver...) e acabam se apaixonando. Claro, o filme é "Uma Linda Mulher". A fórmula clara da gata borralheira do sexo que vira a esposa Cinderela.

Mas o longa é muito mais do que isso. Diante da crítica histérica de que é mais um filme machista (que sono...), vale notar que ele faz a pergunta que mata de medo as mulheres: afinal, o que quer o homem numa mulher?

Dirão as apressadas que o homem quer que a mulher traga uma cerveja e venha pelada. Errado: melhor de calcinha e salto alto. Seria a superficialidade masculina o último bastião da ideologia "dominante"? Bastião este que agrada a todas as mulheres porque as acalma: os homens só querem uma bunda!

O filme toca num tema atávico que deixa mesmo as meninas "críticas" de cabelo em pé: seria a garota de programa a mulher ideal?

O personagem de Gere é fodão. Ele sabe o que os fodões sabem: o mundo é repetitivo, e as pessoas são previsíveis. Querem dinheiro, reconhecimento e "serviços", e fazem qualquer coisa para conseguir, embora neguem.

Se, no fundo, todos estão à venda por "um programa" de sucesso, melhor sair com alguém mais honesto: a garota de programa é a mulher menos cara do mundo. Ela "só" quer dinheiro, e isso às vezes é uma bênção. Ela é a mulher ideal porque é a única diante da qual o homem relaxa.

Afinal, o que quer o homem numa mulher? Num dado momento do filme, Gere diz à bela Roberts: "As pessoas são previsíveis, mas você me surpreendeu" (não vou contar detalhes).
Não devemos menosprezar essa fala e o que acontece depois, o apaixonar-se pela garota de programa. Gere sabe o que diz: as pessoas são mesmo previsíveis. Mas hoje a moda é dizer que são todas "únicas".

La Roberts encanta o fodão porque ela não é óbvia, e a mulher óbvia só quer fodões.

Graças a ela, ele rompe o ciclo da desconfiança causada pela obviedade das mulheres, e graças a ele, ela se cansa de ser puta, porque a puta não é uma mulher de verdade.
Os homens sentem que as mulheres querem deles apenas sucesso (em todos os sentidos). Mas hoje virou moda dizer que isso não é verdade. Ficou pior porque continua sendo verdade, mas, quando o cara sente isso, ele deve se sentir um machista porque sabe disso.

O homem quer uma mulher para quem ele não tenha que ser o sr. Grey, mas a mulher não perdoa um homem fraco. A garota de programa perdoa porque "só" quer dinheiro.
A fraqueza masculina aniquila o desejo da mulher. Mas, como essa mulher ideal não existe (assim como o sr. Grey), o ideal acaba ficando colado ao corpo irreal da namorada "paga".

Mesmo sabendo que sr. Grey (um fodão) não existe, as mulheres não suportam homens que não se pareçam com ele, e esta é a verdade suprema de "Cinquenta Tons".

Por fim: uma amiga minha, psicóloga, me disse que muitos dos seus pacientes vêm ao consultório falar de como suas mães (fálicas) destroem seus pais (fracos).
São essas mulheres fálicas, segundo ela, que à noite gemem de solidão sonhando com o sr. Grey.

Óbvio?