quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Homenagem ao cadáver desconhecido

Rembrandt - A Lição de Anatomia do Dr. Tulp

Por Edmundo Gaudêncio
(Texto lido no laboratório de Anatomia da Faculdade de Ciências Médicas, em Campina Grande - PB, em julho de 2013 e dedicado à Turma “Maria das Neves Porto de Andrade”)


Introdução:
(Sobre cada carteira, colocar uma vela apagada)
Diz o Gênesis:
“No princípio, era o Verbo. E o Verbo disse ‘Fiat lux’ e a luz se fez”.
Porque fomos criados à imagem e semelhança de Deus e porque Deus é Luz, que seja luz.
(Acender a vela número um)
Mas disse também Sidarta Gautama, o Buda:
“Milhares de velas podem ser acesas de uma única vela e a vida da vela não será encurtada. Felicidade nunca diminui ao ser compartilhada”.
(Acender todas as velas: a partir da primeira, a segunda; a partir da segunda, a terceira e assim por diante)
Exposição:
É a vida de uma pessoa que ilumina a sua morte ou obscurece o seu fim; é a vida de cada um de Vocês que iluminará a eternidade de sua presença e de sua passagem por entre os mortais. Foi a morte dessa pessoa que chamamos de “Cadáver Desconhecido” que alumiou a vida intelectual de cada um de nós, uma vez que somos Médicos.
A Vocês dedico a luz destas velas, a fim de que ela lhes ilumine os caminhos sobre a terra; aos anjos, acendamos este lume, a fim de iluminar a jornada que, na Eternidade, possa levar a Deus a alma do Cadáver Desconhecido a quem aqui rendemos homenagem.
         (E que Deus ilumine também minhas palavras, quando lhes falo sobre a simbologia da vela, sobre vida e morte e sobre transitoriedade e eternizar-se).
Na vela, a cera ou a parafina representa o corpo do homem; o pavio, a sua alma; a chama, a sua fé – a qual o arremessa para o alto, assim como a chama de uma vela queima sempre de baixo para cima.
A vela, ereta, representa o homem; a chama em seu topo, a luz do pensamento humano. A chama simboliza a luz e a luz simboliza o Deus que alumia a nossa alma. Diante de Deus, a vela representa aquele que a acende e se consome em holocausto e em sacrifício à sua própria Fé.
Mas a vela e sua chama são apenas metáforas para a luz, a luz da Fé, do Conhecimento, da Verdade contra as trevas da Descrença, da Ignorância, da Miséria, lembrando que basta apenas um sopro para que ali onde antes havia claridade, seja outra vez escuridão – não colocamos nas mãos dos nossos moribundos uma vela acesa? E não dizemos “a chama da vida” e não falamos “o sopro da morte”? Em todo caso, é bom lembrar: Entre a penumbra da vida terrena e a claridade da vida eterna, a morte é somente uma breve escuridão.
Sobre isso diz o Eclesiastes: “Vaidade das vaidades, é tudo vaidade. (...) Uma geração vai, e outra geração vem, mas a terra para sempre permanece. E nasce o sol, e põe-se o sol, e volta ao seu lugar donde nasceu. (...) Tudo tem seu tempo determinado, e há tempo para o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou.”

(***)
Tudo na vida é um aqui entre dois acolás. É um hoje, este agora, entre um ontem e um amanhã. Entre o lá de onde viemos e o lá aonde chegaremos, somente nos resta este cá onde pudemos chegar. Do passado que se foi, do amanhã que inda não é, tudo quanto nos resta é este agora neste aqui, ponte entre a efemeridade e o eternizar-se. Sim, somos efêmeros como a chama de uma vela. Somos todos passageiros de nós mesmos e estamos a todo instante em quase-momento de quase partir. Quem sabe sobre o dia de amanhã que pode jamais vir a existir? Mas foi à luz de velas que Shakespeare, por exemplo, escreveu a obra em que, perguntando-se sobre “o ser ou não ser”, imortalizou-se, tornou-se eterno.
Comentários Finais:
Bem se vê, entre ser efêmero, ser-para-a-morte, eternizar-se, muitas são as lições que a Morte nos ensina. Não é a Morte que nos diz que tudo-tudo um dia passa? Não é a Morte que nos avisa que cedo ou tarde, tudo parte? Não é a morte que nos ensina que certo dia, sem comunicado prévio, o sempre de sempre será nunca mais?
Pois bem. Para mim, o que mais a morte nos ensina é que se podemos morrer a qualquer momento, precisamos viver todos os instantes como se fossem os derradeiros. Chamo a isso de “viver em estado de adeus”. Viver se despedindo das coisas, vez que tudo está na iminência de partir ou de partir-se. Viver como se tudo fosse previamente “nunca mais”. É claro, nem todos aceitam isso, pois isso implica em aceitar a triste ideia de que morreremos todos, mais tarde ou mais cedo. Mas, se assim procedêssemos, vivendo antecipadamente a morte das pessoas, dos entes, das coisas, aprenderíamos a viver de perdas, descobrindo que ninguém pertence a ninguém e todos pertencemos à morte. Mas como, para aquele que se descobre mortal, a morte chega sempre antes que de fato chegue, finda ele por descobrir também que, justo por isso, é necessário amar as pessoas, os entes, as coisas, os lugares, “como se não houvesse amanhã”, como diz o poeta. Ou seja, não deixar o abraço para amanhã, o pedido de desculpas, a concessão de perdão, o beijo para amanhã. Amanhã pode ser muito tarde, tarde demais – mas não para estes que, como nós, através do estudo da Medicina, descobrimos a finitude do ser humano e findamos sabendo que somente contamos com o momento presente.
“Mas não é triste viver assim?”, alguns perguntarão. Não triste, mas trágico, com certeza, pois a tragédia é a condição de todo aquele que, estudando a vida, sabe que todo vivente morre – e sabe também que se a morte concreta é uma tragédia  e  em sentido figurado morte é fim,  na dialética  da morte,  todo fim implica em recomeço, assim como todo começo tem um fim – aliás, não há coisa mais desejada na vida que certos fins: o fim da guerra, o fim da sede, o fim da noite insone, o fim do sofrimento que não tinha fim, o fim do medo de morrer que somente finda quando vem a morte, enfim...
Mas porque tudo finda, minhas palavras também devem findar, fazendo-lhes, antes, um pedido: Quando, como de praxe, aplaudirem minhas palavras, aplaudam, principalmente, como único aplauso que jamais tenha recebido em vida, aplaudam essa pessoa desconhecida a quem chamamos de Cadáver Desconhecido, pelo tanto que aos estudiosos da Medicina ela ensinou.
Enfim, dizia eu, porque tudo está sempre em vias de se despedir, despeço-me. E melhor que minha fala, sobre cada um de Vocês, para cada um de Vocês, que lhes fale a voz de Deus, através de Mateus, o Evangelista: “Vós sois a luz do mundo” – por isso vão e iluminem suas vidas, levando a luz onde quer que seja escuridão.
Que Deus seja a sua Luz e por isso iluminados sejam os caminhos de cada um de Vocês.


terça-feira, 12 de novembro de 2013

O futuro de uma classificação


Por Gilson Iannini e Antonio Teixeira
Da Revista Cult

Num futuro não muito distante…

A ciência progride a passos largos. Quem, há vinte anos, poderia prever a abrangência do DSM-11 (Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais)? É preciso lembrar que, desde a conturbada recepção do DSM-5, há quase vinte anos, a arbitrariedade de suas classificações e a ausência de fundamentação científica foi percebida tanto pela comunidade neurocientífica quanto pela comunidade dos trabalhadores em saúde mental. Portanto, não é exagero dizer que o dia 13 de dezembro de 2031 entrará para a história. As inovações do volume prometem um grande avanço científico no tratamento dos transtornos mentais.

Entre as novas síndromes descritas, destacam-se a padronização do tempo de luto normal para até três dias (decorrido esse prazo, o luto deve ser tratado como depressão patológica excessivamente intensa), além da tão sonhada descrição objetiva de 27 síndromes que acometem bebês e recém-nascidos e as tão esperadas síndromes ligadas ao trabalho, à religião, às artes e à política. Além da descrição de mais 374 novas síndromes, somadas aos 1.417 transtornos descritos na última versão, o DSM-11 traz ainda um aplicativo capaz de diagnosticar quaisquer transtornos em pouco mais de três segundos, interligado a um sistema de delivery de medicamentos. Entre as novidades mais esperadas, destacam-se a “síndrome do choro sem causa aparente detectável”, o “transtorno anoréxico infantil” e a “síndrome da insônia precoce”. A “síndrome do choro sem causa aparente detectável” é conhecida de pais e educadores. Antes da última versão do DSM, era erroneamente considerada como condição normal do lactente. Agora, a recomendação é que sejam tratados com psicofármacos bebês que, a partir do terceiro mês de vida, ainda apresentem choro sem causa aparente, diariamente ou, pelo menos, três vezes por semana. Já o “transtorno anoréxico infantil” acomete bebês com mais de seis meses que se recusam a serem alimentados com alimentos sólidos ou pastosos, o que acarretaria grave prejuízo ao desenvolvimento nutricional infantil. Também foi incluída a “síndrome da insônia precoce”, que é uma grave doença, provavelmente genética, que acomete uma parcela significativa dos bebês entre 9 e 18 meses de idade e que se caracteriza pela dificuldade em dormir um sono ininterrupto por, no mínimo, nove horas seguidas. Ainda na infância, foi descrito o “transtorno egossintônico da personalidade narcísica”, que acomete crianças que se identificam ou fantasiam ser princesas ou super-heróis. No capítulo sobre adolescência, foram introduzidas a “síndrome do diário de memórias”, caracterizada por uma compulsão em escrever experiências imaginárias em linguagem cifrada nos diários íntimos e desenhar coraçõezinhos inúteis, que acomete principalmente as meninas, e a “síndrome de formação de bandas sem futuro promissor pelo menos provável”, que descreve patologias ligadas à necessidade compulsiva de se formar bandas com o gênero musical em voga. Grande avanço foi observado também com a descrição da “síndrome da indefinição profissional”, que acomete tantos adolescentes em idade de definição profissional.

No capítulo sobre os transtornos relativos ao trabalho, foi introduzido o “transtorno do déficit de produção”, o “distúrbio monomaníaco cafeíno-induzido”, conhecido também como “síndrome do cafezinho”, que acomete principalmente funcionários públicos, e o “atraso matinal monomaníaco”, que se caracteriza por chegar atrasado ao trabalho, pelo menos uma vez por mês, por até 15 minutos. No capítulo sobre religião, foi introduzido o “transtorno de crença em entidades não-verificáveis experimentalmente”, com diferentes graus de fanatismo. Esse diagnóstico, corretamente realizado, é capaz de detectar propensão a atos de terrorismo já a partir da pré-adolescência. A “síndrome do invencionismo crônico” agrupa sintomas ligados à necessidade que pessoas antes consideradas como “artistas” têm de inventar “novas maneiras” disso ou daquilo. Ficou provado que gênios, antes tidos como “artistas”, sofreram de graves transtornos psiquiátricos, facilmente solucionáveis com tratamento adequado. São sintomas dessa doença: empregar palavras fora de seu contexto descritivo ou comunicacional, desenhar pessoas com quatro braços ou tartarugas cor-de-rosa, empregar notas musicais desnecessariamente dissonantes, utilizar objetos comuns de maneira inusitada, apropriar-se do espaço de maneira não-convencional.

No campo da política, foi ampliada a “esquerdopatia crônica”, grave sintoma que acomete parte da população, que apresenta sintomas como: produção de teorias conspiratórias acerca dos interesses do capital, inconformismo com a ordem vigente, postura crítica diante da mídia, leitura regular ou irregular de livros de filosofia e outras ciências humanas, além de outros graves acometimentos. Quanto às síndromes econômicas, foi descrita a “síndrome da incapacidade de produzir riqueza”. Entre os sintomas dessa condição psicopatológica estão: pobreza crônica, endividamento, boemia, leitura recorrente de livros de poesia. Está frequentemente associada a episódios de esquerdopatia aguda.

Na categoria patologias da vida conjugal, o grave acometimento que antes respondia pelo nome de amor, foi incluído como “transtorno monoerótico imaginário”. O tratamento requer internação compulsória por um período de seis semanas e separação total da pessoa “amada”. Outra coisa que chama a atenção positivamente é a exclusão de todas as condições ligadas ao que antes se denominava “vida subjetiva”, desde a implementação da obrigatoriedade da vacina antipulsional. O que demonstra o sucesso do programa de erradicação da sexualidade humana para fins não-reprodutivos.

A verdade tem estrutura de ficção

O caráter hiperbólico do texto acima pretende apenas exibir aquilo que a versão atual do DSM-5 não consegue mais ocultar: o caráter normativo de suas classificações, fundadas num movimento vertiginoso de psiquiatrização da vida cotidiana e numa psicopatologização do mal-estar subjetivo. Pois, por mais que essa paródia nos mostre o aspecto risível desse esforço de catalogação, é preciso aceitar que, do ponto de vista puramente formal, não há nada de propriamente exorbitante numa prática classificatória, seja ela qual for. Podemos constituir classes ou grupos, bastando, para tanto, atribuir um predicado comum a determinado número de indivíduos. O problema é que as classes normalmente se compõem em torno de uma representação atributiva que um discurso destaca, como é o caso da presença de mamas na formação da classe dos mamíferos, ou de incisivos superiores pronunciados, no caso dos roedores. Mas quando se trata de classificar sujeitos, mesmo que se busque imprimir uma marca de pertencimento sobre o corpo, como no caso da circuncisão para os judeus, as classes assim constituídas não se encontram fundadas sobre nenhuma propriedade representável. Uma classe de sujeitos depende, estritamente falando, do efeito de uma nomeação, de sorte que quando dizemos que alguém é judeu, brasileiro, proletário, burguês etc., a classificação assim produzida resulta somente do proferimento do nome. Diante, portanto, da ausência de uma propriedade representável consistentemente definida para classificar os seres falantes, os idealizadores do DSM se veem livres para criar novas classes diagnósticas, a seu bel prazer, ou, o que é pior, em conformidade com os lançamentos da indústria farmacêutica ou com as exigências dos gestores de saúde.

Tudo pode ser classificado do ponto de vista de uma prática discursiva, inclusive condutas, posições políticas e mesmo o amor. Que seja. Nada impede, todavia, que tomemos, então, para nós, essa mesma liberdade classificatória e avancemos ficcionalmente até o nível virtual de um último DSM em que o catálogo se capilariza. Este último DSM deveria, portanto, descrever um transtorno que acomete, preferencialmente, gestores obcecados com a rentabilidade dos planos de saúde, frequentemente vinculados a laboratórios farmacêuticos, assim como docentes universitários financiados por laboratórios, até pouco tempo restritos às universidades norte-americanas, porém com tendência a se propagarem para outros territórios. Chamemo-la de “transtorno de compulsão classificatória avaliativa maniforme” (TCCAM), ou doença de Simão Bacamarte, em homenagem ao alienista descrito por Machado de Assis, no final do século 19, que em nosso tempo se manifesta como uma necessidade incontrolável de classificar e avaliar todo comportamento observável, assim como preencher compulsivamente espaços de “sim”, “não” e “mais ou menos” em planilhas de avaliação. Alguns desvios caracteriais evidentes dessa síndrome incluem: a incapacidade sistemática de questionar a sua própria função e a necessidade obsessiva de eliminar todo e qualquer sofrimento subjetivo. Observa-se ainda, como sinal patognomônico desse quadro, uma importante alteração do juízo de realidade, manifesta no sentimento delirante de estar no direito de classificar e avaliar os demais sem permitir que seja avaliado ou classificado o próprio exercício de avaliação. A classe dos classificadores, assim constituída, não tolera que ela própria seja classificada. Em seu delírio, os pacientes acometidos pela TCCAM, ou pela doença de Bacamarte, chegam a se arrogar o direito de definir o que é científico ou não, sem, contudo, expor critérios que possam definir a cientificidade de sua prática classificatório-avaliativa.

Essa última versão paródica do DSM tem o interesse de nos apresentar, em seu limite, o caráter autofágico de uma prática desenfreada de avaliação classificatória. É bem verdade que, até o atual momento, os classificadores do DSM não fazem parte do conjunto dos objetos classificados, tal como os catálogos do paradoxo de Russell, que não contêm a si mesmo. Mas quando criamos, com a Casa Verde virtual do DSM-11, a classe dos classificadores compulsivos que não classificam a eles próprios, o paradoxo é inevitável: essa classe contém ou não contém os classificadores? Ela os contém porque não os contém, não os contém porque os contém e daí por diante… Teríamos, então, chegado a esse feliz momento de ironia suprema, em que o classificador enlouquece e decide, tal como o alienista de Machado de Assis, internar-se e deixar-nos finalmente em paz?

Mas as coisas não são tão simples assim. Sabemos que o DSM – a despeito de sua absoluta indigência epistemológica – não será tão cedo classificado como um caso patológico de compulsão classificatória, pois existe uma estrutura exterior sobre a qual ele se sustenta. O DSM permanece coeso, a despeito de todas as modificações que possa sofrer, em razão da tríplice aliança de catálogo, pílulas e discursos que o mantêm. Em primeiro lugar, o catálogo, enquanto operador da gestão, confere ao DSM sua forma de listagem provisória, que pode ser mudada conforme se modificam os arranjos institucionais do poder ao qual ele presta serviços. Em segundo lugar, cada classe catalogada será o máximo possível vinculada à pílula terapêutica, que é a promessa de bem-estar mental em sua forma-mercadoria, sustentada pelas estratégias de marketing dos laboratórios. Associações tais como TDH-Ritalina ou Distimia crônica-Venlafaxina são emblemáticas nesse sentido. Em terceiro lugar, o discurso da tecnociência, submetido à lógica do capital, organiza a crença mercantil que associa demanda e produto – no caso, doença mental e arsenal terapêutico – numa relação de evidência supostamente controlável. Sua função é dar à associação do catálogo com a pílula a roupagem do discurso da ciência.

Mas em que pese o caráter manifestamente ideológico que aqui se faz do discurso científico, é inútil protestar contra o DSM. Podemos, aliás, dizer que é do protesto que o DSM se nutre e extrai sua permanência. Sendo o protesto uma variável do discurso da demanda, na forma trivial da queixa, nada mais fácil ao DSM do que prover meios para responder às reclamações contra seus supostos excessos, mediante renovações periódicas de suas listagens. Se Lacan tem razão ao dizer que ao protestar contra uma situação, entramos no discurso que a condiciona, é porque, assim fazendo, indicamos as correções que tornam essa situação mais suportável. A prova disso é a supressão, em 1980, do diagnóstico de histeria no DSM-3, em resposta ao protesto das feministas contra o caráter sexista dessa denominação, assim como a eliminação, a partir de 1987, da categorização patológica da homossexualidade egodistônica para satisfazer ao lobby dos homossexuais americanos.

Estamos, aliás, às voltas com um protesto recente, de grande esplendor midiático, anunciado tanto no Le Monde quanto no NYT, relativo à decisão anunciada por Thomas Insel, diretor do prestigioso Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA (NIHM), de não mais se guiar pelo DSM. O DSM não mais nos serve, diz ele, em razão da falta de cientificidade de sua classificação. Se ao menos essa atitude fosse o prenúncio de um novo esforço de se pensar o mental fora dos enquadres disciplinares usuais… Que nada! Há mais alarde do que propriamente novidade nessa informação. O caráter ateorético do DSM é, há mais de trinta anos, conhecido de todos, e Thomas Insel, diretor da NIMH, não seria certamente o último a saber disso. Do ponto de vista prático, o DSM será ainda mantido, não apesar, mas graças aos ataques que vem recebendo. Ele encontrará meios de renovar, com outros adornos, sua roupagem pseudocientífica e comporá novas listas que agradem mais aos poderes que o subvencionam.

Até mesmo porque o projeto atualmente lançado pelo Instituto Nacional de Saúde Mental, coordenado por Thomas Insel, que deu origem ao Research Domain Criteria (RDoC), não produz grande diferença do ponto de vista do que se tem conhecimento na área da psiquiatria. Sua proposta de biologizar a realidade mental, de tratar o psiquismo nos termos de uma neurobiologia, nada mais é do que o velho naturalismo do antes-de-ontem de volta à cena como novidade reluzente do depois-de-amanhã, num palco arrimado pela crença de que a racionalidade tecnocientífica detém a derradeira palavra sobre a natureza e sobre o homem. A razão é mais ideológica do que epistêmica: eles bem sabem que quem hoje se vale do discurso da ciência passa a gozar de uma autoridade inquestionável, posto que não existe nenhuma instância extra-científica que nos autorize a questionar o seu veredicto.

Desse ponto de vista, se o mental será o neurobiológico, ou o físico-químico, ou o genético ou mesmo, quem sabe, o molecular, isso importa pouco. O que importa é que o nome, assim escolhido, pareça não ser apenas uma nomeação, pois esse é o atual erro do DSM: mostrar o mecanismo por detrás da mágica, revelar a impostura da qual ele é feito. O que interessa é organizar a convicção de que se pode estabelecer uma classificação da realidade mental que não seja uma pura nomeação, a partir de uma propriedade representável cientificamente, conforme a ideia que o senso comum faz da ciência neste ou naquele momento.

Não deixa, contudo, de ser interessante notar a ausência de um verdadeiro programa clínico no campo das neurociências. Isso não é casual, pois basta dar a palavra ao sujeito para se ver cair por terra esse ideal de representação científica da doença mental num código sem ambiguidades. O exemplo maior disso continua sendo o de Freud, que cedo percebeu a categoria irredutível do sujeito em sua experiência clínica. Mesmo partindo das concepções naturalistas da ciência de seu tempo, Freud se viu levado, malgrado ele próprio, a reintroduzir a subjetividade no campo metapsicológico pelo simples e fundamental gesto de escutar o que tem a dizer seu paciente. Freud, ali, encontrou um sujeito irredutível às classes que o englobam, ali onde o neurocientista visa calar o sujeito numa classe universal que o apreende sem resto.

O que caracteriza uma clínica que possa realmente sustentar esse nome é o esforço de pensar o sujeito em sua singularidade irredutível. Uma classificação diagnóstica deve ser suficientemente precisa e bem fundamentada para permitir uma estratégia de condução do tratamento, mas suficientemente aberta para pensar a maneira que cada sujeito encontra de ser inagrupável, i.e., de permanecer dessemelhante dos demais membros de sua própria classe. Toda verdadeira clínica nunca é mera técnica, mas é também uma aposta ética e política. É por esse conjunto de razões que, no atual momento, precisamos não de mais classes diagnósticas, mas de menos.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Kubrick de olhos bem abertos


Por Luiz Felipe Pondé
Da Ilustrada

Depois de ler sobre pré-história, minha percepção do mundo mudou. Para começo de conversa, o tema da violência na condição humana é melhor compreendido quando olhamos para nossos ancestrais do Paleolítico Superior do que quando tentamos compreendê-lo a partir de ideias como "o modelo social está ultrapassado", apesar de saber que frases como essa dão orgasmo em muita gente.

Somos seres do desejo, e não de razão. Com isso não quero dizer que não sejamos racionais, mas sim que o desejo se impõe à razão. Freud e Lacan bem sabem disso. Schopenhauer e Nietzsche também sabem isso. Devoramos tudo à nossa volta por conta dessa força irracional chamada desejo.

O cineasta Stanley Kubrick (que aliás está "nos visitando" no Museu da Imagem e do Som, o MIS) entendeu bem esse aspecto: é na pré-história e no desejo que melhor entendemos nossa desorganização interna, nossas contradições e a luta que temos cotidianamente contra elas. Refiro-me a dois dos seus filmes, "2001, Uma Odisseia no Espaço", de 1968, e "De Olhos Bem Fechados", de 1999.

O primeiro se abre com o momento descrito como "aurora". Nessa sequência, dois bandos de homens pré-históricos disputam a posse de um pequeno lago. O mais fraco perde. Depois, acuados, comem ervas embaixo de uma pedra, atormentados por predadores à noite.

Um deles, na manhã seguinte, descobre que, tendo um osso nas mãos, consegue ficar mais forte. Matam um animal grande e "se tornam" carnívoros (o vegetarianismo é um comportamento ultrapassado evolucionariamente).

Mais tarde, munidos de ossos nas mãos, atacam o bando que os haviam expulsado do lago. O "novo homem", com uma arma na mão, retoma o lago. Na cena seguinte, joga o osso para cima e este vira uma nave espacial. Chegamos ao futuro da pré-história.

Já na última parte do filme, vemos o primeiro computador com inteligência artificial se "revoltar" contra os dois astronautas da nave. O que o filme nos revela? Que o "avanço técnico" seguramente está associado à violência.

Isso não significa que seja "bonito". Hoje em dia, por causa do modo como se dá o debate público, baseado em caricaturas do outro, difamação e simplificação ridícula (tipo: quem não pensa como eu é racista, "sequicista" e a favor da TFP), torna-se necessário fazermos reparos como esse: reconhecer a relação de implicação entre melhoria material da vida, avanço cultural e uma dose de violência não significa achar isso bonito, mas sim reconhecer o grau de ambivalência que marca nossa condição. Mas, num mundo de mimados, como é o nosso, dizer isso parece ser "gostar" disso.

O que Kubrick está dizendo aqui é que provavelmente nossa história de ganhos técnicos implica um alto grau de risco. O problema é que queremos os ganhos, mas, no mundo da carochinha, no qual vivem os mimados, parece ser possível zerar a ambivalência. Nada disso quer dizer que devemos cultivar a violência, mas que não adianta pintar sua cara com cores de anjo porque só vai convencer gente boba.

No outro filme, "De Olhos Bem Fechados", Kubrick dialoga profundamente com Freud. O filme é baseado, em última instância, num sonho de Freud no qual ele entra num trem e um aviso diz que ali só permanecem pessoas de olhos bem fechados.

O sonho está dentro do processo de "autoanálise" de Freud, no qual ele descobre o complexo de Édipo e sua vergonha pelo fato de o pai não ter reagido a uma humilhação feita por um grupo de antissemitas testemunhada pelo menino Sigmund. O tema envolve a ambivalência dos sentimentos e desejos da criança para com os pais.

No filme, a mulher (a deusa Nicole Kidman) conta para o marido (Tom Cruise) que um dia desejou fazer sexo violento com um oficial da Marinha que ela tinha visto num hotel quando eles estavam num momento "família" (quis ser a "puta" dele). Com isso, ela joga o marido num total desespero, que só se encerra quando ela o chama para trepar ("let's fuck").

O desejo da bela e bem comportada mulher revela ao marido que nem ela escapa da desorganização do desejo sexual "ilegítimo". A vida ordenada está sempre por um triz.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O gato de E.T.A Hoffmann

http://rizzenhas.com/wp-content/uploads/2013/09/gato_murr6-1.jpg 
Ilustração de Maximilian Liebenwein para o livro


Por Taize Odelli
Do rizzenhas.com

Quando imaginamos um clássico da literatura, geralmente pensamos em um livro perfeito em sua técnica, aquele que ditou formas e maneiras de se narrar uma história. A inventividade, nesse caso, é uma característica que demora para vir à mente. O romance pode ter entrado para a história da literatura por quebrar paradigmas, narrar o que antes era inenarrável, desafiar a compreensão do leitor. Tudo isso, de alguma forma, se imprime no imaginário do livro ideal, daquele que, não importa o quanto os anos passarem, continuarão sendo aclamados com os grandes romances definidores do estilo e que, décadas depois, ainda continuam atuais. Reflexões do gato Murr – e uma fragmentada biografia do compositor Johannes Kreisler em folhas dispersas de rascunho, de E.T.A. Hoffmann, parece estar meio esquecido na coleção de clássicos literários, mas agora é resgatado em uma nova edição traduzida por Maria Aparecida Barbosa e publicada pela Estação Liberdade.

A inventividade pode ser o termo definidor desta obra, que expõe críticas aos costumes da sociedade alemã do século XIX de uma maneira pouco convencional. O principal narrador é, como podemos imaginar pelo título, um gato chamado Murr. Isso mesmo, é um gato quem assume a escrita de sua própria história, da juventude aos anos maduros. Mas se isso não bastasse, além das linhas líricas e cheias de pompa de Murr, Hoffmann ainda brinca com as possibilidades da própria literatura ao incluir “acidentalmente” nesta edição o manuscrito de uma biografia sobre um imaginário compositor, Johannes Kreisler, cujas folhas de rascunho Murr usou para escrever sua história. Hoffmann toma o papel de editor desses escritos, e explica como esse imprevisto aconteceu, deixando o livro dividido entre a vida do gato e a do compositor, com um relato interrompendo o outro.

A partir da introdução já é possível entender a personalidade deste felino de modos burgueses e intelectuais. Murr é um gato convencido de sua inteligência superior, considerando ter uma importante missão a cumprir no mundo: espalhar sua sabedoria para os outros gatos. Suas pretensões artísticas são altas, seu ego é constantemente inflado por ele mesmo. É um gato extraordinário e convencido, como todos os gatos – quem tem um em casa percebe toda a altivez por trás do focinho fofo. Seu desprezo pela ignorância só deixa essas características eruditas do animal mais evidentes, e, assim como alguns homens, Murr quer viver todas as experiências possíveis para poder refletir e teorizar sobre o comportamento humano – ou felino.

Hoffmann criou um personagem rabugento e engraçado ao mesmo tempo, e apesar de todas as palavras finas e poemas rimados que compõe, a narração de suas experiências só comprovam a visão limitada que esse gato tem do que significa viver. Como um cachorro amigo, Ponto, e outros gatos sempre lhe lembram: sobra o conhecimento adquirido dos livros e das letras, mas falta-lhe a vivência das ruas. Assim, muitas das aventuras narradas por Murr trazem o relato dessas tentativas de interagir com o mundo, conhecendo a filosofia dos felinos que não pretendem passar os dias dormindo em almofadas confortáveis e rascunhando nos papéis de seus donos. Tudo o que Murr não quer ser é um gato “filisteu”, de “espírito vulgar e estreito”, como Muzius, um felino amigo, sentencia em certo trecho:

    “Acredite no que lhe digo ao pé da letra: o estudo solitário não lhe servirá para nada e lhe será até prejudicial. Porque com isso você segue sendo filisteu burguês, e não tem nada mais insípido e pedante que filisteu erudito!”

A crítica à alta sociedade esclarecida também aparece nas partes do romance dedicadas à biografia de Johannes Kreisler. Esta, narrada provavelmente por Mestre Abraham, dono do gato Murr, se propõe a contar como se passaram os dias do compositor quando viveu sendo mestre de capela em uma corte alemã. Até a metade do livro, o narrador foca nos gracejos que Kreisler faz com toda a vida da corte: como o seu sarcasmo encanta e ao mesmo tempo espanta os nobres alemães, e, apesar disso, como o compositor conquista as altas damas daquele lugar. O encanto do compositor está em sua falta de apego às grandezas da corte, que para ele pouco importa frente à sua música e a coisas mais simples da vida, como amizade, sabedoria e amor. A definição que Mestre Abraham faz de Kreisler ao duque é um ótimo resumo do comportamento da personagem:

    “Veja, Kreisler não possui suas cores, não compreende suas expressões, a posição entre vocês que lhe é oferecida lhe parece pequena demais, estreita; vocês não podem contá-lo como igual, e não se conformam. Ele não quer reconhecer a eternidade das convenções sobre as formas de vida do modo como vocês fecharam; crê que uma loucura maligna se apoderou de vocês, não os deixando enxergar a autenticidade da vida, que a solenidade reinante no império, incompreensível para nós, é digna de riso, e a isso vocês chamam amargura.”

Diferente das reflexões de Murr, focadas somente no ego do gato, o narrador da história de Kreisler constantemente relata acontecimentos que envolvem outras personagens para formar o pano de fundo da história do compositor. No final, esta parte do romance de Hoffmann, além de demonstrar essa falta de importância que o protagonista dá às convenções sociais, é uma intrincada história de amor cheia de intrigas e arranjos que comprometem a felicidade das personagens.

Hoffmann intercalou muito bem essas duas histórias, mostrando como duas narrativas diferentes podem estar presentes no mesmo tempo e espaço – e também na mesma folha de papel. Murr e Kreisler, dois seres de diferentes espécies, estão presentes na mesma época, na mesma cidade, e às vezes também na mesma cena, mas o que cada um tem para deixar no papel é bem diferente. As preocupações de Murr estão no seu conhecimento, na sua produção lírica e em ser visto como um gato sábio e exemplar para a espécie, caindo nos mais diversos grupos e vivendo inúmeras experiências para poder preencher centenas de folhas com o seu saber. Já Johannes Kreisler busca, além da pureza artística em sua música, algo mais simples da vida, que é a felicidade encontrada nas outras pessoas, livres de máscaras e jogos sociais. No final, tanto o gato como o homem denunciam a mediocridade por trás dos seres sábios e nobres, o pedantismo que existe nas pessoas que passam a vida tentando ser ou parecer mais talentosas e mais intelectuais do que realmente são.

Hoffmann escreveu, por trás da curiosa história escrita por um gato, um romance de costumes costurado por intrigas, planos e revelações. Murr é uma brincadeira divertida, um animal irracional que racionaliza a sua condição de felino e seu lugar no mundo, enquanto Kreisler é envolvido nos assuntos obscuros de uma corte cujos costumes ele despreza abertamente. Em momento algum o leitor se perde nessas duas narrativas, e o mais interessante é que ele termina a leitura achando bem plausível que um gato, além de miar, arranhar, comer e dormir, seja capaz de escrever suas próprias memórias.



terça-feira, 5 de novembro de 2013

Tim-tim, Marcel Proust!


Por Mario Sergio Conti
Da Ilustríssima

RESUMO A série Primeiríssima Mão, em que a "Ilustríssima" adianta trechos de lançamentos vindouros, traz o início do primeiro tomo de "À Procura do Tempo Perdido". "Do Lado de Swann", cujo centenário se completa no dia 14, ganha nova tradução para o português, a sair pela Penguin/Companhia das Letras em 2014.

No próximo dia 14, será o centenário da chegada às livrarias parisienses de "Do Lado de Swann", o primeiro dos sete tomos de "À Procura do Tempo Perdido", de Marcel Proust. Multidões não sairão às ruas para, mascaradas com o bigodinho do romancista, fazer vigília no Ritz, onde ele pedia um frango inteiro, cerveja e inúmeras xícaras de café quando escrevia o seu livro.

Apenas alguns, em Londres, no Cairo, em Tóquio ou numa padaria nas Perdizes, brindarão à memória do grande artista. Foi ele quem aclarou as intermitências do coração, a mecânica dupla da memória, a força paralisante do hábito, a engrenagem da sociedade cujo fluido é medo e engano, a matéria dúctil do tempo que se perde e é dado aos seus leitores reencontrar.

Datado? Sem dúvida; vive-se na história. Mas, enquanto a enferrujada geringonça burguesa continuar a ranger e a moer mulheres e homens aos milhões, lá estará "À Procura do Tempo Perdido". Para compreender o que se nos passa nos dias de solidão de amor, o romance entre Swann e Odette.

Para analisar a política ao redor, a reação dos distintos ao caso Dreyfus. Para entrever o que de bom pode vir depois do ciclo do capital, uma sonata no salão da Duquesa de Guermantes. Com conhaque barato num copo ordinário: tim-tim, Marcel!

Quatro editores se recusaram a publicar "Do Lado de Swann". Havia motivos mundanos para tanto. Proust era tido como diletante. Não tinha profissão, nunca trabalhara, vivia em festas, herdara o equivalente a dezenas de milhões de reais com a morte dos pais. Publicara a suas custas um livro ilustrado, crônicas de jantares de grã-finos e traduções do caótico John Ruskin.

RITMO VEGETAL Houve também razões literárias. Ninguém entendeu o livro, a combinação de análise e narração, o desenvolvimento em ritmo vegetal, as mudanças cubistas de assunto de um capítulo para o outro, os hiatos abissais no enredo. Mas Proust sabia o que estava escrevendo. Quer dizer, tinha uma noção incerta do que fazia: imaginava que escrevia um romance em dois livros. Depois viraram três, foram para cinco e acabaram em sete.

O mais famoso dos vetos à publicação foi o de André Gide. Proust sempre se queixou de que a "Nouvelle Revue Française", onde o autor de "O Imoralista" era editor, nem abrira o pacote com o original datilografado de "Swann". Mas Gide leu, sim, trechos do livro e estranhou sobremaneira algumas imagens proustianas, como as "vértebras" que apareciam na testa de uma personagem, a tia Léonie.

Proust acabou pagando para que uma nova editora, a de Bernard Grasset, o publicasse. Lentamente, o livro seguiu seu curso, o de amealhar espanto e admiração até se tornar uma obra-prima do modernismo. Gide veio a ler "Swann" inteiro. Escreveu então uma carta a Proust dizendo que a sua recusa inicial fora um dos maiores erros que cometera na vida. O rascunho da carta será leiloado no próximo dia 26, e a Sotheby's avalia que ele será arrematado por 150 mil euros.

O trecho traduzido a seguir é o comecinho de "Do Lado de Swann".

Nele, o narrador descreve o lusco-fusco entre insônia e sono, entre sono e sonho, entre sonho e realidade. Ao mesmo tempo, vai relembrando diversos dos quartos onde dormiu ao longo dos anos. O passado e o presente se condensam naquilo que ele escreve: "Um homem que dorme mantém em círculo ao seu redor o fio das horas, a ordem dos anos e dos mundos".

Proust comparou "Tempo Perdido" a uma catedral e a uma sinfonia. É útil ter essas metáforas em mente ao iniciar a sua leitura. A estranheza que se experimenta não advém da dificuldade do estilo do escritor, perfeitamente compreensível. É que a leitura da abertura do romance corresponde a ver uma catedral bem de perto. Ou a ouvir apenas os primeiros acordes da protofonia de uma peça musical majestosa.

Só com o recuo em relação à igreja, só com o desenvolvimento da sinfonia --para que se possa contemplá-las na sua inteireza, do começo ao fim-- é possível captar a inteligência do romance em plenitude. O espaço e o tempo precisam agir para que Proust viva.
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Quartos da minha vida
A reviravolta total nos mundos fora de órbita

Por Marcel Proust 
Tradução de Mario Sergio Conti

Por um longo tempo, deitei cedo. Às vezes, mal apagada a vela, meus olhos se fechavam tão depressa que não tinha tempo de me dizer: "Adormeço." E, uma meia hora depois, o pensamento de que era tempo de procurar dormir me despertava; queria pousar o volume que acreditava ainda ter nas mãos e assoprar a luz; não cessara de fazer reflexões dormindo sobre o que acabara de ler, mas essas reflexões haviam tomado um rumo um tanto particular; parecia-me que era de mim mesmo que o livro falava: uma igreja, um quarteto, a rivalidade de Francisco I e Carlos V. Essa crença sobrevivia durante alguns segundos ao meu despertar; ela não chocava a minha razão, mas pesava como escamas sobre meus olhos e os impedia de perceber que a vela não estava mais acesa. Depois ela começava a me parecer ininteligível, como os pensamentos de uma existência anterior depois da metempsicose; o assunto do livro se destacava de mim, eu estava livre para me deter nele ou não; logo recobrava a visão e ficava atônito de estar imerso numa obscuridade, suave e repousante para os meus olhos, mas talvez ainda mais para o meu espírito, ao qual ela aparecia como uma coisa sem causa, incompreensível, como uma coisa verdadeiramente obscura. Eu me perguntava que horas poderiam ser; escutava o silvo dos trens que, marcando as distâncias como o canto mais ou menos afastado de um pássaro na floresta, me descrevia a extensão do campo deserto onde o viajante se apressa em direção à próxima estação; e o pequeno caminho que percorre ficará gravado na sua lembrança pela excitação que ele deve aos lugares novos, aos atos inabituais, às conversas recentes e às despedidas sob a lâmpada estrangeira que ainda o seguem no silêncio da noite, e à doçura próxima do regresso.

Encostava suavemente minhas faces nas belas faces do travesseiro que, cheias e frescas, são como as faces da nossa infância. Riscava um fósforo para olhar meu relógio. Logo meia-noite. É quando o doente que fora obrigado a partir em viagem e a dormir num hotel desconhecido, despertado por uma crise, se alegra ao perceber sob a porta um raio do dia. Que felicidade, já é de manhã! Num instante os criados estarão de pé, poderá tocar a campainha, virão lhe prestar socorro. A esperança de ser aliviado lhe dá coragem para sofrer. Agora mesmo achou que ouvia passos; os passos se aproximam e depois se afastam. E o raio do dia que estava sob a porta desapareceu. É meia-noite; acabam de apagar o gás; o último criado partiu e será preciso passar a noite toda a sofrer sem remédio.

Readormecia, e às vezes só despertava por breves instantes, o tempo de escutar os estalos orgânicos das madeiras, de abrir os olhos para fixar o caleidoscópio da obscuridade e, graças a um brilho momentâneo de consciência, de experimentar o sono no qual estavam mergulhados os móveis, o quarto, o todo do qual eu era apenas uma pequena parte e a cuja insensibilidade voltava rapidamente a me agregar. Ou então, dormindo, havia regressado sem esforço a uma época para sempre passada de minha vida primitiva e reencontrado alguns dos meus terrores infantis, como o de que meu tio-avô me puxasse pelos cachos de cabelo, e que se dissipara no dia -- data para mim de uma nova era -- em que os tinham cortado. Havia esquecido esse acontecimento durante o meu sono, e reencontrava a sua lembrança assim que conseguia acordar para escapar às mãos de meu tio-avô, mas por precaução envolvia completamente a cabeça com meu travesseiro antes de retornar ao mundo dos sonhos.

Às vezes, como Eva nasceu de uma costela de Adão, uma mulher nascia durante o meu sonho de uma falsa posição de minha coxa. Formada pelo prazer que eu estava a ponto de experimentar, imaginava que era ela quem o oferecia. Meu corpo, que sentia no dela o meu próprio calor, tentava juntar-se a ela, e eu acordava. O restante dos humanos me parecia bem distante diante dessa mulher que eu havia abandonado há apenas alguns momentos; minha face ainda estava quente do seu beijo, meu corpo dolorido pelo peso do seu. Se, como acontecia algumas vezes, ela tinha os traços de uma mulher que conhecera na vida, iria me dedicar inteiramente a esse objetivo: reencontrá-la, como aqueles que partem em viagem para ver com os próprios olhos uma cidade desejada e imaginam que se pode experimentar numa realidade o encanto do sonho. Pouco a pouco a lembrança dela se esvanecia, eu esquecia a moça, filha de meu sonho.

Um homem que dorme mantém em círculo ao seu redor o fio das horas, a ordem dos anos e dos mundos. Ele os consulta por instinto ao acordar e neles lê num segundo o ponto da terra que ocupa, o tempo que correu até despertar; mas a sua ordem pode se embaralhar, se romper. Se de madrugada, após uma insônia, o sono o surpreende durante a leitura numa postura demasiado diferente da que dorme habitualmente, basta o seu braço erguido para deter e fazer o sol recuar, e no primeiro minuto do seu despertar ele não saberá mais as horas, achará que acaba de se deitar. Se adormecer numa posição ainda mais insólita e inabitual, por exemplo numa poltrona depois de jantar, então a reviravolta será total nos mundos fora de órbita, a poltrona mágica o fará viajar a toda velocidade no tempo e no espaço, e no momento de abrir as pálpebras achará que está deitado alguns meses antes, noutra região. Mas bastava que, em minha própria cama, meu sono fosse profundo e descontraísse inteiramente o meu espírito para que este perdesse o mapa do lugar onde havia dormido e, quando eu acordava no meio da noite, como ignorasse onde me encontrava, nem sequer soubesse num primeiro instante quem eu era; tinha apenas, na sua simplicidade original, o sentido da existência tal como ele pode fremir no fundo de um animal; estava mais despido que o homem das cavernas; mas então a lembrança -- não ainda do lugar onde estava, mas de alguns onde morara e poderia estar -- vinha a mim como um socorro do alto para me retirar do vácuo de onde não poderia sair sozinho; em um segundo passava por séculos de civilização, e a imagem confusamente entrevista de lâmpadas a querosene, e depois de colarinhos de gola rebatida, recompunha pouco a pouco os traços originais do meu eu.

Talvez a imobilidade das coisas ao nosso redor nos seja imposta pela nossa certeza de que são mesmo elas, e não outras, pela imobilidade de nosso pensamento diante delas. O fato é que, quando acordava assim, com meu espírito se agitando para tentar saber, sem conseguir, onde estava eu, tudo girava em torno de mim no escuro, as coisas, as regiões, os anos. Meu corpo, entorpecido demais para se mexer, procurava, segundo a forma do seu cansaço, discernir a posição dos seus membros para daí deduzir a direção da parede, o lugar dos móveis, para reconstruir e nomear a moradia onde se achava. Sua memória, a memória de suas costelas, de seus joelhos, de seus ombros, lhe apresentava sucessivamente vários dos quartos onde havia dormido, enquanto ao seu redor as paredes imóveis, mudando de lugar segundo a forma do cômodo imaginado, turbilhonavam nas trevas. E antes mesmo que o meu pensamento, que hesitava na soleira dos tempos e das formas, tivesse aproximado as circunstâncias e identificado o cômodo, ele --meu corpo-- recordava para cada quarto o tipo de cama, o lugar das portas, o lado para que davam as janelas, a existência de um corredor, e isso junto com o que pensara ao adormecer e que reencontrava ao acordar. O lado anquilosado de meu corpo, procurando adivinhar sua orientação, imaginava-se, por exemplo, estirado ao longo da parede numa grande cama de dossel, e eu logo me dizia: "Ora, acabei dormindo antes que mamãe tenha vindo me dar boa-noite"; eu estava no campo, na casa do meu avô, morto havia muitos anos, e meu corpo, o lado sobre o qual eu repousava, fiéis guardiães de um passado que meu espírito não deveria jamais esquecer, me recordavam a chama da luminária de cristal da Boêmia, em forma de urna, suspendida no teto por pequenas correntes, a lareira de mármore de Siena no meu quarto de dormir em Combray, na casa de meus avós, em dias distantes que naquele momento eu imaginava atuais, sem deles formar uma imagem exata, e voltaria a ver melhor dali a pouco, quando de fato tivesse acordado.

Depois renascia a lembrança de uma nova atitude; a parede fugia noutra direção: eu estava no meu quarto na casa de Madame de Saint-Loup, no campo; meu Deus! são pelo menos dez horas, devem ter terminado de jantar! Devo ter prolongado demais a sesta que faço todos os finais de tarde ao voltar de meu passeio com Madame de Saint-Loup, antes de vestir minha casaca. Pois muitos anos se passaram desde Combray, quando, nos nossos regressos mais atrasados, eram os reflexos vermelhos do poente que eu via nos vitrais de minha janela. É outro tipo de vida que se leva em Tansonville, na casa de Madame de Saint-Loup, outro tipo de prazer que encontro ao sair apenas à noite, percorrendo ao luar esses caminhos onde antigamente brincava ao sol; e o quarto onde terei adormecido em vez de me vestir para o jantar, de longe o vejo ao regressarmos, atravessado pelo fogo da lâmpada, único farol na noite.

Essas evocações rodopiantes e confusas nunca duravam que alguns segundos; muitas vezes, minha breve incerteza do lugar onde me encontrava não distinguia melhor umas das outras as diversas suposições da qual ela era feita, assim como não isolamos, vendo um cavalo correr, as posições sucessivas que nos mostra o cinescópio. Mas eu tinha revisto ora um, ora outro, os quartos que havia habitado na minha vida, e acabava por me recordar de todos eles nos longos devaneios que se seguiam ao meu despertar; quartos de inverno onde, quando se está deitado, aconchega-se a cabeça num ninho que se tece com as coisas mais disparatadas: um canto do travesseiro, a parte de cima do cobertor, uma ponta de xale, a beira da cama e um número do "Débats Roses", que acabamos por cimentar com a técnica dos pássaros, calcando-as indefinidamente; onde num tempo glacial o prazer que se saboreia é o de se sentir separado do exterior (como a andorinha do mar cujo ninho fica ao fundo de um subterrâneo no calor da terra), e onde, com o fogo mantido a noite toda na lareira, se dorme num grande manto de ar quente e esfumaçado, atravessado pelos lampejos de brasas que se reavivam, espécie de alcova impalpável, de caverna cálida escavada no seio do próprio quarto, zona ardente e móvel nos seus contornos térmicos, arejada por sopros que nos refrescam o rosto e provêm dos cantos, de partes vizinhas à janela ou afastadas do fogo, e que esfriaram -- de verão onde se gosta de se estar unido à noite morna, onde o luar apoiado nos postigos entreabertos joga até o pé da cama sua escada encantada, onde se dorme quase ao ar livre como o pássaro embalado pela brisa na ponta de um raio de luz -- às vezes o quarto estilo Luís XVI, tão alegre que nem na primeira noite nele me sentira muito infeliz, e onde as pequenas colunas que sustentavam levemente o teto se afastavam com tanta graça para mostrar e reservar o lugar da cama; às vezes, ao contrário, era um quarto pequeno e de pé-direito tão alto, escavado em forma de uma pirâmide da altura de dois andares e parcialmente revestido de mogno, onde desde o primeiro segundo eu ficara moralmente intoxicado pelo cheiro desconhecido do patchuli, convencido da hostilidade das cortinas roxas e da insolente indiferença do pêndulo tagarelando alto como se eu não estivesse ali -- onde um estranho e impiedoso espelho de pés quadrangulares, barrando obliquamente um dos cantos do cômodo, escavava à força na suave plenitude de meu campo visual de costume um lugar imprevisto; onde meu pensamento, esforçando-se durante horas por se deslocar, por se expandir para o alto, a fim de tomar exatamente a forma do quarto e preencher até em cima o seu gigantesco funil, passava noites bem duras enquanto estava estendido na minha cama, os olhos erguidos, o ouvido ansioso, as narinas desobedientes, o coração palpitante: até que o hábito tivesse mudado a cor das cortinas, calado o pêndulo, ensinado a piedade ao espelho oblíquo e cruel, dissimulado ou expulso totalmente o cheiro de patchuli, e diminuído sensivelmente a altura aparente do teto. O hábito! criada hábil mas vagarosa, que começa por deixar nosso espírito sofrer durante semanas numa instalação provisória; mas o qual, apesar de tudo, é bem feliz de encontrar, pois sem o hábito, e reduzido a seus próprios meios, nosso espírito seria impotente para tornar um aposento habitável.


segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Salinger, Pynchon e outros eremitas literários


Da Ilustríssima
Por Alexandre Rodrigues
Ilustração de Deborah Paiva

RESUMO A reclusão tem sido um estilo de vida abraçado ao longo do tempo por grandes escritores, do japonês Saigyo Hoshi, no século 12, ao brasileiro Rubem Fonseca. Biografia de J.D. Salinger e novo romance de Thomas Pynchon lançam luz na vida e obra dos escritores, dois dos mais folclóricos eremitas do mundo das letras.

*
Recluso mesmo era Saigyo Hoshi (1118-90). Patriarca da literatura reclusa, movimento que prosperou no Japão medieval, o soldado que largou a farda aos 22 anos e foi escrever poemas no campo acreditava que o escritor devia viver em isolamento para refletir sobre as restrições da vida normal nas cidades e sobre a natureza.

De maneira menos radical, a tradição sobreviveu como a opção de alguns gigantes da literatura depois da fama. A poeta americana Emily Dickinson (1830-86) passou seus últimos 20 anos em casa. O francês Marcel Proust (1871-1922) não só ficou 13 anos isolado, tempo em que escreveu "Em Busca do Tempo Perdido", como nos últimos três nem sequer saiu do quarto.

Entre os brasileiros, Dalton Trevisan, Raduan Nassar e Rubem Fonseca -este prestes a pôr na praça seu 28º título, "Amálgama", pela Nova Fronteira- vivem quase no anonimato. Mas é provavelmente na percepção da obra de dois norte-americanos que a imagem eremítica mais colou. Ao falar de J. D. Salinger (1919-2010) e Thomas Pynchon, parece quase impossível dispensar o aposto "recluso" e suas variantes.

Os lançamentos de "Salinger" [Simon & Schuster, 720 págs., R$ 87], biografia do autor de "O Apanhador no Campo de Centeio", e "Bleeding Edge" [Penguin, 478 págs., R$ 88,10], novo romance de Pynchon, deixam em evidência os dois ermitões. Salinger viveu 55 anos isolado do mundo. Pynchon vai além: há 60 anos não é fotografado e por mais de uma década duvidou-se até de sua existência.

Não é surpresa que o isolamento seja o fio condutor de "Salinger", biografia assinada pelo escritor David Shields e pelo roteirista Shane Salerno, diretor do documentário de mesmo nome que estreou nos EUA em setembro. Filme -que deve virar cinebiografia com atores- e livro -a sair no Brasil em janeiro, pela Intrínseca- se completam num conjunto multimídia que vem irritando fãs do autor pelo foco em sua vida pessoal.

Nascido em 1919, filho de um judeu e de uma católica convertida ao judaísmo, criado na classe média de Nova York, Jerome David era mais um autor jovem e promissor quando os japoneses atacaram a base de Pearl Harbor, em 1941.

Decidiu se alistar no Exército e acabou na linha de frente do desembarque das tropas aliadas na Normandia no Dia D, 6 de junho de 1944. Tomou parte de outras batalhas importantes e presenciou a libertação do campo de concentração de Dachau, na Alemanha. Terminou o conflito internado em um hospital psiquiátrico com transtorno de estresse pós-traumático.

Seus contos, até então algo frívolos, passaram a refletir o vazio dos jovens que chegaram pós-Guerra. Publicada pela revista "New Yorker" em 1948, a história "Um Dia Ideal para os Peixes-Banana", cujo personagem principal, Seymour Glass, era um traumatizado de guerra, fez com que o escritor fosse visto como a voz de sua geração.

Seu único romance, "O Apanhador no Campo de Centeio", o transformaria de autor "cult" em celebridade. Lançado em 1951, o livro, um libelo contra o sistema protagonizado pelo adolescente rebelde Holden Caulfield, já vendeu mais de 65 milhões de cópias e influenciou multidões: de escritores como Tom Wolfe, que dá depoimento no filme e no livro, a figuras como Mark Chapman, o assassino de John Lennon, preso na cena do crime com um exemplar do romance.

Passatempo

O Brasil não ficou incólume à rebeldia de Holden. Fãs do livro, três jovens resolveram traduzi-lo como passatempo. A versão foi publicada em 1965 pela Editora do Autor, de Fernando Sabino, Rubem Braga e Walter Acosta, este ainda hoje à frente da casa.

Por pouco, o livro não foi batizado "A Sentinela do Abismo". "Eu e meus cotradutores (Alvaro Alencar e Antonio Rocha) achamos que não ia funcionar no Brasil a tradução literal de 'The Catcher in the Rye'", recorda Jorio Dauster. Da agente de Salinger, porém, chegou a ordem: nada de mexer no título.

"Como nessa época já era impossível ter contato direto com o eremita de New Hampshire, fomos obrigados a ceder. Anos mais tarde, descobri os desatinos que tinham sido cometidos com o título -por exemplo, 'Uma Agulha no Palheiro', em Portugal, e 'El Cazador Oculto', na Espanha- e dei toda razão ao Salinger", diz.

Mas, se a história de Holden Caulfield cativava leitores e fez do escritor um homem rico, a invasão de sua vida pessoal logo começou a perturbá-lo. Salinger ainda lançaria três livros, mas em 1955 deixou Nova York, iniciando seu exílio na pequena cidade de Cornish. A partir de 1965, quando publicou na "New Yorker" o conto "Hapworth 16, 1924", fez-se seu silêncio.

Shields e Salerno garantem ter as respostas para o que aconteceu.

Mas boa parte das alegadas revelações não é propriamente novidade. Biografias como "Em Busca de J. D. Salinger", do inglês Ian Hamilton (processado pelo escritor), e os livros de Margaret Salinger, sua filha, e da romancista Joyce Maynard, sua ex-paquera, já diziam que ele se dedicara à filosofia religiosa vedanta, só comia alimentos crus e vivia amargurado pelas lembranças da guerra.

O que "Salinger" conta de novo é que, ao contrário das lendas, ele não era propriamente um malucão solitário. Frequentava cafés, se relacionava com os vizinhos, ia ao cinema, tinha amigos. E escrevia. Uma "revelação" importante, ainda a confirmar, é de que ele teria deixado cinco livros prontos, a serem publicados entre 2015 e 2020.

Em termos literários, pouco há a acrescentar. A preferência é por informações que beiram a fofoca, com espaço até para uma especulação sobre o fato de que o escritor teria apenas um testículo.

Houve críticas e os autores responderam. "Meu objetivo não é derrubar Salinger, mas mostrar as fontes (de inspiração) horríveis da arte e os custos sem fim de uma guerra sem fim", defendeu-se Shane Salerno, em um artigo para a "Esquire". "Ele não era um deus. Era só um homem. Esse é o ponto."

Pseudônimo

Como Salinger, Thomas Pynchon evita a imprensa. Sabe-se que nasceu em 1937, serviu a Marinha e estudou na Universidade de Cornell. Suas poucas fotos conhecidas, mostrando um garoto dentuço, foram feitas há décadas. Por muito tempo não se sabia onde vivia e cogitou-se até que Thomas Pynchon seria um pseudônimo adotado por J. D. Salinger.

Hoje sabe-se que ele mora em Nova York e é casado com a própria agente, Melanie Jackson, com quem tem um filho. À falta de detalhes pessoais, os livros têm sido a chave para sua visão do mundo.

Sua obra pode ser dividida entre romances curtos com trama mais ou menos definida e protagonistas claros, caso de "V.", "Vineland" e "Vício Inerente", e os caudalosos e experimentais, cheios de camadas, como os catataus "O Arco-íris da Gravidade" e "Contra o Dia".

"V." (1963), seu primeiro romance, trazia elementos que se tornariam sua marca: ironia, humor negro, sociedades secretas, enciclopedismo, citações obscuras e personagens de nomes esquisitos. Dez anos depois, com "O Arco-Íris da Gravidade", primeiro grande romance moderno sobre a paranoia, Pynchon foi reconhecido como um mestre.

Apesar de ele ser considerado hermético, seus leitores respondem com adoração. Os mais dedicados criaram na internet um banco de dados(pynchonwiki.com).

"Pynchon é um dos grandes nomes da ficção norte-americana do final do século 20", opina Paulo Henriques Britto, um de seus tradutores no Brasil. "A maneira como ele incorpora elementos da baixa cultura e os combina com uma técnica sofisticada permanece única."

"Bleeding Edge", nono livro do autor, atualiza temas caros a ele, tendo ao fundo o mais importante evento do século até agora: o 11 de Setembro.

A protagonista do romance, Maxine Tarnow, uma examinadora de fraudes, descobre, ao investigar o empresário de tecnologia Gabriel Ice, que o atentado às Torres Gêmeas não tem a ver com fundamentalismo, mas com uma conspiração envolvendo geeks, hackers e a máfia russa.

As tramas paralelas típicas de Pynchon estão de volta. Seu temor quanto aos poderes da tecnologia também -aqui dirigido contra a internet. Lançado nos EUA em setembro e sem previsão de publicação no Brasil, "Bleeding Edge" tem sido saudado como um dos melhores livros do autor e foi indicado ao National Book Award.

"O recluso tende a ser cada vez mais uma figura de exceção com a incorporação da literatura no circuito das celebridades, com os festivais literários e demais nexos com o mundo do entretenimento massivo", opina Luís Augusto Fischer, professor de literatura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A internet, porém, embaralhou o conceito de recolhimento: "O autor pode viver num isolamento físico e manter-se conectado".

Nos últimos anos, Pynchon tem se tornado mais visível.

Rompeu o silêncio em 2006 com uma carta de apoio ao inglês Ian McEwan, acusado de plágio no romance "Reparação". Chegou a fazer duas "aparições" na série de TV "Os Simpsons", ambas com um saco de papel na cabeça, gravou sua voz num filmete para promover "Vício Inerente" -que ganhará no ano que vem versão cinematográfica por Paul Thomas Anderson- e até deu uma breve declaração à CNN (não levada ao ar, mas lida por um narrador).

Nela, ironizou: "'Recluso' é um código usado por jornalistas que significa: 'Não gosta de falar com repórteres'".

Uma peça publicitária feita pela editora para "Bleeding Edge" debocha da sua lenda. Nela, um jovem de óculos escuros vaga por Nova York vestindo uma camiseta com os dizeres: "Olá, eu sou Tom Pynchon".


sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Angeli: Contra a politicagem e o politicamente correto

Foto: foto Nelson Mello
Por Fernando Luna
Crédito da foto: Nelson Mello
Da Revista Trip


Talvez você não saiba. Pode ter se distraído e nem percebeu ou, sei lá, estava mais preocupado com qualquer outra coisa. Mas é certo: você foi zoado pelo Angeli. Todo mundo foi. Empresário? Confere. Motorista de táxi? Confere. Webmaster? Confere. Estilista, designer, publicitário? Confere. Motoboy? Também. Político? Ô.

Arnaldo Angeli Filho, 53 anos, coloca sua prancheta diariamente a serviço da avacalhação ampla, geral e irrestrita. Homem ou mulher, liberal ou conservador, descolado ou careta, não passa nada. Todos ridículos cidadãos da República dos Bananas, um país imaginário, incrivelmente semelhante a uma certa República Federativa do Brasil, formado por incríveis 28 mil charges políticas e tirinhas de comportamento – boa parte reproduzida na Folha de S. Paulo, onde Angeli publica há 37 anos.

No jornal, é o único nome que frequenta regularmente tanto o caderno de política quanto o de cultura. Suas charges, que lhe valeram a reputação de mais contundente chargista político do país, saem quatro vezes por semana no espaço nobre da página 2. Suas tiras, crônicas ilustradas de costumes e maus costumes, ocupam diariamente o topo da seção de quadrinhos. Para Angeli, não tem diferença: “Olho da mesma forma para o comportamento e para a política. Nas charges, penso como crítico de comportamento”. Há tempos é assim.

Ele começou cedo. Emplacou seu primeiro desenho aos 14, na extinta revista Senhor. É autodidata. Cresceu no bairro da Casa Verde, na modesta zona norte de São Paulo. Pai funileiro, mãe costureira, os dois filhos de imigrantes italianos. Anarquistas, graças a Deus? Ao contrário, uma família conservadora, “daquelas que só pensam em cuidar dos filhos e em trabalho, trabalho, trabalho”.

Ele aprendeu a lição (pelo menos essa, já que foi expulso da escola na quinta série, depois de repetir três vezes, e não voltou mais): “Me sinto um funileiro na hora de desenhar, sou um proletário”. Um proletário, diga-se, anterior às conquistas trabalhistas, como a jornada de oito horas. Com a insônia que o acompanha desde a adolescência, dorme apenas quatro horas por dia, e passa praticamente as outras 20 entre pincéis, nanquim e, no momento de colorir, computador.

“Todo mundo na família do meu pai tem mão pra desenho”, conta. “Mas só quem se profissionalizou fomos eu e um primo, que faz painéis pro McDonald’s. Como nossa assinatura é igual, a turma fala ‘Angeli se vendeu!’.” A acusação é recorrente, só o que muda é o comprador. Ora Angeli se vende para a direita, ora para a esquerda: depende de quem está apontando o dedo, de quem está no poder. “Nunca quis servir ninguém”, devolve. “É possível você ter um lado e ser crítico com esse lado também.”

 Quando a ditadura acabou e Angeli já não via tanta graça em debochar da política, desviou seu foco do Planalto Central para as ruas de São Paulo. Criou com o amigo de infância Toninho Mendes a revista bimestral Chiclete com banana – na época, apenas uma canção do repertório de Jackson do Pandeiro, que tropicalistas transformaram em símbolo de miscigenação de ideias, nada a ver com grupo baiano de axé. Em páginas de papel tosco, personagens como Rê Bordosa, Bob Cuspe, Wood & Stock, Walter Ego e Os Skrotinhos protagonizaram, entre 1985 e 90, a insana história da vida privada brasileira.

Angeli seguia um roteiro parecido. Mesmo em meio à loucurinha de sexo, drogas e rock’n’roll, deu um jeito de se casar três vezes. A primeira vez, com uma ex-colega de escola, durou quatro anos. A segunda rendeu 18 anos de união e dois filhos – Pedro, 29, faz parte do coletivo audiovisual Embolex, e Sofia, 25, dá aulas de educação física para crianças. O terceiro, com Carol, está completando 13 anos. Carolina de Carvalho, 33, é formada em arquitetura, trabalha com design gráfico e, como ela mesma diz, “cuida do rapaz”.

No apartamento de dois quartos onde mora e trabalha, no bairro paulistano de Higienópolis, Angeli conversou com a Trip entre cafés, cigarros e, como ninguém tem mais 20 anos, pães de queijo. Pendurado na sala, um pôster reproduz uma tira da série “Angeli em crise”. Lá está o avatar do cartunista, olhando a cidade pela janela. No primeiro quadrinho, ele se gaba: “Carros, edifícios, fumaça... Esta cidade eu conheço muito bem”. No seguinte, a cidade retruca: “Babacão, canalha, bicha, mau-caráter, panaca, tarado!”. E o terceiro conclui: “... e ela a mim, é claro”. Angeli zoa até Angeli.

Seu trabalho mudou a política de alguma maneira?
A política é um pouco mais poderosa, cara. É difícil a visão de um artista, de um crítico ou de um sociólogo mudar isso aí.

E o humor, em geral, muda a política?
O humor muda as pessoas. A política, tenho dúvidas.

Política não é feita por pessoas?
Você chama aquilo de pessoas?!

Você anula o voto?
Já anulei, mas não é uma regra.

Como vai ser nesta eleição?
A seleção?!

A eleição.
[Ri] Realmente não entendo nada de futebol... Mas você perguntou o quê?

Em quem você vai votar na próxima eleição.
Ah, deixa só dizer uma coisa: sou lesado. Minha memória recente não existe. Tem horas em que fico pensando “do que estava falando?!”. Mas você perguntou da eleição...

Em quem vai votar para presidente?
Não sei ainda... O cenário é bom, não tem Maluf no meio, nenhum Sarney. Se bem que o Sarney sempre está em algum lugar...

O que Sarney e Maluf representam?
Sarney ganhou de bandeja o poder, carrega aquela merda toda da ditadura. O Maluf... sou paulistano, qualquer paulistano que pensa tem aversão a ele. É o primeiro dos mauricinhos, perfumado, com corrente de ouro. O movimento da boca dele... [faz uma careta]. Tenho problemas com a anatomia do Maluf.

Já encontrou com eles?
Quando fui homenageado com a ordem do mérito cultural, lá em Brasília, o [senador Eduardo] Suplicy me levou pra conhecer o Senado. De repente, entra na sala do Sarney. Fiquei incomodado. Aí ele levanta e fala, segurando minha mão: “Você é o melhor”. Pra mim foi uma derrota, saí de lá cabisbaixo. Sempre fui cruel nas charges com Sarney, mexi com a família toda, e não funcionou...

E o Maluf?
Também encontrei uma vez, no aniversário de 80 anos da Folha. Fui pego de surpresa, o máximo que consegui foi falar “já fiz muito charge do senhor”. E ele [imitando a voz do Maluf]: “Vai fazeeeendo, vai fazeeeendo!” [risos]. O perfume dele ficou na minha mão... Ele tem alguma distorção mental.
 
O pessoal te chama para esses encontros de candidatos com artistas?
Chama. Não vou. Não me interessa conhecer esses caras. Se o cara é meio legal, você acaba gostando dele. Não quero gostar...

Você é do contra?
[Ri] Hum, acho que sou, sim.

Existe humor a favor?
A publicidade faz, eu não consigo. Quando começou o PT, muitos cartunistas começaram a fazer humor a favor. O próprio Henfil [1944-1988] fez. Isso me incomoda. A função do cartunista é alfinetar, levantar discussão.